PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)
PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)
§ 3. Discussão geral das dificuldades de um sistema da liberdade
a) Reflexão preliminar sobre a indiferença atual em relação ao sistema. A rejeição do pensamento sistemático em Kierkegaard e Nietzsche
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A questão da compatibilidade entre liberdade e sistema só tem peso se o sistema for uma necessidade inadiável e se a liberdade for a necessidade mais íntima e a medida extrema do
Dasein (existência); na atualidade, nem uma nem outra coisa são sentidas como necessidade.
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A época atual, de transição do século XIX para o XX, é caracterizada pelo niilismo, que, segundo
Nietzsche, é a desvalorização dos valores supremos, a perda da força vinculante das respostas ao “porquê” e “para quê”, deixando o homem sem centro e sem rumo.
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O niilismo é uma condição histórica que só pode ser superada se for conhecida cada vez mais profundamente, não pela simples fuga ou negação; a reflexão e o conhecimento impiedoso (rücksichtsloses Wissen) são indispensáveis.
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A indiferença contemporânea em relação à questão do sistema é uma consequência necessária do niilismo dominante, em que o pensamento e o querer-saber são vistos como um esforço sem perspectiva diante da realidade em movimento.
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A recusa do sistema por
Nietzsche, expressa em aforismos como “A vontade de sistema é uma falta de retidão” (
Mangel an
Rechtschaffenheit), não é uma negação filosófica do sistema, mas sim uma crítica ao sistema prematuro que ainda não superou o niilismo.
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A posição de
Kierkegaard contra o sistema, por outro lado, é de natureza religiosa, focada no sistema hegeliano, e não filosófica; sua oposição não é uma crítica fundamentada na essência do sistema.
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A indiferença e a falta de orientação contemporâneas em relação ao sistema não são um argumento contra a questão do sistema em si, mas sim um sintoma da falta de seriedade e coragem para a reflexão (
Besinnung), que é o primeiro passo para a superação do niilismo.
b) O que significa “sistema” em geral? Significado da palavra e uso entre os gregos e na Idade Média
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A palavra grega σύστημα (
systema) significa, fundamentalmente, “com-posição” (
Zusammenstellung), mas esse significado abrange desde a mera reunião exterior e arbitrária (
Anhäufung) até a articulação interna e essencial (
innere Fuge) que dá fundamento e sustento à coisa.
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Entre esses extremos, sistema pode significar também um “marco” ou “moldura” (Rahmen), uma ordem que não é totalmente interior nem totalmente exterior.
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No uso grego, o termo é aplicado a estruturas internas (como o sistema do mundo, σύστημα ἐξ οὐρανοῦ καὶ γῆς), a ordens políticas (σύστημα τῆς πολιτείας) e a disposições militares (σύστημα τῆς φάλαγγος), além de significar mera acumulação (como em medicina, para congestão de humores).
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Na filosofia e no conhecimento, o conceito de sistema também carrega essa ambiguidade fundamental, podendo significar tanto uma ordem verdadeira (echtes System) quanto uma mera construção exterior e arbitrária (unechtes System).
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Embora a filosofia grega (
Platão,
Aristóteles) não tenha produzido um “sistema” no sentido moderno, ela era, no entanto, profundamente “sistemática”, orientada por uma ordem interna de questionamento que é a pré-condição para qualquer sistemática.
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As “Sumas” da teologia medieval não são sistemas filosóficos, mas livros didáticos (Lehrbücher) para o ensino, com uma ordenação externa do conteúdo; compará-las a sistemas modernos ou a catedrais góticas é um equívoco histórico e conceitual.
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O sistema, em seu verdadeiro sentido, não é uma mera ordenação de material de ensino, mas a articulação interna do próprio cognoscível (das Wißbare), o desdobramento fundamentador e a configuração da própria fuga do ente em sua entidade (
Seiendheit).
c) Condições principais da primeira formação de sistemas na Idade Moderna. A vontade de sistema racional-matemático