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A QUESTÃO FUNDAMENTAL ACERCA DA ESSÊNCIA DA VERDADE COMO MEDITAÇÃO HISTÓRICA

§ 10. A ambiguidade da questão acerca da verdade: a busca do verdadeiro — o meditar sobre a essência da verdade

A questão acerca da verdade encerra uma ambiguidade decisiva entre a busca pelo verdadeiro — entendido tanto como correção particular quanto como aquilo sobre o que se funda e se decide o ser humano histórico — e a meditação sobre a própria verdade como essência do verdadeiro, isto é, como aquilo que determina todo verdadeiro enquanto verdadeiro, de modo que a investigação filosófica não pode permanecer na procura de proposições ou orientações corretas, mas precisa interrogar aquilo pelo qual toda verdade particular se constitui como tal.

§ 11. A questão sobre a verdade como questão acerca da essência do verdadeiro: não um questionamento acerca do universal conceitual do verdadeiro

A questão filosófica acerca da essência do verdadeiro não pode ser reduzida à determinação de um conceito universal indiferente sob o qual seriam subsumidos todos os casos particulares de verdade, pois a essência talvez constitua justamente o elemento mais essencial e decisivo do verdadeiro, de modo que aquilo que à primeira vista parece uma abstração inútil pode revelar-se como o verdadeiro propriamente dito e soberano sobre o qual se funda toda busca pelo verdadeiro histórico.

§ 12. A questão acerca da legitimidade da definição corrente da verdade como ponto de partida para o retorno ao fundamento da possibilidade da correção

O retorno da definição tradicional da verdade como correção ao fundamento que torna possível toda correção somente pode conduzir a uma determinação mais originária da verdade se antes for demonstrada a legitimidade daquela própria definição tradicional, pois nem sua antiguidade nem sua aparente obviedade bastam para assegurar que a correção pertença efetivamente à essência da verdade.

§ 13. A fundamentação da concepção tradicional da verdade na reorientação para a sua proveniência

A fundamentação da concepção tradicional da verdade como correção exige retornar à sua proveniência inaugural em Aristóteles, não para acumular informações historiológicas sobre uma doutrina passada, mas para compreender como essa determinação surgiu, em que fundamento se apoiou e como pode ser interrogada a partir das necessidades presentes e futuras do pensamento, o que torna indispensável distinguir a consideração historiológica do passado da meditação propriamente histórica.

a) A consideração historiológica do passado

A consideração historiológica investiga e apresenta aquilo que passou a partir dos critérios e do campo de visão do presente, podendo tanto presumir uma apresentação neutra do passado quanto torná-lo expressamente atual, mas permanece sempre submetida à contingência e à insuficiência dos critérios do respectivo presente, razão pela qual seus resultados constantemente renovados podem ser tão transitórios quanto o próprio horizonte a partir do qual são produzidos.

b) A meditação histórica sobre o porvir como o início de todo acontecimento

A meditação histórica (geschichtliche Besinnung), distinta da consideração historiológica (historische Betrachtung), volta-se para o sentido do acontecer (Geschehen) e da história (Geschichte), isto é, para o âmbito aberto de metas, critérios, impulsos, poderes e possibilidades em que o homem se torna propriamente histórico, compreendendo que o acontecimento não tem seu fundamento no passado nem no presente, mas no porvir e, sobretudo, no início que continua veladamente essenciando e exigindo sempre novas apropriações criadoras.

REPETIÇÃO

1) A ambiguidade da questão acerca da verdade. A essência não é o universal indiferente, mas o mais essencial

A ambiguidade da questão acerca da verdade reaparece na distinção entre querer o verdadeiro sobre o qual se funda a atuação histórica e perguntar pela essência do verdadeiro, mas essa distinção precisa ser aprofundada porque a essência não deve ser pressuposta como universal indiferente diante dos particulares, podendo revelar-se precisamente como o mais essencial, de modo que a exigência de querer o verdadeiro sem se importar com a verdade precisa talvez ser invertida em querer a verdade como o verdadeiro propriamente dito.

2) A obviedade questionável da concepção tradicional de verdade e a questão acerca de sua legitimidade

A definição tradicional da verdade como correção do enunciado somente parece evidente enquanto não se interroga suficientemente o fundamento dessa evidência, pois o retorno à abertura que possibilita a correção continua apoiado na concepção tradicional ainda não fundamentada, e nem a transmissão histórica nem a aparência de autoevidência garantem a legitimidade de uma determinação cuja compreensibilidade pode depender justamente da renúncia a compreender mais originariamente.

3) Para a fundamentação da concepção corrente da verdade na meditação histórica sobre sua proveniência. A diferença entre consideração historiológica e meditação histórica

O retorno à primeira fundamentação aristotélica da verdade não contradiz a orientação da questão para o futuro quando se distingue a consideração historiológica, que transforma o passado em objeto a partir do presente, da meditação histórica, que busca no ter-sido e no porvir o acontecer originário e a lei ainda essenciante do início, compreendendo a história como tensão entre aquilo que vem e aquilo que foi.

c) A conquista do início na experiência de sua lei. O histórico como a extensão do porvir em direção ao cerne do ter-sido e do ter-sido em direção ao cerne do porvir

O início somente pode ser conquistado historicamente mediante a experiência criadora de sua lei singular e necessária, nunca pela consideração historiológica que o reduz ao que já passou, pois o histórico consiste na tensão temporal originária entre o porvir e o ter-sido, da qual o presente emerge como resultado tardio da luta entre ambos e na qual a criação precisa penetrar no incerto e no incalculável sustentada pelo saber da lei do início.

§ 14. O retorno à doutrina aristotélica da verdade do enunciado como meditação histórica

O retorno à doutrina aristotélica da verdade do enunciado deve ser realizado como meditação histórica e não como relato historiológico de uma teoria grega ultrapassada, porque a concepção aristotélica continua determinando o modo ocidental de conhecer e decidir e pertence a um acontecimento cujo início precede Aristóteles e cujo porvir ultrapassa o presente, enquanto a própria essência da verdade se essencia historicamente como poder determinante de toda verdade e não-verdade.

§ 15. A questão acerca da fundamentação aristotélica do enunciado como essência do verdadeiro

A investigação histórica da determinação aristotélica do verdadeiro precisa perguntar não apenas como verdade e falsidade pertencem ao logos e como o enunciado pode ser correto ou incorreto, mas principalmente com que direito a correção do enunciado é elevada à condição de essência do verdadeiro, pois exemplos de proposições corretas apenas ilustram essa determinação e não fornecem o fundamento que legitima estabelecer a correção como essência.

§ 16. A viragem da questão acerca da essência do verdadeiro para a questão acerca da verdade — essencialidade — da essência. A questão acerca da concepção aristotélica da essencialidade da essência

A busca de uma fundamentação da essência do verdadeiro conduz inevitavelmente à questão acerca da essencialidade da própria essência, isto é, àquilo que a essência em verdade é, produzindo uma viragem interna pela qual a questão acerca da essência da verdade se torna simultaneamente questão acerca da verdade da essência e revelando que o pensamento filosófico autêntico precisa interrogar também o próprio horizonte conceitual a partir do qual pergunta.

REPETIÇÃO

1) Rejeição de três interpretações equivocadas da distinção entre consideração historiológica e meditação histórica. Ciência e meditação histórica

1) A distinção entre consideração historiológica e meditação histórica não autoriza arbitrariedade diante do ter-sido, não torna dispensável o conhecimento historiológico e não constitui mera sutileza conceitual, pois a meditação histórica está mais rigorosamente vinculada ao início e ao porvir do que a historiologia, necessita desta como instrumento subordinado e torna-se decisiva sobretudo para reconhecer os fundamentos metafísicos das ciências e a crise essencial encoberta por sua crença no progresso.

2) O caminho da questão acerca da essência do verdadeiro para a questão acerca da verdade — essencialidade — da essência

2) O percurso da questão da verdade parte da determinação tradicional do verdadeiro como correção do enunciado, descobre na abertura entre ente e homem o fundamento mais originário dessa correção e, ao perguntar pela legitimidade da determinação aristotélica da essência do verdadeiro, é conduzido necessariamente à questão acerca do que significa em geral essência e, portanto, à questão acerca da verdade ou essencialidade da própria essência.