§§8-15

Terceiro Capítulo: Justificação da Caracterização do Perguntar Abrangente por Mundo, Finitude, Isolamento como Metafísica. Origem e História da Palavra “Metafísica”

8. A palavra “Metafísica”. O significado de φύσις

Os conceitos filosóficos fundamentais da metafísica mostraram-se como conceitos abrangentes (Inbegriffe) – conceitos nos quais sempre se pergunta pelo todo e que sempre incluem no perguntar aquele que concebe. Por isso, o perguntar metafísico é determinado como perguntar abrangente. Filosofia e metafísica, pensar filosófico e metafísico foram equiparados. As disciplinas conhecidas da filosofia – lógica, ética, estética, filosofia da natureza e da história – surgiram de um ensino escolar da filosofia. A intenção da consideração preliminar é justamente destruir essa representação da metafísica como uma disciplina fixa. A pergunta de como se pode reivindicar o título “Metafísica” para o perguntar abrangente só pode ser respondida por uma breve discussão da história da palavra e seu significado.

9. As duas significações de φύσις em Aristóteles. O perguntar pelo ente no todo e o perguntar pela essência (o ser) do ente como a dupla direção do perguntar da πρώτη φιλοσοφία

No estágio do filosofar antigo em que atinge seu ponto culminante, em Aristóteles, as duas direções fundamentais do perguntar contidas na unidade da φύσις são reunidas explicitamente. O filosofar propriamente dito é o perguntar pela φύσις nessa dupla significação. As ciências (ἐπιστῆμαι) surgem do filosofar como modos e maneiras do perguntar; a filosofia não é uma ciência. A ἐπιστήμη φυσική (física) tem por objeto as coisas que pertencem à φύσις no primeiro sentido (φύσει ὄντα) e pergunta, em última instância, pelo primeiro motor (θεῖον, o divino).

10. A formação das disciplinas escolares Lógica, Física, Ética como decadência do filosofar propriamente dito

Com Aristóteles, a filosofia antiga atinge seu auge e, com ele, começa seu declínio e decadência real. O perguntar vivo morre, a efetiva comoção do perguntar filosófico deixa de ocorrer. O que foi dito e transmitido torna-se resultado manipulável e utilizável. A filosofia platônico-aristotélica torna-se filosofia escolar. A conexão originária é substituída pela ordem dentro de disciplinas e matérias escolares.

11. A inversão da significação técnica do μετά na palavra “Metafísica” para uma significação de conteúdo

Após a morte de Aristóteles, quando, no século I a.C., os compiladores das obras de Aristóteles quiseram ordenar seu material, depararam-se com a dificuldade de que os escritos da Filosofia Primeira (πρώτη φιλοσοφία) não podiam ser alocados em nenhuma das três disciplinas escolares existentes (Lógica, Física, Ética).

12. As inconveniências internas do conceito tradicional de metafísica

Apesar de usar o título “Metafísica”, não se pode assumir sua significação de conteúdo tradicional (conhecimento do suprassensível). O conceito tradicional de metafísica é caracterizado por três inconveniências: é externalizado (veräußerlicht), é confuso em si mesmo (in sich verworren) e é despreocupado com o problema propriamente dito (problemlos).

a) A externalização do conceito tradicional de metafísica: o metafísico (Deus, alma imortal) como um ente dado, embora superior

O conceito popular de metafísica como conhecimento do suprassensível (o que está além da experiência sensível) é externalizado. O suprassensível é tomado como um ente (embora superior) entre outros, um objeto dado, e a metafísica nivela-se ao conhecimento cotidiano de entes. O μετά torna-se mero indicador de um lugar do ente (o suprassensível), sem revelar a atitude peculiar de inversão (Umwendung) que o filosofar propriamente implica.

b) A confusão do conceito tradicional de metafísica: a conexão dos dois tipos distintos de transcendência (μετά) do ente suprassensível e dos caracteres não-sensíveis do ente

O conceito tradicional de metafísica é confuso porque, junto com a teologia (conhecimento do ente suprassensível, como Deus), mantém também a outra direção de perguntar da Filosofia Primeira: a pergunta pelo ente enquanto ente (ὄν ᾖ ὄν), que investiga as determinações gerais que convêm a todo ente (unidade, pluralidade, diferença, etc.). Essas duas direções de perguntar são simplesmente acopladas, sem se questionar o que significa μετά em cada caso.

c) A falta de problematização do conceito tradicional de metafísica

Devido à externalização e à confusão interna, o conceito tradicional de metafísica jamais se torna, ele mesmo, um problema. O que em Aristóteles era um problema latente (a unidade das duas direções de perguntar) é assumido como verdade fixa, e a falta de problematização é elevada a princípio. Apenas Kant, pela primeira vez, tentou fazer da própria metafísica um problema, em uma determinada direção.

13. O conceito de metafísica de Tomás de Aquino como comprovação histórica dos três momentos do conceito tradicional de metafísica

O conceito de metafísica de Tomás de Aquino (Santo Tomás) serve como exemplo histórico para os três momentos (externalização, confusão, falta de problematização). Tomás identifica a prima philosophia, a metaphysica e a theologia (scientia divina). A justificativa para essa identificação baseia-se no conceito de “maxime intelligibile” (o mais cognoscível), que é distinguido de três maneiras:

  1. ex ordine intelligendi (pela ordem do conhecimento): o mais cognoscível é o que se refere à causa primeira (Deus como criador) – originando a prima philosophia.
  2. ex comparatione intellectus ad sensum (pela comparação do intelecto com o sentido): o mais cognoscível é o que é universal (as determinações que convêm a todo ente, como uno, múltiplo, potência, ato). Tomás chama essas determinações de transphysica, e a elas atribui o nome metaphysica, no sentido de ontologia (ens qua ens).
  3. ex ipsa cognitione intellectus (pela natureza do conhecimento do intelecto): o mais cognoscível é o que está separado da matéria, como as substâncias separadas (Deus e as inteligências) – originando a scientia divina ou theologia.

14. O conceito de metafísica de Francisco Suárez e o caráter fundamental da metafísica moderna

O teólogo e filósofo espanhol Francisco Suárez (1548-1617) exerceu uma influência decisiva sobre a metafísica moderna. Em suas “Disputationes metaphysicae” (1597), ele sistematizou a problemática metafísica de forma autônoma, visando à teologia natural, e influenciou decisivamente Descartes, que estudou em colégio jesuíta. Suárez define a metafísica como o conhecimento que trata das coisas que vêm depois (post) das coisas naturais, interpretando o μετά tanto em sentido técnico (post, na ordem da aquisição do conhecimento) quanto em sentido de conteúdo (o que está além do físico).

15. Metafísica como título para o problema fundamental da própria metafísica. O resultado da consideração preliminar e a exigência de começar, a partir da comoção de um perguntar metafísico, com o agir na metafísica

A consideração preliminar sobre o título “Metafísica” não trouxe clareza sobre o que ela é, mas terminou com uma questão. A conclusão é que o título “Metafísica” não pode ser tomado na significação tradicional, mas como título para um problema – o problema fundamental da própria metafísica: “O que é a metafísica?” ou “O que é o filosofar?”. Essa questão é inseparável da filosofia.