Symploke

DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.

** O termo symplokē no Banquete 202b1 e no Sofista 240c1 e seguintes, 259d–261c: a interpretação heideggeriana do conceito de “interconexão” no pensamento platônico **

1. A interpretação desenvolvida por Heidegger nas preleções de Marburgo de 1924–1925 identifica corretamente a presença do conceito de inter-relação, symplokē, já no Banquete, onde a narrativa socrática sobre a origem de Eros oferece em forma mítica uma configuração do ser, do não-ser e da alteridade que receberá formulação filosófica mais explícita no Sofista.

2. A questão decisiva consiste em determinar se a apresentação socrática de Eros pode ser entendida como uma antecipação alegórica da symplokē das Formas e da distinção exaustiva entre uma coisa, seu contrário polar e um terceiro termo diferente de ambos, estrutura que o Sofista posteriormente desenvolverá no plano ontológico e lógico.

** I. O caso da symplokē no Banquete **

3. A narrativa mítica do nascimento de Eros estrutura-se segundo uma antítese intensificada pela inversão dos papéis tradicionais de Poros e Penia, pois Poros, personificação do recurso e da inteligência, aparece passivo e desprovido de iniciativa, enquanto Penia, associada à carência, assume a potência ativa que conduz à geração de Eros.

4. O domínio intermediário indicado por Diotima entre contrários propriamente ditos aparece reiteradamente nas séries bom/mau, belo/feio, sábio/ignorante, mortal/imortal e divino/humano, nas quais a oposição polar não exclui a possibilidade de uma condição que não coincida integralmente com nenhum dos extremos e que introduz implicitamente a dimensão do héteron.

5. Eros representa a afirmação da contradição ou da tensão entre polos no interior de um mesmo ente, vinculando-os pela presença do héteron no ón, de maneira que a fórmula tradicional “nem isto nem aquilo” é reinterpretada por Diotima por meio da figura do intermediário, metaxý.

6. O metaxý designa uma posição intermediária pela qual Eros participa simultaneamente das esferas divina e humana e, como grande daímon, separa e une deuses e homens, mantendo a coesão do cosmos ao mediar entre mortalidade e eternidade.

7. A tradição platônica posterior confirma e desenvolve a função mediadora dos daímones, especialmente em Xenócrates, cuja interpretação, preservada por Plutarco, oferece um modelo matemático no qual os demônios ligam os extremos do universo e garantem sua unidade e comunidade.

8. A teoria xenocrática das coisas indiferentes, adiáphora, acrescenta ao contraste entre bem e mal uma terceira classe constituída pelo que não é nem bom nem mau, prolongando no domínio axiológico a estrutura tripartite do intermediário.

9. Eros personifica também o instante de geração, génesis, situado entre vida e morte, fracasso e florescimento, tornando visível uma coexistência ou entrelaçamento de ser e não-ser que pode ser descrito mediante conceitos como sýmmixis, symplokē, plégma e koinōnía.

10. A redução de Eros, de potência cosmogônica a princípio filosófico do intermediário, faz dele o motor da busca pela verdade, porque a carência de sabedoria constitui a condição necessária do filosofar e reproduz epistemologicamente a posição socrática entre saber e ignorância.

11. A natureza sintética de Eros articula saber (Wissen) e não-saber (Nicht-Wissen) como princípios complementares, pois, enquanto filósofo, ele não possui a sabedoria dos deuses nem se encontra na ignorância absoluta, ao passo que, em sua proximidade com a sofística, pode combinar conhecimento e ignorância de maneira capaz de encobrir a verdade.

12. A opinião correta, orthē dóxa, ocupa o espaço intermediário entre sabedoria e ignorância porque alcança aquilo que é verdadeiro sem possuir a justificação racional, lógon doûnai, que permitiria transformar acerto em conhecimento propriamente dito.

13. A variabilidade contextual das determinações valorativas dos objetos sensíveis demonstra que a realidade física é marcada pela copresença de opostos, pois uma mesma coisa pode ser bela sob determinado aspecto e feia sob outro, bela num momento e feia em outro ou bela relativamente a uma coisa e feia relativamente a outra.

** II. O caso da symplokē no Sofista **

14. A investigação do Sofista procura reconhecer o gênero do sofista mediante o método de divisão, diaíresis, efetuando uma espécie de purificação semântica do termo e expondo progressivamente sua natureza, mas o problema central ultrapassa a simples correspondência linguística entre nomes e coisas e desemboca na questão ontológica da negação.

15. A demonstração da possibilidade da falsidade exige reinterpretar o não-ser e ultrapassar a dicotomia parmenidiana rígida entre realidade e não-realidade mediante uma terceira região constituída pelas imagens, eídōla, razão pela qual a questão do Sofista permanece fundamentalmente relacionada à existência.

16. A superação das teorias que definem o ser pela oposição fundamental entre movimento e repouso leva o Estrangeiro a afirmar que o ser é diferente de ambos, embora tanto movimento quanto repouso participem do ser, estabelecendo uma estrutura de combinação seletiva entre os gêneros.

17. A teoria eleática da negação é desmontada mediante a articulação entre mesmidade, alteridade e participação, pois o não-ser deixa de significar o oposto do ser ou aquilo que absolutamente não é e passa a indicar a parte da natureza do Outro que se contrapõe a determinada determinação positiva.

18. A explicação platônica da negação mediante a divisão da alteridade não pretende reduzir toda negação a essa divisão, mas tornar inteligível sua estrutura através dela.

19. A distinção entre contrariedade polar e alteridade torna-se clara quando se comparam os pares tradicionais de contrários empregados nos diálogos — seco/úmido, frio/quente, amargo/doce, agudo/obtuso, velho/jovem, grande/pequeno — com a análise tardia segundo a qual as negativas constituem partes da natureza do héteron tão plenamente existentes quanto suas contrapartes positivas.

20. O não-ser não significa aquilo que se opõe absolutamente ao ser, mas aquilo que é outro em relação ao ser, de modo que a natureza da alteridade pode encontrar-se entre os entes sem constituir o contrário da natureza do ser.

21. A sétima definição do sofista como produtor de imagens exige enfrentar diretamente a symplokē entre ser e não-ser, pois a imagem não é a coisa verdadeira que representa e, no entanto, existe como imagem.

22. O phántasma e a opinião falsa aprofundam a dificuldade porque a falsidade pode tomar aquilo que não é como se fosse e aquilo que plenamente é como se não fosse, mostrando que o engano lógico depende de uma relação complexa entre ser e não-ser.

23. A identificação explícita do “não-ser” com o “outro em relação ao ser” permite afirmar que todas as Formas são simultaneamente seres e não-seres em sentidos distintos, pois cada uma é ao participar do ser e não é relativamente ao próprio ser porque a diferença a torna outra.

24. Contra a tese sofística da impossibilidade da falsidade, o juízo falso é compreendido como uma espécie de “julgar-outro”, allodoxía, em que um ente é substituído mentalmente por outro, fazendo surgir falso lógos e falsa dóxa mediante a conexão discursiva com o não-ser.

25. A evolução da teoria platônica das antíteses desloca a oposição entre objetos sensíveis e Formas, pois, enquanto os particulares sempre puderam instanciar propriedades contrárias, os diálogos anteriores tendiam a impedir que Formas contrárias se combinassem, ao passo que o Sofista passa a definir a própria realidade das Formas também por sua capacidade seletiva de comunhão.

26. A symplokē designa diretamente a situação ontológica da mistura entre Formas, pela qual múltiplos sujeitos lógicos são unos enquanto participam do ser e múltiplos enquanto participam simultaneamente de outras Formas máximas.

27. A etapa inicial da symplokē eidōn demonstra que cada Forma participa do ser e, ao mesmo tempo, torna-se múltipla mediante suas relações com os demais gêneros máximos, fazendo da identidade e da diferença dimensões simultâneas da constituição ontológica.

28. A formulação de Sofista 259e4–6 segundo a qual o discurso existe graças ao entrelaçamento recíproco das Formas explicita a conexão essencial entre ontologia, negação e possibilidade do lógos.

29. A investigação da symplokē conduz diretamente às questões do ser do não-ser (Sein des Nichtseienden) e da existência do engano e do erro (die Existenz des Truges und des Irrtums), ambas personificadas pelo sofista e indispensáveis para que sua atividade possa ser ontologicamente compreendida.

** III. Conclusão **

30. A concepção revolucionária de ser apresentada pelo Estrangeiro pode marcar uma transformação do pensamento platônico que desloca a filosofia da predominância da refutação socrática para uma metafísica na qual os entes são determinados por combinações específicas de Formas.

31. Após o Parmênides, a investigação metafísica platônica tende a deslocar-se de uma teoria das Formas concebidas isoladamente para uma consideração mais geral da individuação como dependente de relações privilegiadas, entre as quais ser, ser um, ser o mesmo, ser diferente e poder possuir propriedades.

32. A posição dramática do Estrangeiro de Eleia impede, contudo, sua identificação imediata com a voz do próprio Platão, pois ele pertence à tradição de Parmênides e Zenão ao mesmo tempo que formula teses profundamente antieleáticas, enquanto Sócrates permanece silencioso e Parmênides está ausente.