§20. O CONHECER

§20. O conhecer como modo derivado do ser-em do Dasein

1. Desde cedo a relação do Dasein com o mundo foi definida primariamente em termos do modo de ser do conhecer, concebendo-se, em fórmula que de fato não coincide com a anterior, a relação do sujeito com o objeto primariamente como relação cognitiva, à qual se teria incorporado depois uma dita relação prática, importando, mesmo que se tratasse de tomar esse modo de ser como primário no sentido de um ser-em-o-mundo cognitivo, o que não é o caso, primeiramente vê-lo de modo fenomenalmente genuíno.

2. Ao refletir sobre essa relação de ser entre sujeito e objeto, encontra-se para a observação comum um ente chamado natureza já dado em sentido amplo, que se torna conhecido, ente sempre já primeiramente encontrado, cultivado e cuidado pelo Dasein precisamente por ser ser-em-o-mundo, não se encontrando nesse ente o conhecer que o conhece, devendo esse conhecer estar em outro lugar, se é que está em algum.

3. Quanto mais inequivocamente se sustenta que o conhecer está de fato e desde o início dentro, mais se crê proceder sem pressupostos na questão da essência do conhecimento e da determinação da relação de ser em que o sujeito está com o objeto, surgindo então a questão de como o conhecer, que segundo seu ser está dentro, no sujeito, sai de sua esfera interior para uma outra, exterior, para o mundo.

4. Nessa abordagem da questão do conhecer, pressupõe-se de antemão, explícita ou não, uma relação entre dois entes subsistentes, aplicando-se essa relação de duas coisas subsistentes mais especificamente à determinação de uma relação entre interior e exterior, ao se perguntar como é possível essa relação de ser entre os dois entes, sujeito e objeto, pergunta feita supostamente em conformidade com os fatos do conhecer, sem sequer minimamente ter-se determinado o sentido de ser desse conhecer, o sentido de ser dessa relação entre sujeito e objeto, sem ter esclarecido o sentido de ser do sujeito nem o ter delimitado do objeto.

5. Em toda essa abordagem da questão, mesmo quando inserida em uma problemática epistemológica, permanece-se cego para o que assim já se afirma sobre o Dasein quando lhe é atribuído o conhecer tomado como modo de ser, o que não diz nem mais nem menos do que isto: conhecer o mundo é um modo de ser do Dasein tal que esse modo está onticamente fundado em sua constituição básica, no ser-em-o-mundo.

6. Ao reproduzir os achados fenomenais nesta forma — o conhecer é um modo de ser do ser-em —, quem se orienta pelo horizonte tradicional das questões epistemológicas tende a responder que tal interpretação do conhecer na verdade anula o problema do conhecimento, cabendo perguntar, contudo, que autoridade decide se e em que sentido deve haver um problema do conhecimento fora da própria coisa mesma.

7. O defeito básico da epistemologia está precisamente em não considerar aquilo que designa por conhecer em seu dado fenomenal originário como um modo de ser do Dasein, como um modo de seu ser-em, e em não extrair dessa consideração básica todas as questões que a partir daí começam a surgir.

8. A afirmação de que já não há problema do conhecimento, caso se sustente desde o início que o Dasein está envolvido com seu mundo, não é propriamente uma afirmação, mas apenas a restauração de um dado que todo ver sem preconceitos considera óbvio, não estando de modo algum prescrito que deva haver um problema do conhecimento, sendo talvez precisamente tarefa de uma investigação filosófica privar muitos problemas de sua existência aparente, reduzindo seu número e promovendo uma investigação que abra caminho às coisas mesmas.

9. Todos esses fenômenos genuínos só podem ser investigados e corretamente compreendidos desde o início se se esclarecer que o conhecer, segundo seu sentido, já é um modo do ser-em do Dasein, não sendo algo pelo qual o Dasein, ainda não primeiramente no mundo, ao conhecer produziria uma relação com o mundo, não podendo sequer se compreender esse ser inicialmente sem-mundo do sujeito.

10. O conhecer mostra, mais precisamente — o que só se pode indicar aqui muito brevemente —, uma estrutura faseada, uma interconexão específica em que ele se temporaliza como modo de ser do Dasein, sendo a primeira fase dessa temporalização o direcionar-se-para algo, o comportamento específico de assumir uma direção para algo, já com base no ser-em-o-mundo.

11. Com base nessa segunda fase, a do demorar-se com um ente já dado, vem, em terceiro lugar, o efetivo apreender, o pôr-à-parte, o expor ou interpretar em sentido específico, sendo tal percepção, enquanto ter-apreendido, ela mesma cultivada, em quarto lugar, até o nível da preservação do apreendido.

12. Em quinto lugar, a retenção preservadora do conhecido é ela mesma nada além de um novo modo de ser-em, isto é, da relação de ser com o ente conhecido, sendo o ser-em caracterizado no primeiro ponto agora modificado pelo conhecimento.

13. Toda a sequência das fases do conhecer, do primário direcionar-se-para até a retenção, exibe simplesmente o cultivo de uma nova postura do ser do Dasein frente ao conhecido, exibindo uma possibilidade de ser já também anunciada como ciência e pesquisa, tratando-se, por fim, de modos de temporalização, de tal modo que o primeiro modo antecipa todos os demais, sustentando-se neles, sendo ele mesmo antecipador apenas enquanto ser-em.

14. No direcionar-se-para e apreender, o Dasein não sai primeiramente de si mesmo, de uma esfera interior na qual estaria encapsulado, sendo antes seu próprio sentido estar sempre já fora no mundo, no sentido corretamente compreendido de fora como ser-em e demorar-se com o mundo, a cada vez já de algum modo descoberto.

15. Ao conhecer um contexto de ser do mundo, mesmo ao meramente pensar nele, ao meramente representá-lo sem experienciá-lo originariamente, não se está menos junto aos entes fora no mundo, e não se está de modo algum consigo mesmo por dentro, não significando o mero representar-se a mim mesmo a Catedral de Freiburgo que ela esteja apenas imanentemente presente no representar, sendo antes esse mero representar, em sentido genuíno e no melhor dos sentidos, precisamente junto aos próprios entes.

16. Em todo o edifício do conhecer fundado no ser-em, não é o caso de que, com a apreensão, o sujeito primeiro introduziria, primeiro produziria, sua relação de ser com o mundo, estando antes a apreensão fundada em um prévio deixar-algo-ser-visto, possível esse deixar-algo-ser-visto com base em um deixar-algo-ser-encontrado, e este, por sua vez, apenas com base em um sempre já estar-envolvido-com.

17. O que aqui se expôs como ser-em do Dasein e caracterizou-se com maior detalhe é o fundamento ontológico daquilo que Agostinho e sobretudo Pascal já haviam notado, chamando eles aquilo que efetivamente conhece não de conhecer, mas de amor e ódio, sendo todo conhecer apenas uma apropriação e uma forma de realização de algo já descoberto por outros comportamentos primários, cobrindo o conhecer antes, muito provavelmente, algo que originariamente foi descoberto em um comportamento não cognitivo.

18. O que Agostinho identifica como amor e ódio, e apenas em certos contextos especifica como o modo de ser verdadeiramente cognitivo do Dasein, deverá ser tomado mais adiante como fenômeno originário do Dasein, ainda que não nessa restrição unilateral a apenas esse comportamento, aprendendo-se antes, a partir de uma apreensão mais refinada dos modos de ser do Dasein dentro dos quais o conhecimento é de todo possível, que o conhecimento enquanto tal não pode sequer ser apreendido se não se vir desde o início o contexto específico de ser em que o conhecer enquanto tal é possível.

19. O ser-em do Dasein permanece um enigma para toda tentativa de explicá-lo como um ente que a priori ele não é, pois toda explicação remete o que deve ser explicado a seus contextos de ser, devendo-se sempre orientar pela questão prévia de se o ente a explicar é previamente experienciado em seu ser e se está adequadamente especificado em seu ser.

20. Antes de prosseguir a essa análise, o fenômeno pode ser esclarecido por uma analogia não muito distante da própria coisa em questão, na medida em que essa analogia diz respeito a um ente ao qual se deve igualmente atribuir, de modo formal, o tipo de ser que pertence ao Dasein — a vida.

21. Pode-se comparar o sujeito e sua esfera interior a um caracol em sua concha, notando-se expressamente que não se pressupõe que as teorias que falam da imanência da consciência e do sujeito concebam a consciência precisamente nesse sentido de concha de caracol, mas, enquanto o sentido do dentro e da imanência permanecer indefinido, de tal modo que nunca se aprenda qual sentido tem esse em e qual relação de ser esse em do sujeito tem com o mundo, a analogia permanece, de todo modo, negativamente equivalente.

22. Pode-se dizer que o caracol às vezes sai rastejando de sua concha e ao mesmo tempo a mantém disponível, estendendo-se para algo, para alimento, para certas coisas que encontra no chão, sem que com isso entre primeiramente em uma relação de ser com o mundo, sendo seu ato de sair rastejando apenas uma modificação local de seu já-estar-em-o-mundo.

23. O mesmo se aplica de modo semelhante a um sujeito ao qual se atribui o conhecer: se posto como um ente que deveria ter essa possibilidade de ser, é com isso compreendido como um ente que está no modo de ser em um mundo, realizando-se, contudo, essa posição cegamente, sem compreensão do que em princípio já está implicado no conhecer.

24. Orientou-se a questão do ser-em particularmente para a relação do conhecer porque esse modo de ser do Dasein tradicionalmente tem prioridade na determinação filosófica da relação do ego (o sujeito) com o mundo, permanecendo, contudo, esse modo de ser ainda não originariamente concebido, sendo antes fonte de toda sorte de confusão em virtude dessa indeterminação quanto ao seu ser.

25. O que foi dito nesta consideração sobre o conhecer como modo de ser do ser-em, e sugerido como tarefa de uma fenomenologia do conhecer, não se situa nem aquém nem além do idealismo e do realismo, nem é nenhuma dessas duas posições, situando-se antes inteiramente fora de uma orientação a elas e a seus modos de formular questões. 26. As considerações ulteriores não apenas explicitarão mais claramente o sentido genuíno do conhecer, visando sobretudo mostrar que o conhecer está, em seu ser, fundado em estruturas mais originárias do Dasein, que, por exemplo, o conhecer só pode ser verdadeiro — só pode ter a verdade como predicado distintivo — porque a verdade não é tanto uma propriedade do conhecer, mas antes um caráter do próprio ser do Dasein, podendo isso bastar como relato provisório do fenômeno do ser-em.