Dunkelheit
** b) Phainomenon como aquilo que se mostra de si mesmo (das Sichzeigende), seja na luz do dia, seja na escuridão **
1. O conceito de phainomenon não se restringe à presença das coisas durante o dia, abrangendo de modo mais amplo tudo aquilo que se mostra de si mesmo, seja na luz do dia, seja na escuridão.
2. A determinação do que seja a escuridão não é tão simples quanto pareceria a uma argumentação superficial, pois, se a luz do dia (diaphanés) é aquilo que deixa as coisas serem vistas e a escuridão (adiaphanés) aquilo que não as deixa, a própria escuridão também deixa ver algo, havendo coisas visíveis somente na escuridão.
3. A diferença entre a escuridão e a luz do dia só pode ser compreendida a partir de uma distinção fundamental da filosofia aristotélica, a saber, entre o ente em ato (entelécheia) e o ente em potência (dynámei on), sendo a escuridão um dynámei on, algo inteiramente positivo, o que torna equivocado, frente a Aristóteles, afirmar simplesmente que a escuridão é aquilo que não deixa ver, pois a escuridão também deixa ver.
4. Os conceitos fundamentais da filosofia (Grundbegriffe), tal como percorrem seu curso no desenvolvimento histórico, não constituem propriedade ou posse da filosofia que se possa manter à margem desse desenvolvimento, tornando-se antes um destino funesto (Verhängnis) na medida em que a consideração e a interpretação do ente em sua totalidade permanecem perpassadas por conceitos reduzidos a mera posse de palavras, o que assinala o grande perigo de se filosofar hoje em palavras e não sobre as coisas mesmas.
5. Phainomenon e lógos exprimem um dado de fato (Sachverhalt), tornando-se somente mais adiante inteligíveis os motivos, na própria existência, pelos quais phainomenon pode assumir o sentido de “aparência”, assim como se tornará compreensível de que modo uma filosofia tornada superficial e que desliza em palavras apreende os entes existentes como “aparência de algo”, não possuindo Aristóteles uma metafísica tão ingênua, razão pela qual toda tentativa atual de criticar a fenomenologia com a palavra “aparência” em mãos constitui empreendimento infundado contra o qual só cabe protestar.
6. Phainomenon é aquilo que se mostra de si mesmo como existente, sendo encontrado pela vida na medida em que esta se relaciona com seu mundo de tal modo que o vê, que o percebe justamente na aísthesis, distinguindo-se os ídia aisthetá, percebidos em sentido estrito, daquilo que é percebido katá symbebekós, isto é, imediatamente, de tal modo que algo mais já está desde o início dado junto, sendo somente assim possível ver casas, árvores, seres humanos.
7. O caráter primordial do ver em Aristóteles evidencia-se no fato de ele não se deixar desorientar pela falta de um nome abrangente para as coisas que somente a noite deixa ver, como os vaga-lumes, importando-lhe apenas que essas coisas estão aí, que são vistas e que, com base em seu conteúdo factual, reivindicam ser tomadas como existentes.
8. A expressão pará tá phainómena (além dos fenômenos), recorrente em Aristóteles, evidencia o caráter próprio da pretensão (Anspruch) que phainomenon comporta e daquilo que nele é apreendido, de sorte que, quando se trata explicitamente de apreender o ente, de retê-lo, de assegurar o que se mostra em si mesmo, permanece-se no âmbito da ciência, contexto em que o sentido de phainomenon culmina naquilo que se mostra em si mesmo com a pretensão explícita de servir de fundamento a todo questionamento e explicitação ulteriores, cabendo à ciência sózein tá phainómena, salvar os fenômenos, pelo que aquilo que se mostra em si mesmo é alçado a uma posição fundamental.