PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)
PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)
§ 5. A nova abordagem no Idealismo Alemão: a filosofia como intuição intelectual do Absoluto
a) O passo para além de Kant. O conhecimento no sentido da intuição intelectual
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A filosofia, para
Kant, é a teleologia da razão humana; para o Idealismo Alemão, ela é a intuição intelectual (intellektuelle
Anschauung) do Absoluto, um conhecimento não sensível do ente em sua totalidade (Deus, mundo, homem).
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Se as ideias de
Kant (Deus, mundo, homem) não são meras ficções, elas devem ser conhecidas por um tipo de conhecimento que não as toma como objetos (
Gegenstände) dados pelos sentidos, mas como algo não-objetual (ungegenständlich), embora não seja um nada (
nicht nichts).
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Esse conhecimento do todo do ente é um saber que não tem o Absoluto como objeto fora de si, nem como um pensamento dentro de si (no sujeito), mas é um conhecimento no qual o Absoluto é tanto o que conhece quanto o que é conhecido, em uma unidade originária.
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A intuição intelectual é a faculdade de ver o universal no particular, o infinito no finito, unidos em uma unidade viva; é a “evidência em toda evidência, a verdade em toda verdade” (
Schelling), que supera a oposição entre pensar e ser.
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A exigência da intuição intelectual não é um retorno ao dogmatismo pré-crítico, pois, para o Idealismo Alemão, o Absoluto não é uma substância dada, mas se mostra no saber absoluto, que é a unidade do pensar e do ser no conhecimento.
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O Idealismo Alemão, portanto, não nega a crítica kantiana, mas a radicaliza ao mostrar que o conhecimento do Absoluto não é um conhecimento de objetos, mas um saber que é, ele mesmo, o Absoluto em sua manifestação.
b) Retrospecção sobre o trabalho no “sistema”
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A questão fundamental para o Idealismo Alemão é a do sistema, e os primeiros escritos de
Fichte,
Schelling e
Hegel giram em torno dela, cada um buscando a forma de fundar o sistema a partir de si mesmo.
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A filosofia é agora concebida como intuição intelectual do Absoluto, superando as dificuldades kantianas, pois o Absoluto não é um objeto, mas a própria unidade do pensar e do ser, que se manifesta no saber.
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Esse saber não é um conhecimento de objetos (
Dinge), mas a verdadeira “trabalho” (
Arbeit) do espírito sobre si mesmo, uma auto-configuração do Absoluto.
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A filosofia do Idealismo Alemão supera o dogmatismo não por negar o Absoluto, mas por compreendê-lo como a unidade do ser e do pensar no saber, onde o Absoluto não está nem fora (como objeto) nem dentro (como pensamento subjetivo), mas é a própria relação.
c) A história como caminho do saber absoluto para si mesmo
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A história, para o Idealismo Alemão, torna-se pela primeira vez um objeto metafísico de compreensão: não mais uma sucessão de eventos ou opiniões, mas o caminho do saber absoluto para si mesmo, a auto-realização do espírito.
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A história da filosofia é compreendida como o movimento necessário do espírito, e os próprios filósofos do Idealismo Alemão se veem como épocas necessárias nessa história.
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Essa compreensão da história como a auto-configuração do espírito é uma grande descoberta da época, que transforma a filosofia em uma compreensão de seu próprio movimento histórico.