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O saber absoluto é o saber puro e próprio, a ciência; a ciência que conhece de modo absoluto conhece o absoluto, e como saber absoluto é em si mesma, em sua essência mais íntima, sistema; o sistema não é um quadro arbitrário nem uma ordem posterior acrescentada ao saber absoluto, mas o saber absoluto só se compreende, só sabe de si mesmo, quando se desdobra e se apresenta no sistema e como sistema; filosofia significa por isso nada mais do que a ciência no sistema.
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O sistema da ciência exige como sua primeira parte a ciência da experiência da consciência ou a ciência da fenomenologia do espírito; o primeiro título caracteriza o que deve se comprovar em sua verdade, a consciência fazendo a experiência, e o segundo diz como o que ela se comprova: como espírito.
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O primeiro parte de que ciência significa saber absoluto, e o saber absoluto é em si o sistema; o primeiro parte do sistema da ciência é, como ciência, o próprio sistema em sua primeira apresentação; os dois títulos dizem coisas diferentes e visam o mesmo, e a elucidação de cada um separadamente permite determinar o que é peculiar à primeira parte da ciência.
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O primeiro título para a caracterização da primeira parte do sistema é “ciência da experiência da consciência”; a familiaridade com os termos que o compõem, especialmente para quem conhece a terminologia filosófica, não ajuda e, ao contrário, induz ao erro; o único ponto de partida seguro é fixar que ciência aqui significa saber absoluto, pois somente assim se torna compreensível o que significam experiência, consciência e experiência da consciência.
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O termo experiência é empregado por
Kant na Crítica da Razão Pura para designar o conjunto do conhecimento teórico do ente presente, a natureza; nesse sentido, as ciências naturais ainda hoje se chamam ciências da experiência, e a Crítica pode ser entendida como teoria da experiência, ou seja, como saber sobre o que a experiência é; mas em
Hegel a experiência não é tomada no sentido kantiano, e a fenomenologia como a ciência não é saber sobre a experiência.
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Para compreender o sentido hegeliano de experiência, é preciso partir do uso corrente da palavra antes de qualquer emprego filosófico; experiência significa colher uma informação de alguém que sabe diretamente, averiguar como algo está, ir à coisa mesma e verificar se o que se pensa e diz se confirma; ter experiência significa conhecer-se bem no assunto, saber como proceder para que as coisas não se estragam.
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Distinguem-se dois grupos de significados de experiência: no primeiro, fazer uma experiência é comprovar intuitivamente uma opinião na coisa mesma, o que fundamenta o conceito de ciências da experiência; no segundo, fazer uma experiência significa deixar a coisa mesma se comprovar, verificar se ela é como parecia ou se é em verdade diferente, ficando mais rico de experiência por isso, com um duplo resultado de decepção ou surpresa e de aprendizado do novo.
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O conceito hegeliano de experiência vai na direção do segundo grupo: fazer a experiência de algo no sentido de que esse algo se comprova em sua verdade, mostrando-se diferente do que parecia, sem que o modo como parecia seja descartado, pois ele pertence ao que foi experienciado e ao ganho da experiência; essa maneira de fazer experiência não se refere em
Hegel a ocorrências, coisas ou pessoas quaisquer, mas à consciência.
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A expressão experiência da consciência não é um genitivo objetivo, como se a consciência fosse o objeto sobre o qual experiências são feitas; é antes a consciência ela mesma que faz as experiências, pois ela está compreendida na própria experiência; só porque a consciência é sujeito da experiência, e isso no sentido preciso de saber absoluto, ela pode também ser objeto da experiência, e não o contrário.
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A consciência é inicialmente saber relativo que nada sabe de si mesmo, sabendo apenas de seu objeto e deste como algo em si; quando o saber sabe de seu objeto como tal, já sabe que o em-si do objeto é o objeto para a consciência, ou seja, que esse ser-para é o saber; ao saber isso de si, o objeto perde o caráter de em-si e se torna algo para a consciência, enquanto o próprio saber se torna outro do que era.
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Ao fazer assim sua experiência consigo mesma, a consciência deve descobrir que se torna ela mesma um outro; comprova-se o que ela propriamente é, perde sua primeira verdade, mas não perde apenas, pois fica mais rica de experiência e ganha uma verdade sobre si, surgindo o novo objeto verdadeiro; o saber vai se encontrando mais e mais por trás de si e assim chega a si mesmo, à sua essência mais própria.
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A experiência que a consciência faz consigo mesma dá um duplo resultado, um negativo e um positivo: tornar-se outra para si, mas esse tornar-se outro é precisamente um vir a si mesma; a experiência é chamada de movimento, e
Hegel diz expressamente que a consciência exerce esse movimento nela mesma; na experiência, a consciência deve descobrir a necessidade de sua própria essência e que o saber relativo somente é porque é absoluto.
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O saber absoluto que sabe a si mesmo como saber e nessa ipseidade se sabe como saber verdadeiro é o espírito; o espírito é esse vir a si mesmo sendo consigo no tornar-se outro, a absoluta inquietude que no fundo nada mais pode afetar; o que vem à luz, aparece, na experiência que a consciência faz sobre si mesma é o espírito, e esse aparecer é a fenomenologia do espírito.
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No segundo título, o genitivo também não é objetivo, como a fenomenologia atual poderia induzir a crer, como se se tratasse de uma investigação fenomenológica sobre o espírito;
Hegel usa o termo fenomenologia apenas do espírito ou da consciência, não porque eles sejam o tema exclusivo, mas porque a fenomenologia não é o título de uma pesquisa sobre algo, mas o modo e a maneira como o próprio espírito é.
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Fenomenologia do espírito designa o aparecer próprio e pleno do espírito perante si mesmo; aparecer significa apresentar-se de modo que algo diferente do anterior se mostre, que o que se apresenta se apresente contra o anterior, fazendo o anterior declinar à aparência; o aparecer é o tornar-se outro da consciência em seu saber.
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O aparecer e a aparência em
Hegel estão primária e exclusivamente referidos ao que já emergiu no conceito de experiência: o mostrar-se de um negativo em sua contradição com um positivo; o que aparece é esse não e sim no mesmo, a contradição; na história das aparições aparece o espírito, o absoluto, e por isso
Hegel já em 1801 afirma que a aparência puramente formal do absoluto é a contradição.
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O título completo Ciência da fenomenologia do espírito não é a expressão tautológica que se poderia crer pelos conceitos atuais; o genitivo não é objetivo, mas explicativo, e diz que a ciência é o saber absoluto, ou seja, o movimento que a consciência exerce nela mesma, que é o comprovar-se da consciência, do saber finito, como espírito, e esse comprovar-se é o aparecer do espírito, a fenomenologia; a experiência, a fenomenologia, é o modo pelo qual o saber absoluto se traz a si mesmo, e é por isso ela mesma a ciência.
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Os dois subtítulos se complementam: o primeiro diz o que deve se comprovar em sua verdade, a consciência fazendo a experiência; o segundo diz como o que ela se comprova, como espírito; a experiência que a consciência faz na ciência, ao se trazer ao saber absoluto, é que a consciência é espírito e o espírito é o absoluto; o absoluto é o espírito, e essa é a definição suprema do absoluto, cuja descoberta e compreensão foi a tendência absoluta de toda formação e filosofia.
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Hegel usa ainda na Introdução a fórmula sistema da experiência do espírito, que reúne os elementos decisivos do título principal e dos dois subtítulos: a obra é o todo absoluto da experiência que o saber deve fazer consigo, na qual ele se revela como espírito, como o saber absoluto que no fundo faz a experiência.