0 Introdução

A conexão interna entre fundamento — ser — início

§ 1. Esclarecimento do título da preleção «Conceitos fundamentais»

a) Conceitos fundamentais são conceitos-fundamento

A expressão «conceitos fundamentais» (Grundbegriffe), tomada em seu sentido habitual como designação das representações gerais que delimitam domínios de objetos, deve ser reconduzida ao sentido mais originário de Grund-Begriffe, no qual não se trata de conceitos fundamentais de uma ciência particular nem simplesmente de conceitos próprios da filosofia, mas da disposição para alcançar e apreender o fundamento (Grund) de tudo aquilo que é, isto é, aquilo que fundamenta (be-gründet) o ser humano e tudo quanto por ele é tomado como ser (Sein).

b) A exigência dos conceitos-fundamento

Pensar os Grund-Begriffe significa corresponder à exigência de alcançar o fundamento como aquele solo no qual se torna possível uma posição firme e onde se decidem as determinações essenciais, de modo que o saber do fundamento não consiste em mera tomada de conhecimento, mas numa posição e numa atitude que, sendo mais originárias que o conhecer habitual, o querer corrente e o sentimento ordinário, constituem elas mesmas o caráter essencial pelo qual o homem pode ser conduzido à meditação (Besinnung).

c) A diferença entre as exigências dirigidas ao homem

α) A exigência das necessidades: o precisar

Quando a atenção se orienta exclusivamente por aquilo de que se precisa, o homem permanece submetido à inquietação das necessidades, dos desejos, dos interesses e da utilidade, isto é, ao impulso incessantemente crescente da mera vida, cuja aparência de movimento e liberdade encobre uma servidão determinada pela contínua ampliação daquilo que se considera necessário.

β) A exigência dirigida à essência do homem histórico

A atenção ao que pode ser dispensado rompe com o cálculo imposto pela utilidade e conduz à restrição ao essencial (Wesenhafte), restrição que não constitui empobrecimento, mas libertação para a amplitude das exigências que alcançam a essência do homem histórico e lhe permitem permanecer aberto àquilo que não procede de suas necessidades nem se mede pelo bem-estar individual ou coletivo.

d) A disponibilidade para o originário e o inicial e o pretenso saber superior da consciência histórica

A alternativa decisiva situa-se entre permanecer disponível para aquilo que é sempre originário e inicial ou entregar-se ao pretenso saber superior da consciência histórica, cuja atitude calculadora transforma a história em objeto de avaliação segundo as categorias de «novo» e «velho», encobrindo precisamente a história própria do essencial e impossibilitando que o início (Anfang) seja alcançado pela recordação (Erinnerung).

e) A significação da meditação sobre o início da história

O mais antigo segundo a cronologia pode ser simultaneamente o primeiro segundo a posição, a riqueza, a originariedade e a força vinculante, razão pela qual o mundo grego constitui o inicial (Anfängliche) da história ocidental não como antiguidade ultrapassada, mas como início cuja exigência ainda alcança as decisões históricas futuras e somente pode ser recebida por uma recordação capaz de reconduzir ao essencial.

f) A finalidade da preleção: a meditação como preparação para uma confrontação com o início de nossa história

A preleção deve proporcionar a ocasião para exercitar a meditação (Besinnung) como preparação para uma confrontação com o início da história ocidental, mediante um pensar que não pertence a uma disciplina, não pode ser prescrito para exames, não serve à formação geral nem produz utilidade, mas entrega o homem à própria liberdade diante daquilo que, sem precisar «produzir efeitos» ou ser útil, permanece essencialmente sendo.

Recapitulação

1. Nossa compreensão dos «conceitos fundamentais» e nossa relação com eles como saber pressentidor

Os conceitos fundamentais (Grundbegriffe), compreendidos ordinariamente como representações diretoras pelas quais as ciências delimitam seus respectivos domínios, devem ser pensados mais originariamente como Grund-Begriffe, isto é, como exigência de alcançar ou ao menos pressentir o fundamento (Grund) de tudo aquilo que é e manter-se numa relação cognoscente com esse fundamento, relação na qual o pressentimento (Ahnen) do essencial já constitui um saber mais originário do que toda segurança calculadora acerca do inessencial.

2. A decadência do saber no tempo atual: decisão pelo útil contra o dispensável

A crise moderna do saber não pode ser superada pelo simples aumento da quantidade e da velocidade da aprendizagem, pela introdução de manuais mais cômodos ou pelo retorno nostálgico às antigas formas escolares, pois exige reaprender o próprio aprender, recuperar medidas vinculantes e decidir interiormente entre submeter-se ao que é útil e necessário para as exigências imediatas ou abrir-se àquilo que, podendo ser dispensado no extremo, justamente revela o que permanece essencial.

3. O início como decisão sobre o essencial da história ocidental (na modernidade: vontade incondicionada e técnica)

O início (Anfang) deve ser compreendido como o conjunto de decisões originárias que sustentam e antecipam o essencial da história ocidental, sobretudo a decisão acerca da essência da verdade, razão pela qual ele não constitui um passado ultrapassado, mas permanece como aquilo que previamente decidiu o vindouro e cuja confrontação se torna particularmente difícil na modernidade, determinada pela posição fundamental técnica e pela vontade metafísica de domínio incondicionado.

4. Exercício da relação com o «digno de ser pensado», na meditação sobre o fundamento

O exercício do pensamento exige alcançar uma relação essencial com aquilo que é digno de ser pensado (Denk-würdige), não mediante uma «lógica» acadêmica que apenas pensa sobre o pensamento, mas deixando-se solicitar por aquilo que primeiro confere ao pensamento sua posição e dignidade, de modo que compreender os Grund-Begriffe significa ingressar numa relação com o fundamento de todo ente sem reduzi-lo antecipadamente a causa, causa primeira, objeto de representação ou recurso para uma explicação do mundo.

5. O estar essencialmente inserido do homem histórico no início, na «essência» do fundamento

A meditação sobre o fundamento exige escutar aquilo a que o próprio homem histórico pertence e experimentar-se não segundo propriedades individuais, situações presentes ou determinações historicamente constatáveis, mas a partir daquilo que, sendo distinto dele, atravessa e determina sua essência — o início de sua história —, no qual história significa o acontecimento (Ereignis) de uma decisão sobre a essência da verdade e compreender (Be-greifen) o fundamento significa estar incluído (Ein-begriffen-sein) pelo próprio fundamento em sua «essência».