§26. O ‘QUEM’

§26. O ‘quem’ do ser-em-o-mundo

1. Tenta-se agora apreender o fenômeno básico do Dasein como ser-em-o-mundo em uma segunda direção, sendo necessário definir mais precisamente esse ente que tem o modo de ser de ser-em-o-mundo, formulação que, contudo, em certo sentido afasta de uma consideração rigorosa do fenômeno do Dasein, o que se torna evidente ao lembrar que esse ente chamado Dasein tem sua determinação-quê em seu sê-lo, não sendo um quê específico que ademais teria seu modo de ser, mas sendo precisamente o seu ser aquilo que o Dasein é.

2. A expressão o ente que tem o modo de ser do Dasein não pode significar que esse ente seja algo como uma coisa subsistente no mundo, primeiramente especificável em seu quê e que, com base nesse conteúdo-quê, teria também um modo de ser específico, tal como uma coisa, cadeira ou mesa, sendo por isso essa expressão, que sempre sugere algo da ordem da substancialidade de uma coisa, basicamente inadequada.

3. O Dasein, designado mais apropriadamente por uma pura expressão de ser, é o ente que eu mesmo sou a cada vez, pertencendo a esse ser chamado Dasein a particularidade temporal de um eu que é esse ser, de modo que, ao indagar sobre esse ente, deve-se perguntar quem é esse ente, e não o que é esse ente, tratando-se de definir o quem desse ser, evitando-se assim, ao menos terminologicamente, o perigo de entendê-lo como uma coisa subsistente.

** a) O Dasein como ser-com — o ser dos outros como co-Dasein (crítica da temática da empatia) **

4. Na análise precedente da constituição básica do Dasein como ser-em-o-mundo, tematizou-se o mundo como o em-que do Dasein em seu sentido específico de ser-em, sem que se tenha destacado todos os fenômenos aí manifestados, tendo surgido, na explicitação do mundo circundante do artesão, o fenômeno do mundo público.

5. Falou-se ainda do ambiente público em contraste com o próprio, e do limite fluido entre o ser-em-o-mundo público e o próprio, sendo o mundo circundante não apenas meu, mas também dos outros, vindo novamente à luz o fenômeno dos outros sem que se o tenha destacado mais nitidamente, restrição violenta na análise do mundo que, contudo, é exigida pelo próprio tema, como se tornará depois evidente.

6. Não se considerou antes os outros e seu ser, mas tampouco se assumiu como ponto de partida da análise que primeiro eu estivesse sozinho no mundo, ou que primeiro apenas o eu fosse dado sem mundo, não havendo, com a rejeição dessa abordagem e o desvelamento do ser-em-o-mundo, qualquer questão de isolamento do eu, nem, portanto, de um eu estou sozinho em um mundo.

7. Essa indeterminação do quem e o não-destaque dos outros no mundo circundante para o ser do Dasein significam apenas isto: como ser-em-o-mundo, o Dasein é ao mesmo tempo ser-uns-com-os-outros, mais rigorosamente, ser-com, afirmação fenomenológica de sentido existencial-ontológico que não pretende estabelecer que de fato não se esteja sozinho e que outros entes de minha espécie estejam subsistentes.

8. O ser-com significa um caráter de ser do Dasein enquanto tal, co-originário com o ser-em-o-mundo, e é a condição formal de possibilidade da co-revelação do Dasein dos outros para o Dasein que em cada caso é o próprio, definindo esse caráter de ser-com o Dasein mesmo quando outro Dasein não está de fato sendo interpelado nem pode ser percebido como subsistente.

9. Esse co-Dasein dos outros bem na cotidianidade é característico do ser-em como absorção ocupada no mundo, estando os outros aí comigo no mundo da ocupação, no qual todos habitam, mesmo quando não são corporalmente percebidos como subsistentes, pois, se os outros fossem encontrados apenas como coisas, talvez não estivessem realmente aí, sendo, ainda assim, seu estar-aí-com no mundo circundante inteiramente imediato, inconspícuo, óbvio, semelhante ao caráter de presença das coisas do mundo.

10. A ferramenta que utilizo foi comprada por alguém, o livro é presente de…, o guarda-chuva foi esquecido por alguém, não sendo a mesa de jantar em casa um tampo redondo sobre um suporte, mas um móvel em um lugar particular, que por sua vez tem seus lugares particulares nos quais determinados outros se sentam todo dia, apresentando-me o lugar vazio diretamente o co-Dasein em termos da ausência dos outros.

11. O que é providenciado na ocupação cotidiana pode estar presente no cuidado de tal modo que aparece como algo destinado a ser útil aos outros, excitá-los, sobrepujá-los, estando em alguma relação com os outros, na maior parte das vezes sem consciência explícita disso, estando os outros aí conosco por toda parte naquilo com que nos ocupamos e diretamente nas próprias coisas do mundo, especificamente aqueles outros com quem se está cada dia.

12. Mesmo na absorção no mundo, o Dasein não renega a si mesmo como ser-com, sob o qual se apreendem tanto meu ser-com com os outros quanto o co-Dasein dos outros comigo, não sendo esse ser-uns-com-os-outros um resultado aditivo da ocorrência de vários outros, nem um epifenômeno de uma multiplicidade de Daseins, algo suplementar que sobreviria apenas em virtude de certo número.

13. Os outros podem ser encontrados ambientalmente: o campo mal cultivado ao longo do qual caminho apresenta seu proprietário ou arrendatário; o veleiro ancorado apresenta alguém em particular, aquele que faz seus passeios nele, tendo esse encontro, contudo, estrutura de apresentação distinta.

14. Os contextos referenciais destacados anteriormente sempre apresentam algo ambiental, mas o mundo circundante pode agora, por sua vez, enquanto mundo particular, apresentar simultaneamente um ente intimamente envolvido com ele, o Dasein, não sendo necessário para tal apresentação que os outros estejam pessoalmente próximos, por assim dizer.

15. A mais cotidiana das atividades, passar e evitar-se uns aos outros na rua, já envolve esse encontro ambiental, com base nessa rua comum a nós, só fazendo sentido evitar-se para um ente que está uns-com-os-outros, para um ser-em-o-mundo orientado e ocupado, sendo o evitar-se apenas um fenômeno de estar ocupado uns com os outros, um fenômeno cotidiano levado ao extremo, que na maior parte das vezes é um cuidar de e com os outros no não ter nada a ver uns com os outros.

16. O homem mais estranho que encontramos está comigo em meu mundo e é experienciado como tal ao evitarmo-nos e passarmos uns pelos outros; uma pedra ou tijolo que cai do telhado, estritamente falando, não passa por uma janela, não sendo esse modo cotidiano e abrangente de ser-uns-com-os-outros, o de não ter nada a ver uns com os outros, um nada, mas uma modificação específica, uma privação do ser-com como ser-dependente-uns-dos-outros.

17. Importa esclarecer perfeitamente essa composição fenomenal básica do ser-uns-com-os-outros, devendo esse fenômeno, apesar de todos os preconceitos anteriores da filosofia e todas as tentativas usuais de explicá-lo e deduzi-lo, ser trazido a uma doação não adulterada, o que é possível já que a constituição básica do Dasein como ser-em-o-mundo está desde o início diante de nós.

18. O ser-uns-com-os-outros, que reúne a estrutura de ser do meu próprio Dasein temporalmente particular como ser-com e o modo de ser dos outros como co-Dasein, deve ser compreendido a partir dessa constituição básica do ser-em-o-mundo, devendo-se notar que o tipo mais próximo de encontro com outro se dá na direção do próprio mundo no qual a ocupação está absorvida.

19. Esse ser-uns-com-os-outros é agora determinado por todos os caracteres antes apontados em relação ao ser-em, isto é, mesmo o mais indiferente ser-uns-com-os-outros segundo linhas de direcionamento mútuo (por exemplo, na orientação espacial) só é compreensível se ser-uns-com-os-outros significar ser-uns-com-os-outros em um mundo, sendo essa a base sobre a qual esse ser-uns-com-os-outros, que pode ser indiferente e inconsciente para o indivíduo, pode desenvolver as várias possibilidades tanto de comunidade quanto de sociedade, estruturas superiores que aqui não podem ser perseguidas em maior detalhe.

20. Deve-se ter em mente que a mundaneidade do mundo apresenta não apenas coisas do mundo — o mundo circundante em sentido estrito —, mas também, embora não como ser mundano, o co-Dasein dos outros e o próprio si-mesmo, o que significa que um encontro mundano de algo ainda não decide por si mesmo sobre o tipo de ser daquilo que é encontrado, podendo isso ser apresentado como ser à mão, ser subsistente, co-Dasein ou Dasein-próprio.

21. O ser-com como constituição básica do Dasein deve ser primeiramente compreendido inteiramente em seu modo de ser da cotidianidade, tendo-se caracterizado o mundo como definido pela estrutura da significatividade, o que significa que o mundo pode sempre ser compreendido pelo Dasein que nele está em graus muito diversos de expressividade e determinação.

22. A abordagem aparentemente sem pressupostos, segundo a qual primeiro há apenas um sujeito e depois um mundo lhe é trazido, está longe de ser crítica e fenomenalmente adequada, assim como o pressuposto de que primeiro um sujeito é dado apenas para si, colocando-se então a questão de como chega a outro sujeito.

23. Torna-se também claro, já a partir do modo como cada um se encontra por meio do mundo, que a experiência da vida psíquica alheia, tanto quanto a própria, não necessita primeiro de uma reflexão sobre a vivência, tomada no sentido tradicional, para apreender o próprio Dasein.

24. A rejeição desse pseudoproblema da empatia — como um sujeito inicialmente isolado alcança outro — não implica de modo algum que o ser-uns-com-os-outros e sua compreensibilidade dispensem esclarecimento fenomenal, afirmando-se apenas que a questão do co-Dasein deve ser compreendida como questão do próprio Dasein, originalidade ônticamente existenciária que não é ontologicamente óbvia nem elimina o problema ontológico da empatia.

** b) O Impessoal como o quem do ser do ser-uns-com-os-outros na cotidianidade **

25. A estrutura do Dasein deve agora ser exibida quanto ao modo pelo qual esse ser-uns-com-os-outros, determinado pelo mundo, e a compreensão comum com ele dada se constituem no Dasein, colocando-se a questão de quem é realmente aquele que primeiro se compreende a si mesmo em tal ser-uns-com-os-outros, e de como tal compreensão deve ser interpretada como um tipo de ser-uns-com-os-outros em termos da constituição do ser do Dasein.

26. A exposição desse novo caráter do ser-em — o ser-com —, especificamente em seu modo de ser extraído do mundo, remete de volta à questão inicial: quem é esse Dasein em sua cotidianidade, não se devendo sucumbir ao engano de que, ao dizer Dasein é em cada caso meu — o ser que eu mesmo sou —, já esteja dada a resposta à questão do quem do Dasein em sua cotidianidade.

27. Já se sugeriu que, no de-início-e-na-maior-parte-das-vezes da ocupação cotidiana, o Dasein temporalmente particular é sempre aquilo que persegue: é-se o que se faz, tomando a interpretação cotidiana do Dasein seu horizonte de interpretação e nomeação daquilo de que em cada caso se ocupa — é-se sapateiro, alfaiate, professor, banqueiro —, sendo aqui o Dasein algo que também os outros podem ser e são.

28. A própria ocupação — o Dasein como ser-com — colocou assim os outros sob seu cuidado; mais adequadamente, o Dasein como ser-com é vivido pelo co-Dasein dos outros e pelo mundo que o ocupa deste ou daquele modo, não sendo o Dasein, precisamente em suas ocupações mais próprias e cotidianas, ele mesmo, mas sendo antes os outros que vivem o próprio Dasein.

29. Na medida em que o Dasein, em sua ocupação com seu mundo, é ser-com e como tal está absorvido com os outros no mundo, esse mundo comum é ao mesmo tempo o mundo que cada um confiou aos seus cuidados como ambiente público que se utiliza, se leva em conta e no qual se move, movendo-se aí com os outros em modos de ser em que cada outro é tal como eu sou, colapsando toda distinção de ocupação e profissão.

30. Esse Impessoal, que não é ninguém em particular e que todos são, embora não como soma, dita o modo de ser do Dasein cotidiano, possuindo o próprio Impessoal seus modos de ser, um dos quais já foi caracterizado no fenômeno do distanciamento, tendo a tendência do ser-com a ser com base na diferença frente aos outros por sua vez seu fundamento no fato de que esse ser-uns-com-os-outros e a ocupação têm o caráter da medianidade.

31. Há uma inter-relação existencial entre os fenômenos do distanciamento, da medianidade e do nivelamento, constituindo o Impessoal, enquanto aquilo que forma o ser-uns-com-os-outros cotidiano nesses modos de seu ser, o que se chama de público em sentido estrito, o que implica que o mundo já sempre é dado primariamente como mundo comum.

32. Notou-se que o Dasein primeiramente não vive em seu mais próprio e mais próximo, sendo de início e cotidianamente o próprio mundo e o próprio Dasein precisamente o mais distante, sendo antes primeiro o mundo em que se está uns-com-os-outros, e é a partir desse mundo que se pode primeiro crescer mais ou menos genuinamente em seu próprio mundo.

33. Esse estado constitutivo ulterior do ser do Impessoal mostra-se no público, a saber, que ele sempre desonera o próprio Dasein da pessoa, acomodando-se convenientemente essa desoneração do ser, que o Dasein cultiva como ser-com, à tendência que há no Dasein de tomar e fazer as coisas levianamente, mantendo o público, ao assim acomodar o Dasein com essa desoneração de seu ser, um domínio obstinado.

34. Deve-se notar fenomenologicamente que esse ninguém, assim exibido em traços largos por vários lados, não é de fato nada, sendo o Impessoal um fenômeno inegável e demonstrável do próprio Dasein enquanto ser-com no mundo, não podendo se dizer que, por não haver categorias para ele e por se pensar que apenas algo como uma cadeira realmente é, esse Impessoal seja de fato nada.

35. Esse Impessoal deve ser compreendido como, de certo modo, o sujeito mais real que há para o Dasein, mostrando sua estrutura fenomenal que o ente autêntico do Dasein, o quem, não é uma coisa e nada mundano, mas é ele mesmo apenas um modo de ser, não se chegando, ao seguir fenomenalmente os elementos componentes, a um ente, mas ao Dasein, na medida em que ele é desse modo específico, o que novamente justifica designar o ente que nós mesmos somos pela expressão de ser Dasein.

36. Mesmo ao perguntar pelo quem, o curso da linguagem ordinária já traz consigo a implicação pronta de que se pergunta por um ente subsistente como uma espécie de cenário em que o Dasein se desenrolaria, tornando-se por isso ainda mais urgente reverter à pesquisa fenomenológica: antes das palavras, antes das expressões, sempre primeiro os fenômenos, e só então os conceitos.

37. Esse modo peculiar de ser, que caracteriza a cotidianidade no Impessoal como absorção ocupada uns-com-os-outros no mundo, traz consigo também um tipo cotidiano de autointerpretação do Dasein, formando-se provavelmente, uma vez que o Dasein primeiro se encontra a si mesmo no mundo e o próprio público define os objetivos e visões do Dasein a partir do mundo da ocupação comum, todos os conceitos e expressões fundamentais que o Dasein primeiro forma para si mesmo tendo em vista o mundo em que está absorvido.

38. Wilhelm von Humboldt foi o primeiro a notar que certas línguas, ao quererem dizer eu, formulam esse eu a ser expresso — o próprio Dasein — pela palavra aqui, de modo que eu equivale a aqui, sendo o tu — o outro — o aí, e o ele — aquele que primeiramente não está direta e expressamente presente — o lá.

39. Aqui, aí, lá não são determinações reais de lugar como caracteres das coisas do mundo, mas antes determinações do Dasein, isto é, essas determinações do Dasein aqui, aí, lá como eu, tu, ele não são de modo algum advérbios de lugar, nem tampouco expressões para eu, Tu, Ele em sentido pontual, como se se referissem a certas coisas especiais que são.

40. A fonte desse fenômeno, que Humboldt exibiu sem compreendê-lo em suas últimas consequências ontológicas, está em que o Dasein, ao qual se atribuiu uma espacialidade original, ao falar de si mesmo, fala em termos daquilo em que se encontra, considerando-se na autoarticulação cotidiana em termos de espacialidade, no sentido antes descrito da orientação removedora do ser-em.

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