-
O ponto de partida é a ciência caracterizada como uma espécie de conhecimento, entendido não como o que foi conhecido, mas como comportamento cognoscente; esse comportamento não é um processo psíquico interior, mas uma determinada maneira de ser do ser humano que se relaciona com o ente de modo desvelador.
-
O comportamento desvelador em relação ao ente que circunda o Dasein é uma possibilidade livre da existência humana; a existência é o modo de ser próprio e exclusivo do ser humano, que inclui o conhecer como possibilidade livre, ao passo que as coisas da natureza simplesmente estão presentes.
-
Para caracterizar a essência da ciência a partir da existência, bastam duas determinações fundamentais: o ser-no-mundo e a liberdade; o Dasein existe como ser-no-mundo, e mundo designa o todo ao qual sempre já nos relacionamos, de modo que mesmo a relação pessoal entre existências não é uma relação cognitiva entre almas isoladas, mas ocorre sempre dentro de um mundo.
-
Uma coisa material como uma pedra ou uma cadeira não tem mundo, sua maneira de ser é inteiramente desprovida de relação com um mundo; o ente simplesmente presente pode ocorrer dentro de um mundo, mas só adquire a determinação de ser intramundano quando um Dasein existe e o deixa vir ao encontro; a natureza pode muito bem ser à sua maneira sem que haja Dasein e, portanto, mundo.
-
Plantas e animais não estão presentes como pedras, mas tampouco existem de modo a se relacionar com um mundo; a sua maneira de ser, distinta tanto do simples estar presente quanto da existência humana, é chamada vida, e se é lícito falar em ambiente dos animais, permanece em aberto se aí há mundo em sentido próprio.
-
A segunda determinação essencial do Dasein ao lado do ser-no-mundo é a liberdade: o Dasein é um ente ao qual importa sua própria existência, de modo que ele se escolhe ou se esquiva da escolha; só um ente capaz de decisão pode ter um mundo, e mundo e liberdade estão em íntima conexão como determinações fundamentais da existência humana.
-
O comportamento em relação ao ente intramundano é primária e inicialmente não o comportamento cognoscente da pesquisa científica, mas o usar e empregar utensílios, o lidar com veículos, ferramentas e instrumentos em sentido amplo; é no trato com o utensílio que primeiro conhecemos as coisas, pois o uso como tal é a maneira primária e própria de descobrir o ente intramundano.
-
Da mesma forma, a natureza em seu poder e força não é desvelada pela reflexão sobre ela, mas no combate com ela e na luta por dominá-la, o que os mitos da natureza expressam; e as circunstâncias e contingências da ação cotidiana não são descobertas pelo simples contemplar do mundo, mas ao agarrar ou examinar ocasiões, quando então dificuldades, obstáculos e disposições se tornam visíveis.
-
No trato com as coisas, compreende-se previamente o que significa algo como utensílio ou coisa de uso; não se aprende o ser-utensílio em geral, pois esse já deve ser previamente compreendido para que se possa dispor a usar um utensílio determinado; esse pré-entendimento da instrumentalidade e da potência da natureza permanece oculto, não temático, não objetual, pré-conceitual.
-
O que se revela nesse pré-entendimento é a constituição de ser do ente: só nos podemos relacionar com algo como simples presente enquanto previamente entendemos o que significa estar presente; todo comportamento em relação ao ente contém em si uma compreensão da maneira de ser e da constituição de ser do ente em questão.
-
Compreende-se o ser do ente, mas nem se apreende conceitualmente esse ser, nem se sabe que se o compreende pré-conceitualmente, nem que é justamente essa compreensão do ser que torna possível todo comportamento em relação ao ente; esse entender do ser, por ser pré-conceitual e não objetual, chama-se compreensão pré-ontológica do ser, e ela já se encontra presente no trato cotidiano do Dasein com o seu mundo, oculta a ele mesmo.
-
O Dasein também se compreende a si mesmo pré-ontologicamente em seu ser ao se relacionar consigo como ente; ele entende sua própria maneira de ser, a existência, mas não a apreende conceitualmente, e inicialmente identifica seu próprio ser com o das coisas, o que ocorre em todo pensamento mítico e nunca desaparece inteiramente, revelando-se ainda no momento da facticidade.
-
A distinção conceitual entre o modo de ser do Dasein e o das coisas permanece obscura por longo tempo, mesmo dentro da filosofia;
Kant orbita em torno desses problemas sem os ver como tais, e começa-se hoje a reconhecê-los como centrais.
-
Três pontos resumem o que pertence essencialmente ao Dasein antes e independentemente de qualquer relação científica com o mundo: quando o Dasein existe facticamente, o ente já se encontra desvelado de alguma maneira; seu comportamento em relação a esse ente é primeiramente o trato prático; e todo ente desvelado, inclusive o Dasein ele mesmo, já é compreendido previamente quanto ao seu ser em uma compreensão ainda pré-ontológica.
-
Mesmo quando, no trato cotidiano, nos voltamos expressamente para as coisas e deliberamos sobre elas, esse olhar circunspeto ainda não é comportamento científico, pois permanece na atitude do lidar com; e igualmente, tomar distância de todo comportamento técnico e permanecer contemplativo junto ao ente não constitui ainda um comportamento teórico-científico.
-
A ausência de prática técnica não gera positivamente um comportamento científico, pois a ciência como tal requisita e inclui medidas técnicas; o que caracteriza positivamente o comportamento científico é que o Dasein se impõe como tarefa livremente escolhida o desvelamento do ente pelo desvelamento mesmo, vinculando-se livremente ao ente que se deve desvelar como única instância reguladora.
-
O comportamento que constitui o comportamento científico como tal chama-se objetivação; objetivar significa fazer de algo um objeto, e o ente não precisa tornar-se objeto para ser o que e como é; tornar-se objeto significa que o ente, como o ente que já é, deve responder ao questionar cognoscente sobre o que é, como é e de onde é.
-
Com a objetivação coloca-se a tarefa de expor e determinar o ente que vem ao encontro na contraposição; todo determinar é distinguir e delimitar, e na delimitação o ente é compreendido conceitualmente; os conceitos assim formados precisam ser verificados e comprovados no ente de que tratam e do qual foram extraídos.
-
O comportamento em relação ao ente só é possível com base numa prévia iluminação por uma compreensão do ser; nas ciências, onde o ente como tal deve tornar-se objeto, é necessária uma elaboração explícita dessa compreensão do ser; o essencial da objetivação está na realização explícita da compreensão do ser em que se torna compreensível a constituição fundamental do ente que deve tornar-se objeto.
-
A gênese de uma ciência se realiza na objetivação de um domínio do ente, o que significa a elaboração da compreensão da constituição de ser do ente em questão; dessa elaboração brotam os conceitos fundamentais que delimitam o terreno e o domínio da ciência, e sobre a objetivação se edifica a tematização.
-
A distinção da ciência natural moderna não está na observação de fatos, no experimento, nem no uso de cálculo e medição tomados isoladamente ou em conjunto, pois a ciência antiga e medieval também recorreram a esses recursos; o decisivo está em que Galileu orientou o conhecimento da natureza a partir da pergunta: como a natureza deve ser previamente determinada para que fatos naturais se tornem acessíveis à observação?
-
A natureza precisa ser previamente projetada como um conjunto fechado de deslocamentos de corpos materiais no tempo, e o que a delimita como tal — movimento, corpo, lugar, tempo — deve ser pensado de modo a possibilitar a determinabilidade matemática; a realização fundamental de Galileu e Kepler foi o projeto matemático explícito da natureza, que é o próprio projeto da constituição de ser da natureza.
-
Não há fatos puros: fatos como tais só podem ser apreendidos quando o domínio da natureza está delimitado como tal; em toda pesquisa que se pretende puramente factual já há pré-concepções sobre a determinação do domínio dentro do qual os fatos são encontrados, e os fatos por si mesmos não podem iluminar a constituição de ser como tal.
-
A essência da ciência como desvelamento do ente pelo desvelamento mesmo reside na objetivação; por ela a ciência ganha solo e delimita seu campo de pesquisa, e a maneira como ganha seu fundamento e seu domínio é como ela se fundamenta; assim já está em certo sentido respondida a pergunta sobre o que significa fundamentar uma ciência.
-
O que está no limite das reflexões das ciências é a meditação temática sobre o ser visado no projeto da constituição de ser como tal; a fundamentação da autofundamentação das ciências consiste na transformação da compreensão pré-ontológica do ser em uma ontologia explícita, que pergunta tematicamente pelo conceito de ser e pela constituição de ser como tais.
-
Como cada ciência tem seu domínio regional de ente como objeto, a meditação ontológica correspondente se refere à constituição de ser regional que determina esse domínio; em toda ciência de um domínio do ente já reside latentemente uma ontologia regional que lhe pertence, mas que ela mesma, por princípio, não pode desenvolver.
-
Toda investigação ontológica objetiva o ser como tal; toda investigação ôntica objetiva o ente; a objetivação ôntica só é possível com base no projeto ontológico da constituição de ser, e a interrogação ontológica exige por sua vez uma fundamentação mais originária, executada pela investigação que se chama ontologia fundamental; ontologia nesse sentido universal e radical não é outra coisa que a essência da filosofia.
-
A constituição de ser que precisa ser previamente compreendida para que o ente possa vir ao encontro é aquilo que em certo sentido é mais cedo que o ente, é a priori; esse entendido anteriormente ao ente é justamente o mais tardio e último a ser conceitualmente apreendido, e os próprios gregos chamavam as ciências individuais de filosofias individuais, revelando uma consciência ainda obscura de que toda investigação do ente já compreende o ser.
-
Toda ciência é latente e no fundo filosofia; a própria filosofia está inscrita no fundo do Dasein humano como possibilidade factual, pois a compreensão do ser é a condição mais originária de possibilidade da existência humana; por isso a filosofia, como tarefa de iluminação explícita do ser, é a possibilidade mais livre da existência humana: só onde a necessidade mais originária vincula é possível a liberdade mais elevada.
-
É possível ocupar-se com as ciências do ente sem se importar com a filosofia que nelas necessariamente, embora ocultamente, reside, pois a filosofia é a coisa da mais alta liberdade pessoal e ninguém é obrigado a abraçá-la; mas ela pode ser livremente assumida como necessidade radical da existência humana, desde que a existência singular se resolva a compreender a si mesma.
-
Em síntese: a autofundamentação das ciências precisa por sua vez de fundamentação, porque contém uma compreensão pré-ontológica do ser que as ciências do ente são por princípio incapazes de iluminar; essa fundamentação se realiza nas ontologias regionais, que por sua vez se fundam na ontologia fundamental, que constitui o centro da filosofia; toda ciência do ente contém necessariamente em si uma ontologia latente que a sustenta e fundamenta.