PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)
PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)
§ 2. As duas tarefas da investigação: a delimitação do conceito de liberdade e sua inserção no todo de uma “visão de mundo científica”
a) O sentimento do fato da liberdade. Questões preliminares para a delimitação provisória do conceito de liberdade
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A investigação sobre a essência da liberdade humana tem duas tarefas: 1) a delimitação correta do conceito de liberdade e 2) a inserção desse conceito no conjunto de uma visão de mundo científica (wissenschaftliche Weltansicht).
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A primeira tarefa surge porque, embora o sentimento do fato da liberdade seja imediato, sua expressão conceitual exige mais do que uma apreensão superficial, pois a liberdade, como fato, não está simplesmente na superfície da experiência.
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O “sentimento” (
Gefühl) da liberdade, embora imediato, não é suficiente para fundamentar uma determinação conceitual adequada; é necessário distinguir entre o fato do ser-livre, a sensação desse fato e a interpretação conceitual do que é sentido.
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A questão sobre o que significa “fato” (
Tatsache) e como a liberdade é um fato diferente de outros fatos empíricos é central; a liberdade não é um dado como um fenômeno natural, pois sua “factualidade” (
Tatsächlichkeit) tem um caráter distinto.
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A determinação do conceito de liberdade depende de uma “pureza e profundidade de sentido” (Reinheit und Tiefe des Sinnes) que não é comum, exigindo uma reflexão sobre o tipo de “sentido” (
Sinn) que capta a liberdade, que não é um sentido físico, mas uma disposição de ânimo (
Gesinnung).
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As discussões habituais sobre o livre-arbítrio (
Willensfreiheit) são superficiais porque negligenciam essas questões preliminares fundamentais sobre a natureza do fato e do conceito de liberdade, o que levaria ao desaparecimento dessa questão aparente.
b) O significado metafísico e a exigência de sistema da expressão “visão de mundo científica” em Schelling em contraste com o entendimento atual
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A segunda tarefa exige a inserção do conceito de liberdade no todo de uma “visão de mundo científica” (
wissenschaftliche Weltansicht), mas esse termo não deve ser entendido no sentido moderno de uma cosmovisão baseada nos resultados das ciências particulares.
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No Idealismo Alemão, “ciência” (
Wissenschaft) significa, primariamente, Filosofia, o conhecimento (
Wissen) dos últimos e primeiros fundamentos do ente em sua totalidade, um saber essencial (
Wesenswissen) que funda e ordena o conhecimento derivado.
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No sentido de
Schelling, “visão de mundo” não é uma atitude ou ideologia, mas um momento constitutivo do próprio ser do ente, seu “esquematismo” de abertura do mundo; a visão de mundo pertence à constituição (
Verfassung) de cada ente.
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O termo “Weltanschauung” teve sua origem no Idealismo Alemão, mas sofreu um declínio de significado no século XIX, tornando-se uma palavra vazia ligada ao liberalismo e à tipologia psicológica, perdendo sua determinação metafísica inicial.
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A tarefa de inserir a liberdade em uma visão de mundo científica, portanto, é uma tarefa filosófica fundamental, que se articula com a exigência do sistema (System), onde o sistema não é um mero quadro, mas a própria fuga (
Fuge) do Ser (
Seyn).
c) A incompatibilidade entre liberdade e sistema. A inserção do conceito de liberdade em um sistema da liberdade como tarefa
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A delimitação do conceito de liberdade e sua inserção no sistema são uma única e mesma tarefa, pois nenhum conceito pode ser determinado isoladamente e a conexão com o todo lhe dá sua última “consumação científica” (
wissenschaftliche Vollendung).
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Essa unidade de tarefas implica que a própria experiência do fato da liberdade já é guiada por conceitos prévios (
Vorbegriffe) e que o sistema do conhecimento também é limitado e deve ser fundamentado em experiências originárias.
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O conceito de liberdade, se tiver realidade (
Realität), não é um mero conceito subordinado, mas um dos centros dominantes do sistema; o sistema da filosofia não é um sistema que inclui a liberdade, mas é, ele mesmo, um sistema da liberdade.
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A dificuldade fundamental é expressa por
Schelling: “segundo uma antiga tradição, o conceito de liberdade seria incompatível com o sistema em geral”, uma vez que a liberdade resiste à fundamentação sistemática (
Begründung) e o sistema exige uma conexão universal de fundamentação.
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O tratado sobre a liberdade é, portanto, uma tentativa de pensar e fundamentar um “sistema da liberdade”, algo que parece ser uma contradição em si mesmo (como um círculo quadrangular).
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A introdução do tratado (336-357) tem a função de discutir essa dificuldade interna e preparar a questão propriamente dita, clarificando os conceitos essenciais e as relações conceituais que serão tratados no corpo da obra.