§34

** § 34. A determinação cartesiana do modo de ser do conhecer como julgar, contra o horizonte do ser como creatum esse **

1. Não é possível mostrar aqui como a ontologia grega e as questões específicas com ela dadas foram reconfiguradas pela Idade Média, sendo necessário, para isso, considerar toda a esfera da influência da investigação teológica e sua influência sobre a filosofia.

2. Com a interpretação realizada, forjou-se o fundamento para a discussão ulterior, com a ressalva de que, para uma investigação radical, a interpretação da filosofia aristotélica se torna decisiva, decisiva a fim de subir ao nível da tarefa que nos concerne, a questão do modo de ser do conhecer, e fazê-lo a partir de contextos concretos.

3. Reuniram-se até aqui duas coisas: 1. aquilo com que se ocupa em geral o cuidado do conhecer foi determinado ao se estabelecer o sentido do ser do verum, tendo o cuidado colocado o verdadeiro em seu cuidado, a compreensão da verdade, o seguimento da verdade (Wahrheitsbefolgung), sendo, na medida em que o verum é discutido com respeito ao seu esse, o objeto do cuidado, aquilo de que ele se ocupa fixado quanto ao seu sentido de ser.

4. Será preciso perguntar como, diante desse horizonte, Descartes determina mais exatamente o ser da cognitio, do conhecer, sendo necessário tornar inteligível por que, precisamente no caso de Descartes, o conhecimento é concebido com a ênfase nele como julgamento, como judicare.

5. Coloca-se a questão de saber, quanto ao ser assim desvelado do cogitare, em que sentido o cuidado do conhecer, ao modo de realização do judicare, é desveladora.

6. Ressalta-se que, por meio das duas interpretações, a de Descartes e a de Tomás, obteve-se a determinação de ser do creatum esse e, com este, o verum, isto é, aquilo de que se ocupa o cuidado, apresentando-se, com o creatum esse, o ser da cogitatio e, com ele, o intelligere, o próprio ser do conhecer.

7. Tendo em vista o creare como o fundamento estabelecido do ser, Descartes afirma voltar sua atenção não apenas à ideia real e positiva de Deus, ou do ente supremamente perfeito, mas ao mesmo tempo à ideia do nada, ou daquilo que está mais afastado de toda perfeição, vendo esse duplo ser, o ens summe perfectum e o nihil, na medida em que se apreende como algo.

8. A razão pela qual o sentido do seguimento da verdade se dirige à assecutio veritatis reside no mesmo traço da determinação do ser do homem por sua genuinidade na voluntas.

9. Será necessário mostrar, além disso, como, sobre o mesmo fundamento de ser como esse creatum e a determinação do intelligere como judicium com ele dada, também está pré-figurada a concepção do regimento.

10. Esse tipo de trabalho preparatório e esse processo de introduzir-se na própria investigação não podem ser realizados pela via da argumentação geral, mas antes dando-se passos com base em uma compreensão das próprias matérias, de tal modo que fique assegurada uma apropriação efetiva delas.