A pergunta «O que é uma coisa?» alcança uma determinação inicial ao distinguir aquilo que é interrogado — a coisa em sentido estreito, enquanto subsistente ou simplesmente presente (das Vorhandene) — daquilo em direção a que se interroga — a coisidade pela qual uma coisa é precisamente coisa —, mas essa determinação imediatamente reabre a perplexidade, pois as coisas aparecem sempre como coisas singulares e, além disso, a experiência cotidiana e a experiência científica apresentam uma mesma coisa segundo verdades diversas, tornando necessário perguntar pelo fundamento dessas diferentes verdades e pelo próprio ser-coisa da coisa.
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A estrutura da pergunta encontra-se inicialmente esclarecida mediante a distinção entre aquilo que (was) é posto em questão e aquilo em direção a que (
wonach) se interroga: o primeiro é a coisa no sentido restrito do subsistente ou simplesmente presente (das Vorhandene), enquanto o segundo é a coisidade, isto é, aquilo que faz de uma coisa, enquanto tal, precisamente uma coisa.
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A tentativa de apreender essa coisidade conduz novamente à perplexidade, porque nunca se encontra «a coisa» em geral, mas somente esta coisa e aquela coisa, isto é, coisas singulares, permanecendo em aberto se a singularidade resulta apenas do modo humano de encontrá-las ou se pertence às próprias coisas enquanto aquilo que elas são.
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A possibilidade de extrair posteriormente do singular algo universal, mediante abstração, não resolve de antemão a questão, pois é necessário perguntar se primeiro se encontram coisas individuais apenas em virtude do modo humano de conhecer ou se elas se oferecem individualmente porque são, em si mesmas, singulares enquanto coisas determinadas.
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A experiência e a opinião cotidianas partem espontaneamente da presença dessas coisas singulares, e não há inicialmente razão suficiente para colocar globalmente em dúvida a experiência cotidiana; contudo, tampouco basta simplesmente afirmar como verdadeiro tudo aquilo que ela apresenta.
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A concepção segundo a qual cada indivíduo humano seria um sujeito ou eu singular que carregaria consigo apenas imagens subjetivas das coisas, sem jamais alcançar as próprias coisas, não pode ser aceita como solução simplesmente por parecer mais crítica ou prudente.
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A substituição do «eu» pelo «nós» e do indivíduo pela comunidade tampouco supera essa dificuldade, pois continuaria possível que os indivíduos apenas trocassem entre si imagens subjetivas das coisas, sem que a circulação comunitária dessas imagens lhes conferisse maior verdade.
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As diversas teorias acerca da relação humana com as coisas e acerca da verdade dessa relação podem, portanto, permanecer provisoriamente suspensas, sem que por isso se autorize uma confiança ingênua na certeza da experiência cotidiana.
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Ainda que a experiência cotidiana contenha uma verdade, e talvez uma verdade eminente, essa verdade necessita ser fundada, isto é, seu fundamento precisa ser estabelecido, reconhecido e assumido enquanto fundamento.
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A necessidade dessa fundamentação torna-se particularmente evidente porque as próprias coisas cotidianas apresentam há muito tempo uma outra face, hoje manifestada numa amplitude que ainda mal foi compreendida e menos ainda dominada.
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O pôr do sol oferece um exemplo dessa duplicidade: para o pastor que retorna do campo com seu rebanho, o disco luminoso que desaparece atrás da montanha é o sol real de sua experiência cotidiana, aquele cuja volta se espera na manhã seguinte.
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Do ponto de vista científico, porém, esse mesmo sol já se teria posto alguns minutos antes, aquilo que se vê seria condicionado por determinados processos de radiação e, mais radicalmente, o próprio «pôr do sol» seria apenas aparência, pois não é o sol que gira em torno da Terra, mas a Terra que se move em torno do sol.
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A determinação científica amplia ainda mais a distância em relação à experiência imediata: o sol não constitui o centro último do universo, mas pertence a sistemas cósmicos muito maiores, como a Via Láctea e as nebulosas espirais, diante dos quais as dimensões do sistema solar aparecem como insignificantes.
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Também o sol que cotidianamente nasce, se põe e fornece luz encontra-se num processo de resfriamento, enquanto a Terra, em vez de aproximar-se dele para conservar a mesma temperatura, afasta-se, configurando uma trajetória em direção a uma catástrofe situada, entretanto, em dimensões espaço-temporais diante das quais alguns milênios de história humana equivalem a menos de um segundo.
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Diante dessas duas experiências torna-se inevitável perguntar qual é o sol verdadeiro — o do pastor ou o do astrofísico —, ou se a própria alternativa está inadequadamente formulada, questão cuja decisão exige previamente saber o que é uma coisa, em que consiste o ser-coisa e como se determina a verdade de uma coisa.
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Nem o pastor nem o astrofísico, precisamente para serem imediatamente aquilo que são em seus respectivos domínios, precisam ou podem necessariamente formular essas questões fundamentais acerca da coisidade e da verdade.
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A mesma dificuldade reaparece no exemplo do físico e astrônomo inglês Arthur Eddington, para quem uma mesa possui por assim dizer um duplo: de um lado, a mesa conhecida desde a infância; de outro, a «mesa científica» determinada pela física.
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A primeira mesa corresponde à coisa familiar da experiência cotidiana, enquanto a segunda, considerada em sua determinação científica, já não consiste simplesmente em madeira, mas sobretudo em espaço vazio no qual cargas elétricas se encontram dispersas e se deslocam subitamente em grande velocidade.
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A pergunta por qual das duas mesas seria a verdadeira não se resolve escolhendo simplesmente uma delas, pois permanece possível que ambas sejam verdadeiras de modos distintos, impondo-se então a questão acerca do sentido de verdade segundo o qual cada uma delas pode ser considerada verdadeira.
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Se a mesa cotidiana e a mesa científica constituem modos distintos de verdade, torna-se necessário admitir uma dimensão de verdade em relação à qual ambas possam aparecer como variantes verdadeiras, isto é, uma verdade que possibilite e medeie suas diferenças.
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Não basta rejeitar a mesa científica, as nebulosas espirais ou a futura morte do sol como meras teorias da física, pois é justamente sobre essa física que se fundamentam usinas gigantescas, aviões, rádio, televisão e o conjunto da técnica que transformou a Terra e, juntamente com ela, o próprio ser humano numa medida que este ainda não compreendeu plenamente.
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A ciência moderna não permanece, portanto, afastada da vida, como se suas teorias fossem opiniões de pesquisadores isolados da realidade; ao contrário, sua proximidade tornou-se tão intensa que suas consequências técnicas envolvem e pressionam a própria existência humana.
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Diante dessa excessiva proximidade, não se exige tornar a ciência ainda mais «próxima da vida», mas conquistar uma distância adequada em relação à própria vida, a partir da qual possa ser medido aquilo que está acontecendo com os seres humanos.
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O que propriamente acontece com o homem no interior desse universo científico e tecnicamente transformado permanece desconhecido, razão pela qual é necessário continuar perguntando e tornando a perguntar, ao menos para alcançar clareza acerca das razões e dos limites desse não saber.
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Permanece aberta a questão de saber se o homem e os povos simplesmente tropeçaram neste universo para dele serem novamente expulsos ou se sua relação com ele possui outro sentido, de modo que a interrogação não constitui um acréscimo dispensável, mas uma exigência fundamental.
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Antes mesmo de esperar respostas definitivas, torna-se necessário reaprender a perguntar, o que pressupõe assumir determinadas questões propriamente enquanto questões, em vez de neutralizá-las mediante respostas prematuras.
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A pergunta escolhida — «O que é uma coisa?» — conduz precisamente a essa aprendizagem ao revelar que as coisas se encontram em verdades diversas e ao exigir que se pergunte como deve ser constituída a coisa para poder apresentar-se dessa maneira.
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A decisão acerca do ser-coisa da coisa não pode simplesmente ser retirada nem da experiência cotidiana nem da ciência, embora a investigação tome inicialmente posição no âmbito da experiência cotidiana, sob a reserva decisiva de que também a verdade dessa experiência precisa receber sua fundamentação.