1.2

A QUESTÃO ACERCA DA VERDADE COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL

§ 4. A verdade como “problema” da “lógica” — correção do enunciado — distorce a visão da essência da verdade

A redução tradicional da verdade a um “problema” da lógica, fundada na determinação do logos como enunciado e da verdade como correção do enunciado em sua orientação pelo ente, encobre a possibilidade de uma questão originária acerca da essência da verdade, pois transforma em problema previamente fixado aquilo que deveria permanecer aberto ao questionamento fundamental e submete de antemão sua investigação ao campo de visão constituído pela lógica desde Platão e Aristóteles.

§ 5. Discussão da verdade a partir da questão fundamental da filosofia juntamente com a inserção de uma confrontação histórica com a filosofia ocidental. Urgência e necessidade de um questionamento originário

A investigação da verdade como questão fundamental da filosofia exige abandonar sua redução a um problema lógico e realizar simultaneamente uma confrontação histórica com a totalidade da filosofia ocidental, não como conhecimento historiológico do passado, mas como apropriação pensante da história que permita experimentar a necessidade e a urgência de uma nova colocação originária da questão.

REPETIÇÃO

1) A questão acerca da verdade como o que há de mais necessário à filosofia na era da total ausência de questionamento

A entrada do homem na era da completa ausência de questionamento de todas as coisas e de todas as maquinações torna a filosofia, enquanto evocação questionadora do que há de maximamente digno de questão, simultaneamente o mais estranho e o mais necessário, de modo que sua tarefa fundamental se concentra na questão simples e difícil acerca da verdade, capaz de reconduzir os questionadores à própria relação com o seer (Seyn).

2) O digno de questão na determinação até aqui da verdade — verdade como correção do enunciado — como o que urge para a questão acerca da verdade

A concepção tradicional da verdade como correção da representação do ente, sedimentada de modo privilegiado no enunciado e por isso incorporada à lógica, somente pode ser ultrapassada por um questionamento originariamente necessário quando se experimenta que essa determinação aparentemente evidente contém algo ainda digno de questão e cuja investigação não pode ser evitada por quem pretenda compreender o que significa verdade.

§ 6. A definição tradicional da verdade como correção

A definição tradicional da verdade compreende o conhecimento ou o enunciado como verdadeiro quando se orienta pelo objeto e concorda com ele, determinação expressa historicamente como rectitudo, adaequatio, assimilatio e convenientia e reconduzida a Aristóteles, segundo a qual a representação deve apresentar o ente tal como ele é, sem tornar-se materialmente semelhante à coisa representada.

§ 7. A contenda entre idealismo e realismo sobre o solo comum da verdade como correção da representação

A oposição entre idealismo e realismo não atinge a determinação fundamental da verdade, pois ambos permanecem sobre o mesmo solo ao concebê-la como correção da representação, divergindo apenas quanto ao alcance do representar — se este alcança a própria coisa ou somente aquilo que é representado na consciência — e deixando, portanto, inquestionado o fundamento comum que torna possível sua própria disputa.

§ 8. O campo de jogo da abertura quádrupla e una. Primeira referência ao que há de digno de questão na definição tradicional da verdade como correção

Toda correção da representação pressupõe uma abertura quádrupla e ao mesmo tempo una — abertura da coisa, do âmbito entre coisa e homem, do homem para a coisa e do homem para o homem — que não é produzida pela representação correta, mas já vigora como seu fundamento, solo e campo de jogo, tornando digna de questão a própria determinação tradicional da verdade como correção.

§ 9. A concepção da verdade e a concepção da essência do homem. A questão fundamental acerca da verdade

a) A determinação da essência da verdade em sua conexão com a determinação da essência do homem

A determinação tradicional da verdade como correção encontra-se historicamente vinculada à determinação igualmente tradicional do homem como animal rationale, pois a compreensão da razão como apreensão imediata do ente faz do homem essencialmente aquele que apreende e representa o ente, abrindo a questão ainda indecidida sobre se a concepção da verdade depende da concepção da essência humana ou se, inversamente, é a compreensão do homem que depende da concepção previamente dominante da verdade.

b) A questão acerca do fundamento da possibilidade de toda correção como questão fundamental acerca da verdade

A passagem da verdade como simples correção para a verdade como questão fundamental exige investigar o fundamento que torna toda correção possível, isto é, a abertura múltipla e una anteriormente indicada, cuja essência, consistência, raridade histórica e possível experiência pelo homem permanecem ainda obscuras, mas cuja investigação se torna inevitável precisamente porque a concepção tradicional da verdade já não pode ser aceita como definitivamente suficiente.

REPETIÇÃO

1) A relação entre pergunta e resposta no âmbito da filosofia

No âmbito da filosofia, a relação entre pergunta e resposta não se mede pela rápida obtenção de proposições definitivas, pois o decisivo encontra-se no exercício efetivo do questionamento, comparável à subida de uma montanha em que somente a realização dos passos, com seus avanços, recuos, escorregões e até quedas, permite aproximar-se daquilo que se busca e experimentar a própria coisa em sua elevação.

2) A determinação corrente da verdade como correção da representação e a abertura quádrupla e una como fundamento digno de questão da possibilidade da correção da representação

Apesar da variedade histórica das teorias do conhecimento, inclusive da oposição entre idealismo e realismo, permanece dominante a definição da verdade como correção da representação, mas essa aparente evidência repousa sobre a abertura quádrupla e una da coisa, do âmbito entre coisa e homem, do homem para a coisa e do homem para o homem, abertura que antecede toda orientação representativa e constitui o fundamento ainda obscuro e digno de questão da possibilidade da própria correção.

c) A questão acerca da verdade como o mais questionável de nossa história até aqui e como o que há de mais digno de questão de nossa história por vir

A situação histórica do Ocidente transforma a questão acerca da verdade de simples problema lógico no que há de mais questionável de sua história passada e de mais digno de questão de sua história futura, pois a perda ou o encobrimento das metas, a alternativa entre destruição do que existiu e resistência a essa destruição e a necessidade de decisões fundadoras exigem um novo estabelecimento de metas cuja possibilidade depende da meditação sobre o fundamento da verdade.