Techne

DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.

** Tékhnē no Sofista de Platão: discussão da interpretação de Heidegger **

1. A investigação do conceito de tékhnē no Sofista exige abandonar sua tradução automática por “arte”, pois Platão emprega o termo numa extensão semântica muito mais ampla, especialmente nesse diálogo, no qual numerosas tékhnai são distinguidas e classificadas segundo suas respectivas capacidades e funções.

2. A interpretação heideggeriana toma a tékhnē como uma modalidade de “saber-como” orientada para o poiēton, aquilo que ainda precisa ser produzido e que, portanto, se encontra a caminho de vir a ser.

3. A explicação heideggeriana de Aristóteles situa a tékhnē em relação à arkhē e ao aletheuein, fazendo dela um dos modos pelos quais algo pode ser desvelado e tornar-se acessível em sua determinação própria.

4. Embora a tékhnē se oponha aos demais modos de aletheuein por sua especificidade, Aristóteles a inclui também entre os três graus do eidenai — aisthesis, empeiria e tékhnē —, permitindo a Heidegger distingui-la da experiência pela posse de logos e pela capacidade de conhecer o eidos e explicar a origem dos entes.

5. A relação entre tékhnē, episteme e empeiria somente pode ser adequadamente compreendida depois de esclarecer a história semântica e a etimologia do próprio termo tékhnē.

6. O léxico grego atribui a tékhnē uma multiplicidade de significados que inclui arte, habilidade manual, ofício, procedimento, maneira, meio para alcançar algo, sistema ou método de produção, obra artesanal e até tratado sistemático sobre disciplinas como gramática e retórica.

7. A origem indo-europeia de tékhnē remete ao trabalho de ajustar e combinar elementos de madeira na construção de uma habitação, de modo que sua significação inicial estaria ligada à atividade do tekton, o trabalhador da madeira que possui o conhecimento necessário para produzir algo.

8. Apesar de sua grande amplitude semântica, a tékhnē costuma significar em Platão arte, ofício ou capacidade especializada, tornando necessário esclarecer como tal noção se constitui especificamente no interior de seu pensamento.

9. Antes de Platão, a associação entre tékhnē e ofício produtivo permanece forte nos poemas homéricos, embora o campo de aplicação do termo se amplie progressivamente até incluir, em Ésquilo, atividades tão diversas quanto construção, astronomia, aritmética, escrita, criação de animais, navegação, medicina, profecia e metalurgia.

10. A determinação da tékhnē exige examinar simultaneamente sua proximidade com a episteme e sua diferença relativamente à empeiria.

11. As traduções modernas de episteme como “conhecimento” e de tékhnē como “arte” ou “ofício” podem projetar sobre os gregos a divisão contemporânea entre teoria e prática, embora a história antiga desses conceitos revele relações muito mais estreitas e variáveis entre ambos.

12. Nos diálogos platônicos, tékhnē e episteme relacionam-se de maneira complexa, sem receber uma teoria única e sistemática, mas apresentam características recorrentes que revelam uma preocupação conceitual contínua e coerente em diferentes contextos dialógicos.

13. Em diversos diálogos, tékhnē e episteme aparecem quase intercambiáveis, pois a medicina pode ser denominada tanto arte médica quanto conhecimento da saúde, a carpintaria pode ser designada como conhecimento do trabalho da madeira e disciplinas como mensuração podem receber simultaneamente o nome de tékhnē e de episteme.

14. A interpretação aristotelizante segundo a qual tékhnē seria essencialmente conhecimento produtivo torna-se insuficiente diante das disciplinas teóricas que Sócrates também classifica como tékhnai, tais como geometria, teoria dos números e cálculo.

15. A tentativa de atribuir a Sócrates um conceito único e uniforme de tékhnē exige selecionar apenas parte das evidências, enquanto a consideração conjunta dos diálogos favorece a tese de que o termo desempenha múltiplas funções conceituais e não possui uma definição completamente unificada.

16. Tanto a separação entre teórico e prático quanto aquela entre produtivo e não produtivo podem constituir categorias anacrônicas quando aplicadas indiscriminadamente à concepção socrático-platônica de tékhnē, cuja ambição conceitual parece ultrapassar essas dicotomias modernas.

17. A tékhnē deve, portanto, ser compreendida como uma realidade que abrange conjuntamente arte e ofício, dimensões teóricas e práticas, sem se reduzir à simples soma dessas polaridades.

18. A concepção propriamente platônica da tékhnē torna-se então o centro da investigação.

19. A centralidade da tékhnē em Platão manifesta-se na recorrência de exemplos como lavadeiras, construtores, médicos e cozinheiros, todos caracterizados pela posse de um domínio especializado capaz de produzir resultados úteis, ser ensinado, reconhecido, certificado e socialmente recompensado.

20. O emprego extremamente frequente de tékhnē e de seus derivados nos diálogos mostra que o conceito constitui um instrumento central para pensar problemas como virtude, governo e criação do cosmos, ao mesmo tempo que Platão desenvolve diversas classificações das tékhnai.

21. A complexidade da teoria platônica manifesta-se inicialmente na noção de ergon, porque cada tékhnē possui uma função ou realização característica pela qual pode ser distinguida das demais.

22. À medida que o conceito de tékhnē se desenvolve, aumenta a importância do conhecimento reflexivo, porque a competência técnica não consiste somente em saber executar determinada atividade, mas também em compreender teoricamente seu objeto e sua finalidade.

23. A dimensão teórica da tékhnē manifesta-se ainda na capacidade de fornecer uma explicação racional da própria prática, pois o verdadeiro especialista deve saber por que realiza determinadas ações e deve poder dar razão da natureza e da finalidade daquilo com que trabalha.

24. A tékhnē plenamente desenvolvida consiste num conhecimento orientado por finalidade, no qual o praticante realiza corretamente uma atividade porque compreende seu objetivo e consegue formular discursivamente essa compreensão, permitindo que o logos oriente a própria prática.

25. Uma segunda característica fundamental da tékhnē reside em sua orientação para o bem daquilo de que cuida, de maneira que o conhecimento técnico não é axiologicamente neutro, mas tende ao benefício de seu objeto.

26. A proximidade conceitual entre tékhnē e episteme, bem como entre tékhnē e empeiria, impede tratá-las como domínios inteiramente separados, pois a própria tékhnē platônica incorpora níveis diferentes de experiência, conhecimento, reflexão e capacidade prática.

27. O Sofista apresenta uma configuração particularmente significativa da tékhnē, na qual as fronteiras entre habilidade, conhecimento, experiência e produção são novamente tensionadas.

28. A investigação do sofista começa perguntando se ele é tekhnites ou atekhnos e se possui alguma espécie de capacidade, dynamis, de modo que a própria tékhnē aparece determinada como uma forma de potência ou competência efetiva.

29. No Sofista, tékhnē abrange capacidades, possibilidades e experiências que não correspondem simplesmente ao conceito moderno de arte, enquanto a situação epistemológica do sofista se torna paradoxal porque ele possui uma espécie de episteme fundada em opinião e desprovida da verdade plena.

30. A comparação da dialética com uma espécie de tékhnē confirma que Platão distingue modalidades práticas e teóricas de conhecimento técnico, pois a tékhnē prática produz algo exterior à própria atividade, enquanto a tékhnē teórica exerce sua capacidade sobre os próprios objetos do conhecimento sem produzir um resultado separado.

31. A inclusão do conhecimento de comando, epitaktike, no domínio teórico estabelece um espaço intermediário entre teoria pura e prática direta, pois atividades como arquitetura não fabricam materialmente os produtos, mas dirigem ações que têm efeitos concretos.

32. As definições do pescador e do sofista no Sofista mobilizam dezenas de tékhnai e atividades humanas, frequentemente com função paródica e irônica, abrangendo desde medicina, equitação, caça, pecuária e agricultura até geometria, estratégia, navegação, política, profecia, música, pintura, escultura, construção, tecelagem, metalurgia e culinária.

33. A definição heideggeriana da tékhnē como “saber-como” oferece uma chave particularmente eficaz para unificar essa diversidade, porque todas as atividades enumeradas no Sofista pressupõem uma competência específica acerca de como realizar aquilo que lhes é próprio.

34. A dificuldade final consiste em decidir se a atribuição de tékhnē à sofística deve ser tomada como classificação filosófica rigorosa ou como parte da ironia platônica que deliberadamente aproxima atividades de valor muito desigual.