PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)
PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)
§ 6. Para a mesmidade (Selbigkeit) de Ser (Seyn) e articulação (Gefüge). O tratado da liberdade como uma teologia originária do Ser (Seyn)
a) Filosofia como onto-teo-logia. A conexão entre a questão do ente em sua totalidade (“teologia”) e a questão do ente enquanto ente (ontologia). Deus (fundamento de todo Ser) como a ideia condutora do sistema em geral
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O sistema, para o Idealismo Alemão, não é um mero arcabouço para o conhecimento, mas o próprio Ser (
Seyn) em sua verdade e história; o sistema é o “
Gefüge” do próprio ente.
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A questão do sistema da liberdade é, portanto, uma questão ontológica fundamental: se a liberdade, sendo o que é sem fundamento (
Grundlose) e que rompe com toda conexão, pode ser o centro (
Mitte) do sistema, e como isso é possível.
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A primeira dificuldade é a aparente incompatibilidade entre liberdade e sistema; no entanto, o sistema não pode ser negado, pois ele pertence à essência do próprio ente (Wo Seiendes, da Gefüge und Fügung). O sistema é a σώστασις (co-existência) do ente em sua totalidade.
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Se o sistema pertence à essência do ente, ele deve existir, ao menos, no fundamento de todo Ser (
Urwesen), em Deus, como uma “teologia” do Ser.
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A filosofia, como metafísica, é sempre
onto-teo-logia, pois questiona o ente enquanto ente (ontologia) e o ente em sua totalidade em seu fundamento (teologia), e essa é a razão pela qual o tratado de
Schelling é um dos mais profundos, por ser ao mesmo tempo ontológico e teológico de uma maneira única.
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A filosofia é Teologia (Theologie) no sentido originário de que o
λόγος (conceber) do ente em sua totalidade pergunta pelo fundamento (
Grund), e esse fundamento é chamado de
θεός (Deus), independentemente de qualquer dogma eclesiástico.
b) Sobre o conhecimento de um sistema no Ser originário divino. Princípio: conhecer o Deus fora de nós pelo Deus em nós
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A objeção de que o sistema no Ser originário (
Urwesen) é inacessível ao conhecimento humano é vazia enquanto não se determina o princípio (
Prinzip) do conhecimento humano, ou seja, a relação fundamental do homem com o ente.
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O princípio do conhecimento é o que determina como o homem, enquanto ente, se relaciona com o ente em sua totalidade, e esse princípio é o que fundamenta a possibilidade do conhecimento.
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Para
Schelling, o princípio do conhecimento filosófico é expresso pela antiga doutrina de que “o semelhante é conhecido pelo semelhante” (τοῖς ὁμοίοις τὰ ὅμοια γιγνώσκεσθαι), o que, aplicado ao conhecimento de Deus, significa que se conhece o Deus fora de si pelo Deus em si (τῷ ἐν ἑαυτῷ θεῷ τὸν ἐκτὸς καταλαμβάνειν).
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O princípio de que o semelhante é conhecido pelo semelhante é retomado na tradição filosófica (
Empédocles,
Platão,
Plotino) e também por
Goethe, mostrando que o conhecimento do divino só é possível se o homem for, ele mesmo, de alguma forma, divino.
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A recusa em aceitar que o princípio do conhecimento filosófico é essa intuição intelectual (intellektuelle
Anschauung) é um sinal de que se toma a ciência (
Wissenschaft) como um conhecimento meramente abstrato e sem vida (
abgezogen und
unlebendig), como a geometria comum, o que é inadequado para a filosofia.
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Uma segunda objeção, a de negar o sistema no próprio Ser originário, é discutida com referência a
Fichte, que tenta negar o sistema em nome da liberdade absoluta do Eu, mas acaba reintroduzindo a unidade sistemática na forma de uma “ordem moral do mundo” (
sittliche Weltordnung), caindo em contradições.