1.1

Primeira parte

A meditação sobre o dizer

A diferença entre ente e ser

Primeira seção

A discussão do «é», do ente no todo

§ 2. O ente no todo é real, possível, necessário

Pensar o ente no todo (Seiendes im Ganzen) a partir da injunção «Toma sob teu cuidado o ente no todo» exige abandonar a identificação imediata entre ente e realidade efetiva, pois pertence ao domínio do que é não somente aquilo que atualmente se apresenta como real, mas também o possível, que ainda não é efetivo sem por isso ser nada, e o necessário, cuja modalidade de ser difere tanto da realidade efetiva quanto da possibilidade, de modo que o ser (Sein) do ente no todo deve compreender em si a realidade do real, a possibilidade do possível e a necessidade do necessário sem que se possa admitir antecipadamente que essas três modalidades esgotem a essência do ser.

§ 3. O não pensar da diferença essencial entre ser e ente

Em todo comportamento para com o ente já se distingue implicitamente o ente (Seiendes) de seu ser (Sein), porque dizer que «o ente é» significa simultaneamente referir-se àquilo que é e ao modo pelo qual ele é, embora essa diferença permaneça ordinariamente despercebida, não interrogada quanto à sua proveniência, essência e fundamento e até confundida na linguagem, na qual se fala de «ser» querendo dizer ente e de ente querendo dizer ser, apesar de a diferença entre ambos atravessar previamente todo dizer, todo conhecer e todo comportamento humano em relação tanto aos entes que o homem não é quanto ao ente que ele próprio é.

§ 4. A impossibilidade de encontrar o «é»

A impossibilidade de encontrar o «é» como uma propriedade observável do ente evidencia que o ser não se oferece como mais um componente presente no objeto nem pode ser transferido sem dificuldade para um sujeito que julga, pois na proposição «a folha é verde» encontra-se o verde na folha, mas não se encontra nela o «é», e localizar esse «é» no sujeito apenas deslocaria a questão, já que também o sujeito é um ente cujo próprio ser permaneceria por explicar.

§ 5. A ausência de questionamento do «é» na determinação gramatical — vazio e riqueza de significado

A determinação gramatical do «é» como forma conjugada do verbo «ser» e como cópula que liga sujeito e predicado parece confirmar sua absoluta indeterminação e pobreza semântica, porque sua função de ligação exigiria que permanecesse vazio para poder unir conteúdos inteiramente diversos; contudo, a multiplicidade irreduzível de sentidos assumidos pelo «é» nos diferentes enunciados e, de maneira extrema, sua densidade inesgotável no verso poético de Goethe fazem vacilar essa interpretação e deixam aparecer sob a aparente uniformidade da palavra uma riqueza cuja proveniência não pode ser decidida simplesmente pela gramática.

a) Vazio e indeterminação do «é» como pressuposto de seu ser «cópula»

A interpretação gramatical segundo a qual o «é» desempenha no enunciado a função de cópula parece exigir essencialmente sua indeterminação, porque somente um elemento não previamente carregado de significado particular poderia servir de vínculo entre sujeitos e predicados extremamente diversos, fazendo do vazio não uma deficiência ocasional da palavra, mas precisamente a condição funcional de seu emprego universal.

b) O ser («é») como o genérico, universal

Quando a uniformidade do «é» é tomada como indicação de que «o ser» constitui apenas a representação mais geral obtida pela abstração de todas as determinações particulares dos entes, o ser transforma-se no universalíssimo e simultaneamente no mais vazio, perdendo todo peso próprio diante do ente e tornando a diferença entre ser e ente aparentemente insustentável, já que um dos termos da diferença seria somente a generalização sem conteúdo do outro.

§ 6. A palavra de ordem do senso comum: agir e atuar no ente em vez de pensar vaziosamente sobre o ser (trabalhador e soldado)

O apelo do senso comum para abandonar o pensamento abstrato sobre o ser e alcançar o ente no todo mediante agir e atuar no real adquire sua força histórica numa época cujo traço fundamental é interpretado como vontade de poder, na qual «trabalhador» e «soldado» deixam de designar simplesmente uma classe social e uma profissão para se tornarem títulos metafísicos da forma humana que executa o ser do ente enquanto vontade de poder, submetendo produção, ciência, cultura e organização da existência à mobilização e à conservação planejada de uma forma de domínio.

§ 7. A renúncia ao ser — a operação do ente

A experiência imediata, a produção e a organização do ente podem tornar o saber do ser aparentemente dispensável, conduzindo à renúncia ao ser como se ela fosse libertação de uma abstração inútil; contudo, justamente essa renúncia deixa novamente aparecer a diferença entre ser e ente, pois o fato de o homem poder lidar eficientemente com os entes sem tematizar o ser não decide se aquilo que ele experimenta antes e mais originariamente que todo ente não é precisamente o ser, de modo que o supostamente «supérfluo» pode revelar não a pobreza do vazio, mas um excesso essencial cuja percepção exige romper os trilhos habituais da gramática e da utilidade.

Recapitulação

1. A meditação sobre o ente no todo pressupõe o estar essencialmente inserido do homem na diferença entre ser e ente

A injunção de tomar sob cuidado o ente no todo somente pode ser verdadeiramente seguida quando se retorna ao início (Anfang) do qual ela procede e se reconhece que pensar o ente já significa encontrar-se previamente inserido na diferença entre ente (Seiendes) e ser (Sein), diferença que não é produzida arbitrariamente pelo pensamento humano nem aplicada como uma regra aprendida, mas constitui o âmbito originário no qual o homem já permanece sempre que se relaciona com algum ente e o determina como ente.

2. Riqueza e pobreza de significado do «é»

O «é» manifesta simultaneamente riqueza e pobreza de significado, pois a variedade de seus usos e a plenitude singular de sua ocorrência poética parecem testemunhar a riqueza essencial do ser, enquanto sua função gramatical de cópula exige uma indeterminação que o torna aparentemente a palavra mais vazia, tensão que percorre a metafísica ocidental desde Platão, para quem o ser vale como aquilo que é maximamente ente, até Nietzsche, para quem ele se converte no mais nulo, sem que essa oposição rompa necessariamente com a interpretação comum do ser como o universalíssimo.

3. A equiparação da operação do real com a meditação sobre o ente no todo

Uma vez considerado o ser uma abstração vazia, a injunção de pensar o ente no todo pode ser reinterpretada sem dificuldade como exigência de permanecer junto aos fatos, operar o real, realizar possibilidades e assegurar a eficácia do efetivo, identificando-se desse modo a meditação sobre o ente no todo com a participação ativa na realidade e compreendendo-se a liberdade moderna, sobretudo em Nietzsche, como autorresponsabilidade e participação no exercício da vontade de poder.

4. A permanência impensada do homem na diferença entre ser e ente

O homem permanece sempre, embora de modo impensado, na diferença entre ser e ente, pois todo comportamento em meio aos entes já pensa o ser e somente pode encontrar pátria, terra, mundo e a si mesmo como entes porque estes previamente se manifestam enquanto entes segundo determinado modo de ser, de maneira que a diferença aparentemente indiferente e nula pode constituir uma abertura mais originária que todos os espaços particulares e mais essencial que quaisquer oposições encontradas no ente ou mesmo no interior do ser.