ENTREVISTA WISSER

Resumo da entrevista concedida por Martin Heidegger ao Professor Richard Wisser

  1. Identifica-se a entrevista como texto integral concedido a Richard Wisser em 24 de setembro de 1969, transmitida pelo canal 2 da televisão alemã por ocasião do octogésimo aniversário de Heidegger.
  1. Questiona-se a posição heideggeriana diante da crescente insistência contemporânea em situar a transformação das relações sociais como único ponto de partida para um futuro promissor, e sobre o “espírito do tempo” relativo à reforma universitária, ao que Heidegger propõe responder apenas à segunda parte, remetendo à sua aula inaugural de 1929, “O que é Metafísica?”, segundo a qual os domínios das ciências permanecem afastados entre si, coesos apenas pela organização técnica da universidade, tendo perdido o enraizamento em seu fundamento essencial.
  1. Debate-se a exigência de transformação do mundo a partir da sentença das Teses sobre Feuerbach de Marx (“os filósofos somente interpretaram o mundo de maneiras diferentes; trata-se de transformá-lo”), com Heidegger observando que tal exigência pressupõe uma mudança da representação do mundo, a qual depende de uma interpretação prévia do mundo, revelando que a sentença marxista é, ela mesma, não fundamentada e tacitamente pressupõe a filosofia que rejeita.
  1. Pergunta-se se há uma missão social para a filosofia, e o modo como o pensamento heideggeriano poderia agir perante uma sociedade concreta com seus múltiplos encargos, angústias e esperanças, cotejando-se a acusação de que o pensamento do Ser sacrificaria a condição humana e o ser do homem em sociedade.
    • Heidegger nega existir uma missão social nesse sentido, remetendo à necessidade prévia de perguntar “o que é a sociedade”, observando que a sociedade atual é apenas a absolutização da subjetividade moderna.
    • Qualifica de grande mal-entendido a crítica de que sacrificaria a condição humana, afirmando que a questão do Ser pressupõe uma interpretação do ser-aí (Dasein), pois o Ser precisa do homem e o homem só é homem na abertura (Offenbarkeit) do Ser.
  1. Retoma-se a questão de saber em que medida o pensamento heideggeriano se ocuparia apenas do Ser, esquecendo-se do homem, negando Heidegger essa possibilidade, pois não se pode pôr a questão do Ser sem pôr a da essência do homem.
  1. Evoca-se a definição nietzschiana do filósofo como “má-consciência de seu tempo”, sugerindo-se, a partir da leitura heideggeriana da história filosófica como declínio do Ser, que se poderia chamar Heidegger de “má-consciência da filosofia ocidental”.
  1. Pergunta-se em que consiste o sinal mais característico do “esquecimento do Ser” (Seinsvergessenheit) e do “abandono do Ser”.
    • Heidegger corrige a expressão “história do declínio”, esclarecendo não empregá-la em sentido negativo, mas referindo-se ao destino (Geschick) do Ser à medida que este se retira progressivamente desde sua manifestação entre os gregos até tornar-se simples fundo de reserva (Bestand) para a dominação técnica, constituindo antes uma retração do Ser que uma história do declínio.
    • Aponta o sinal mais característico do esquecimento no fato de que o destino atual, tal como pode ser percebido, consiste em que a questão do Ser por ele formulada ainda não tenha sido compreendida.
  1. Destacam-se dois temas problemáticos recorrentes no pensamento heideggeriano: a pretensão da ciência à dominação e a concepção da técnica como simples meio útil, perguntando-se o que significa a afirmação de que “a ciência não pensa”.
    • Heidegger valoriza positivamente os “quebra-cabeças” gerados por essa afirmação, atribuindo sua escassez atual ao próprio esquecimento do Ser.
    • Esclarece que a sentença significa que a ciência não se move na dimensão da filosofia, embora nela se enraíze sem sabê-lo, exemplificando com a física, que não pode, por seus métodos, pensar filosoficamente o que é o movimento, o espaço ou o tempo.
  1. Pergunta-se o que significa afirmar que, para a humanidade, maior que o perigo da bomba atômica seria o conjunto das leis (Ge-Setz) de que a técnica dispõe, seu “dispositivo” (Ge-Stell), traço fundamental da técnica que desvela o real como fundo de reserva, como em uma encomenda que convoca tudo e todos como se se apertasse um botão.
    • Heidegger define a essência da técnica afirmando que as modernas ciências da natureza se fundam no desenvolvimento da essência da técnica, e não o contrário, negando ser contrário à técnica ou atribuir-lhe caráter “demoníaco”.
    • Refere-se ao desenvolvimento da biofísica e à possibilidade técnica futura de fabricar o próprio homem em sua essência orgânica, tema já tratado em conferência pronunciada em Messkirch.
  1. Reafirma-se a necessidade de evitar o mal-entendido de que seria contrário à técnica, esclarecendo que, em sua essência, o homem é posto sob o domínio de uma potência que o leva a relevar seus desafios sem permanecer livre, anunciando-se aí uma relação entre o Ser e o homem, dissimulada na essência da técnica, passível de desvelar-se com clareza.
  1. Considera-se, na essência da técnica, a primeira aparição de um segredo mais profundo denominado Ereignis, do que se deduz não se tratar de resistência ou condenação à técnica, mas de compreensão de sua essência e do mundo técnico, o que não pode ser feito enquanto o pensamento permanecer no plano da relação sujeito-objeto, nem a partir do marxismo.
  1. Observa-se que todas as reflexões heideggerianas desembocam na questão fundamental de sua filosofia, a questão do Ser, sobre a qual reiteradamente afirmou não pretender acrescentar nova tese às numerosas já existentes, remetendo-se à sua aula inaugural de 1929, perguntando-se em que direção se orienta, em seu pensamento, a resposta à questão de por que há o ente e não antes o nada.
    • Heidegger distingue dois sentidos da “questão do Ser”: primeiramente, a questão do ente como ente, cuja resposta dá a definição do Ser; em segundo lugar, a questão sobre o que se funda o desvelamento (Unverborgenheit) do Ser em geral, exemplificada pela definição grega do Ser como presença (Anwesenheit), vinculada à noção de atualidade (Gegenwart) e, portanto, ao tempo.
  1. Prossegue-se a explicação: ao tentar determinar a presença a partir do tempo, constata-se que, desde Aristóteles, a essência do tempo é determinada a partir de um Ser já determinado, tornando inutilizável o conceito tradicional de tempo, razão pela qual em Ser e Tempo buscou-se desenvolver novo conceito de tempo e de temporalidade no sentido da abertura ek-stática (ekstatische Offenheit).
    • A outra questão, já formulada por Leibniz e retomada por Schelling, repetida ao final da conferência “O que é Metafísica?”, indaga por que o ente é e não antes o nada; Heidegger reformula-a como questão sobre por que o ente tem prioridade e por que o nada não é pensado como idêntico ao Ser, distinguindo-a da questão meramente metafísica sobre a essência da metafísica.
  1. Observa-se que tais questões são extremamente difíceis e inacessíveis à compreensão comum, exigindo longa experiência e confrontação com a grande tradição, sendo um dos maiores perigos do pensamento atual sua falta de relação verdadeiramente originária com essa tradição.
  1. Esclarece-se que o que importa, para Heidegger, é a desconstrução da subjetividade, e não as noções de “Antropológico” e “Antropocêntrico” que pressupõem que o homem já apreendeu, no conhecimento de si mesmo, sua própria essência, convidando-se antes à experiência do ser-aí (Dasein), na qual o homem se reconhece como essência aberta ao Ser e este se oferece como desvelamento (Unverborgenheit), sendo toda sua obra consagrada a demonstrar a necessidade dessa transformação.
  1. Pergunta-se se há indícios de que esse pensamento, considerado necessário, venha a se tornar realidade.
    • Heidegger declara que ninguém sabe qual será o destino do pensamento, referindo-se a uma conferência de 1964, lida em tradução francesa em Paris, na qual tratou do “fim da filosofia e a tarefa do pensamento”, distinguindo aí filosofia (metafísica) de pensamento tal como o entende.
    • Esclarece que esse pensamento, distinto da filosofia sobretudo ao esclarecer a essência da aletheia grega, é mais simples que a filosofia em sua relação com a metafísica, mas, precisamente por sua simplicidade, mais difícil de realizar-se, exigindo novo cuidado com a linguagem e não a invenção de termos novos, mas antes um retorno ao conteúdo originário da linguagem, vítima de contínuo perecimento.
  1. Conclui-se com a evocação de um pensador futuro que deverá assumir efetivamente esse pensamento a ser preparado, ao qual se aplicaria uma palavra de Heinrich von Kleist: apagar-se diante de alguém que ainda não está presente, inclinando-se, a um milênio de distância, perante seu espírito.
  1. Registra-se a tradução de Antonio Abranches, a partir da versão francesa revista e corrigida por Michel Haar, realizada pelo Serviço Linguístico do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Federal da Alemanha.