Sofista e filósofo

DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.

** Heidegger: sofista e filósofo **

** I. **

1. As Preleções sobre o Sofista de Platão exigem, para a interpretação dos diálogos tardios de Platão, uma dupla preparação constituída por uma orientação filosófico-fenomenológica e por uma orientação historiográfico-hermenêutica.

2. Os diálogos tardios de Platão confrontam conceitos fundamentais como ser e não-ser, verdade e aparência, conhecimento e opinião, conceito e asserção, valor e não-valor, cuja adequada orientação requer o método fenomenológico entendido não como aquisição livresca de doutrinas estabelecidas, mas como colocação efetiva na posição de ver fenomenologicamente durante o próprio trabalho de discussão da coisa em questão.

3. A preparação historiográfico-hermenêutica deve tornar possível apreender corretamente o passado encontrado em Platão sem projetar sobre ele perspectivas arbitrárias, razão pela qual se inverte o percurso habitual que vai de Sócrates e dos pré-socráticos a Platão e se parte de Aristóteles em direção retrospectiva a Platão, tomando Aristóteles como fio condutor (Leitfaden) por ter formulado mais radicalmente e desenvolvido mais cientificamente aquilo que recebera de seu predecessor.

4. Se Aristóteles fornece o fio condutor (Leitfaden) para compreender Platão, a ausência de um pensador posterior que tivesse desenvolvido Aristóteles de maneira ainda mais radical obriga a penetrar diretamente em sua obra para encontrar uma orientação, embora o verdadeiro fio condutor das preleções pareça residir no próprio pensamento heideggeriano então em formação, posteriormente desenvolvido de maneira plena na ontologia fundamental de Ser e tempo (Sein und Zeit).

** II. **

5. O ser dos entes constitui o tema fundamental da filosofia aristotélica e o desvelar verdadeiro, aletheúein, fornece seu ponto de partida, devendo essa articulação funcionar como fio condutor (Leitfaden) para a interpretação de Aristóteles.

6. Nas considerações preliminares, a compreensão grega do aletheúein é reconstruída a partir da determinação do falar como constituição fundamental do ser-aí humano (Dasein), da compreensão aristotélica do légein como aletheúein e da verdade como retirada do encobrimento, num mundo que inicialmente e na maior parte das vezes permanece fechado à descoberta.

7. Na parte introdutória dedicada extensamente a Aristóteles, mesmo a sophía, enquanto modalidade suprema do aletheúein, permanece condicionada pela estrutura do algo-como-algo e, portanto, pelo falar, pois o légein explicita aquilo que já se encontra previamente apreendido ao articular um ente segundo determinada propriedade e, justamente por essa estrutura sintética, torna possível também a falsidade.

8. A sophía constitui a possibilidade genuína do ser-aí (Dasein), correspondente à existência do homem científico, mas permanece vinculada ao lógos, assim como epistéme e phrónesis, enquanto somente um noûs puro poderia apreender diretamente o absolutamente simples sem mediação discursiva, possibilidade que não pertence ao modo humano de ser.

9. O ser humano encontra-se num mundo inicialmente encoberto e procura descobri-lo mediante o falar, sua determinação fundamental, embora o lógos possa tanto desvelar quanto encobrir e, em sua facticidade originária, tenda primeiramente ao falatório vazio que se satisfaz com aquilo que já se diz em vez de deixar as coisas aparecerem.

10. Na seção de transição, a tentativa aristotélica de ultrapassar o lógos em direção a um noeîn livre do légein permanece incompleta, porque a própria sophía determina a ousía como aquilo que já está previamente presente e disponível, revelando que o caráter fundamental do ser enquanto presença (Anwesenheit) é extraído do horizonte do próprio lógos.

11. O lógos constitui, portanto, o fio condutor (Leitfaden) aristotélico para a determinação do ser dos entes e deve, nessa mesma função, orientar a interpretação heideggeriana de Platão.

** III. **

12. A complexidade da interpretação platônica desenvolvida nas Preleções sobre o Sofista pode ser concentrada em três consequências principais da leitura heideggeriana de Aristóteles, referentes à oposição entre existência genuína e não genuína, à função da dialética e à determinação temporal do ser como presença.

13. A existência genuína pertence ao filósofo, enquanto a existência não genuína caracteriza a multidão e o sofista, pois a dialética consiste num atravessamento discursivo (Durchsprechen) que parte daquilo que ordinariamente se diz, atravessa-o criticamente e procura chegar a um lógos genuíno capaz de expressar efetivamente a coisa em questão.

14. A dialética possui, enquanto forma de discurso, uma tendência interna para o ver (Sehen) e o descobrir (Aufdecken), mas permanece ainda no légein e, por isso, não alcança de maneira pura e simples o desvelamento dos entes, embora desempenhe a função indispensável de romper o falatório, conter a tagarelice e fazer aparecer inicialmente aquilo que está verdadeiramente em questão.

15. O fenômeno do tempo, especificamente a presença, determina os entes em seu ser porque o lógos constitui também em Platão o núcleo a partir do qual o ser é compreendido, de modo que falar enquanto desvelamento discursivo significa tornar presente aquilo que propriamente se mostra no ente e, assim, presentificar o próprio ente em sua essência.

16. Embora a filosofia nos diálogos platônicos costume surgir da preocupação com aspectos concretos da vida humana, mediante o procedimento socrático de partir do que ordinariamente se diz e atravessá-lo em busca de conhecimento sólido, a reconstrução heideggeriana que contrapõe uma existência genuína de Sócrates a uma existência não genuína de seus concidadãos encontra apoio textual limitado e tende a subordinar a transcendência das Formas ao horizonte da vida fática humana.

** IV. **

17. A reconstrução heideggeriana estabelece como tema de Aristóteles o ser dos entes e como ponto de partida o aletheúein, mas, como o desvelamento humano não ultrapassa inteiramente o falar, o ser acaba determinado como presença a partir do horizonte do lógos e, portanto, do ser-aí (Dasein), estrutura que aparece mais claramente em Aristóteles e deve orientar retrospectivamente a leitura de Platão.

18. Entre os eixos fundamentais de Ser e tempo (Sein und Zeit) encontram-se a constituição ontológica do ser-aí (Dasein), responsável por uma compreensão determinada do ser, a distinção entre existência autêntica e inautêntica e a presença de uma estrutura originária do como no próprio compreender.

19. A constituição ontológica do ser-aí (Dasein) articula-se mediante existenciais (Existenzialien) como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), ser-com (Mitsein), compreensão (Verstehen), discurso (Rede) e cuidado (Sorge), que formam o horizonte transcendental a partir do qual se constitui uma compreensão do ser (Seinsverständnis) projetada sobre o mundo e determinante do modo de ser em que os entes podem aparecer.

20. O ser-com (Mitsein) constitui originariamente a existência humana em comunhão com outros, inclusive quando alguém vive sozinho, de maneira que a vida comunitária não produz o ser-com, mas é possível porque a existência já possui essa estrutura ontológica.

21. A compreensão (Verstehen) constitui um modo fundamental de ser do ser-aí (Dasein) e possui originariamente a estrutura de algo como algo, pois o ser humano nunca se apresenta como sujeito puro diante de objetos puros, mas já compreende os entes circundantes a partir de sua vida fática, sendo necessário distinguir esse como existencial-hermenêutico originário do como apofântico próprio da asserção.

** V. **

22. Os três grandes eixos posteriormente sistematizados em Ser e tempo (Sein und Zeit) já se encontram, de forma menos articulada, nas Preleções sobre o Sofista: a determinação do ser a partir do ser-aí (Dasein), a oposição entre existência genuína e não genuína e a estrutura do como.

23. As Preleções sobre o Sofista, ministradas em 1924–1925 durante o período de gestação da ontologia fundamental que culminaria em Ser e tempo (Sein und Zeit), não devem ser simplesmente identificadas a mais um rascunho da obra de 1927, mas constituem uma marca de caminho (Wegmarke) decisiva de sua gênese.

24. A convicção retrospectiva de que Aristóteles conduziu Heidegger à fenomenologia posteriormente articulada em Ser e tempo permite compreender a inversão hermenêutica pela qual o próprio Heidegger passa a ocupar, implicitamente, a posição daquele que teria apreendido mais radicalmente aquilo que Aristóteles já apreendera de Platão, fazendo sua interpretação penetrar no pensamento platônico a partir de estruturas pertencentes à própria ontologia fundamental.

25. A hipótese de que Platão pretendia completar a sequência Teeteto, Sofista e Político com um diálogo denominado Filósofo torna significativa a afirmação heideggeriana de que tal obra seria desnecessária, porque no Sofista o filósofo já se manifesta indiretamente pela exposição do que é o sofista, não mediante uma definição do que se deveria fazer para tornar-se filósofo, mas mediante a própria realização concreta do filosofar.

26. Ainda que a leitura heideggeriana de Platão não corresponda estritamente ao que os diálogos platônicos efetivamente afirmam, sua importância filosófica não se reduz à fidelidade historiográfica, pois nela se realiza um filosofar próprio que ultrapassa os autores interpretados, confronta diretamente as grandes questões e abre um caminho independente através delas, podendo essa prática constituir a mais valiosa tendência imanente das Preleções sobre o Sofista.