Apresentação de Sheehan e Kisiel (BH), seguida de resumo de 18. A pesquisa de Wilhelm Dilthey e a luta atual por uma visão histórica de mundo
1. No início do século XX, Kassel era uma cidade industrial sem universidade situada entre Marburgo e Göttingen, circunstância que levou à criação, em 1912, de uma Sociedade de Arte e Ciência destinada a promover cursos e conferências de professores universitários visitantes para atender aos interesses intelectuais do público culto, contexto no qual, após Georg Simmel e Franz Rosenzweig, Martin Heidegger foi convidado por Johannes Boehlau para ministrar um minicurso cujo título inicialmente proposto foi “Dasein histórico e conhecimento historiológico: introdução às pesquisas de Wilhelm Dilthey”.
2. O título inicialmente escolhido para as conferências de Kassel evidencia simultaneamente a intenção de Heidegger de desenvolver, a partir da correspondência entre Dilthey e Yorck, suas próprias investigações sobre tempo e história, que conduziriam ao ensaio “O conceito de tempo” e constituiriam uma etapa decisiva rumo a Ser e tempo, e a primeira formulação rigorosa da distinção entre história vivida (Geschichte) e história enquanto conhecimento objetivado e historiográfico (Historie).
3. A distinção entre história vivida (Geschichte) e história objetivamente conhecida (Historie) encontra seu núcleo na formulação de Yorck von Wartenburg segundo a qual “nós mesmos somos história” (Wir selbst sind Geschichte), princípio já incorporado por Heidegger em trabalhos anteriores e decisivo para a compreensão da historicidade do próprio existir humano.
4. As conferências de Kassel ocupam uma posição intermediária entre dois momentos fundamentais da gênese de Ser e tempo, retomando, de um lado, os problemas da crise das ciências e da história presentes em “O conceito de tempo” e, de outro, os desenvolvimentos fenomenológicos do curso “História do conceito de tempo”, nos quais se radicalizam a questão do ser (Sein), a análise da cotidianidade e a compreensão existencial da morte.
5. A importância das conferências de Kassel não reside apenas em seu papel conceitual na formação da ontologia temporal de Ser e tempo, mas também na tentativa de transpor investigações filosóficas altamente especializadas para os problemas científicos, culturais e históricos de um público alemão ainda marcado pela Primeira Guerra Mundial e pela crise intelectual do pós-guerra.
** A pesquisa de Wilhelm Dilthey e a luta atual por uma visão histórica de mundo **
** Comunicado no Kasseler Post, 15 de abril de 1925 **
6. A questão filosófica fundamental da existência espiritual contemporânea (Dasein) consiste em determinar o sentido e a possibilidade de uma existência histórica (Existenz) do ser humano e de sua cultura, pois, desde o século XVIII, a abertura do mundo histórico pelas ciências históricas transformou progressivamente a pergunta “o que é o ser humano?” na pergunta pela possibilidade de um Dasein histórico (geschichtliches Dasein) e, consequentemente, pela essência da história.
7. A história passou a ocupar o lugar anteriormente reservado à natureza como fundamento da reflexão sobre as visões de mundo, mas a consciência da relatividade histórica das culturas, radicalizada por Oswald Spengler, pode produzir resignação, ceticismo e fuga para dogmas, culturas passadas, sabedorias exóticas ou ocultismo, de modo que somente uma meditação científica sobre o sentido (Besinnung) da essência da história pode conduzir a uma decisão efetiva acerca do significado do Dasein histórico (geschichtliches Dasein).
8. A importância filosófica de Dilthey ultrapassa suas obras mais conhecidas, como Vivência e poesia e Vida de Schleiermacher, pois sua produção dispersa em revistas e publicações acadêmicas orienta-se fundamentalmente pelo problema da história e permite perguntar criticamente até que ponto a essência da história foi radicalmente interrogada, questão que conduz da investigação diltheyana à fenomenologia e, finalmente, da essência da história à essência do tempo.
9. A introdução à filosofia científica contemporânea não deve limitar-se ao conhecimento de nomes, escolas ou tendências, mas deve possibilitar uma relação efetiva com as próprias questões e com as coisas interrogadas.
** I **
10. O problema aparentemente abstrato da visão histórica de mundo contém a questão fundamental do sentido da vida humana, pois perguntar pela realidade implica inevitavelmente perguntar pelo ser do próprio ser humano, e a posição central ocupada por Dilthey nessa investigação coincide com uma transformação profunda da maneira de formular os problemas filosóficos e com uma crise produtiva que atravessa todas as ciências.
11. A investigação deve inicialmente esclarecer o significado de “visão histórica de mundo” (historische Weltanschauung), o sentido da “luta” por tal visão e a relação específica da pesquisa de Dilthey com essas questões.
12. O tratamento das conferências exige, portanto, uma determinação preliminar do tema, do modo de abordagem e da articulação interna das investigações subsequentes.
** Visão histórica de mundo **
13. Uma visão de mundo não consiste simplesmente em uma representação teórica da natureza, mas em um saber acerca da vida e do próprio ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) que orienta objetivos, regula a ação e constitui uma posição prática relativamente estável diante do mundo e da existência.
14. Uma visão histórica de mundo surge quando o conhecimento histórico determina a interpretação do mundo e do Dasein (Dasein), de modo que a história (Geschichte) deixa de ser apenas algo conhecido e passa a penetrar a consciência como realidade constitutiva da própria existência, tornando possível compreender o presente como situação proveniente do passado e simultaneamente aberta às decisões do futuro.
15. Na visão histórica de mundo, o conhecimento histórico (geschichtliches Wissen) torna-se princípio de compreensão da totalidade dos assuntos humanos e transforma a história em história universal, permitindo perguntar pelo sentido da história e pelos fins da existência (Existenz) que podem ser extraídos de sua orientação para o futuro.
16. O período entre 1780 e 1840 liberou forças intelectuais extraordinárias, mas, após o colapso da filosofia hegeliana, a reflexão sobre o sentido (Besinnung) da realidade histórica enfraqueceu, enquanto as ciências naturais reassumiram a liderança na formação das visões de mundo e o retorno neokantiano a Kant reduziu progressivamente a filosofia à epistemologia e à teoria da ciência.
17. O desenvolvimento independente das ciências históricas tornou insuficiente uma teoria filosófica modelada exclusivamente pelas ciências naturais, e a crescente investigação histórica concreta deslocou o problema dos fundamentos formais para o problema mais radical dos fundamentos materiais do próprio ser-histórico (Geschichtlichsein).
18. A filosofia moderna da história recebeu impulsos decisivos de Dilthey, embora tenha compreendido insuficientemente a direção própria de seu pensamento e contribuído para que sua problemática mais profunda permanecesse encoberta.
19. A luta por uma visão histórica de mundo não consiste primordialmente em disputar diferentes imagens históricas do mundo, mas em esclarecer o próprio sentido do ser-histórico (Geschichtlichsein), tarefa que exige tornar transparente a condição humana e determinar qual realidade é histórica em sentido próprio e o que significa propriamente “histórico” (geschichtlich).
20. A retomada crítica das questões de Dilthey, apoiada na fenomenologia, conduz à determinação do Dasein humano (menschliches Dasein) como realidade propriamente histórica e do tempo como sua determinação fundamental, de modo que a historicidade (Geschichtlichkeit) deve ser compreendida a partir da temporalidade constitutiva da existência.
21. A finalidade dessa investigação consiste em instaurar uma relação efetiva com as próprias coisas e despertar a consciência para o trabalho produtivo realizado silenciosamente pelas ciências modernas, cuja seriedade oferece um contraponto à resignação cultural.
** II **
22. A significação filosófica da vida de Dilthey encontra-se menos em acontecimentos biográficos exteriores do que na vida interior expressa em suas questões e obras, razão pela qual sua trajetória deve ser considerada a partir de sua biografia, de seu mundo intelectual e espiritual, das forças decisivas que atuaram sobre sua formação e da produção que delas resultou.
23. Nascido em 1833, filho de pastor, Dilthey estudou inicialmente teologia e posteriormente filosofia e ciências históricas, tornou-se professor em Basileia, Breslau e Berlim, integrou a Academia de Ciências e, embora sua trajetória exterior fosse relativamente tranquila, sua vida intelectual foi marcada por amizades filosóficas intensas e pela dificuldade constante de concluir e publicar seus trabalhos.
24. O mundo intelectual e espiritual constituiu para Dilthey a forma própria de existência, e sua formação teológica inicial proporcionou horizontes fundamentais para a abertura ao Dasein (Dasein), à história do cristianismo e à vida humana, mesmo quando sua opção pelo conhecimento e pela imanência deste mundo (Diesseitigkeit) o afastou de qualquer encerramento dogmático.
25. O afastamento progressivo da teologia permite compreender a relação de Dilthey com três forças históricas decisivas de seu tempo: o positivismo, a escola histórica e a filosofia de Kant mediada pela influência de Schleiermacher.
26. Do positivismo francês, Dilthey acolheu a crítica à metafísica, a exigência de conhecimento científico e a orientação para a imanência, mas rejeitou a redução do espírito à natureza, procurando preservar a especificidade do mundo espiritual e adotando como princípio cognoscitivo a determinação das coisas (Sachen) a partir delas mesmas.
27. Da escola histórica, Dilthey assimilou a capacidade de pensar historicamente e de experimentar a força viva do passado espiritual, experiência que lhe permitiu transformar o próprio mundo da história no fundamento da pergunta radical pela historicidade.
28. A aproximação de Dilthey com Kant decorreu da pergunta pela essência do conhecimento, mas, sob a influência de Schleiermacher, o conhecimento foi situado no contexto da totalidade da vida, tornando decisiva não a adesão ao neokantismo, mas a tentativa de compreender integralmente a situação humana e permitindo inclusive reconhecer a importância positiva de Hegel antes do surgimento do neo-hegelianismo.
29. A abertura de Dilthey a tudo aquilo que possuía conteúdo efetivo e sua rejeição de pensamentos vazios afastados das próprias coisas permitiram renovar uma problemática fundamental, embora a recepção inicial de sua obra tenha sido limitada e frequentemente deformada por interpretações formalistas como as de Windelband e Rickert.
** III **
30. A compreensão das obras fragmentárias de Dilthey depende da explicitação de sua questão fundamental, razão pela qual a sequência histórica de sua produção deve ser considerada a partir do problema que confere unidade às diferentes investigações.
31. Desde os primeiros trabalhos sobre a ética e a hermenêutica de Schleiermacher, as investigações de Dilthey dirigem-se não a uma problemática meramente teórica, mas à situação prática do ser humano, ao entendimento histórico (geschichtliches Verstehen), à interpretação dos textos e à compreensão concreta dos indivíduos históricos em seu núcleo espiritual.
32. A Introdução às ciências humanas procura fundamentar o conjunto das ciências da sociedade e da história contra sua submissão à metafísica naturalista, pois a classificação metafísica do ser humano dentro de um mundo concebido essencialmente como natureza impossibilita compreendê-lo em sua historicidade.
33. A multiplicidade aparentemente dispersa da produção diltheyana encontra sua unidade não em um sistema conceitual fechado, mas em um questionamento vital acerca do sentido da história e, por consequência, do próprio ser humano, pois toda pergunta exige uma intuição originária da realidade interrogada e toda crise científica ocorre quando os conceitos herdados deixam de corresponder aos fenômenos que emergem.
34. Dilthey procura acessar o sentido do ser da história por três vias fundamentais — a história das ciências, a epistemologia e a psicologia —, sendo as duas primeiras fundadas na terceira e dependendo da concepção específica de psicologia elaborada em sua obra.
35. A via da história das ciências não pretende simplesmente reconstruir o desenvolvimento das disciplinas, mas investigar como a vida humana se compreendeu e interpretou em diferentes épocas, pois, na história das ciências humanas, a vida cognoscente persegue historicamente a si mesma e o sujeito que conhece coincide, em sentido fundamental, com aquilo que é conhecido.
36. A via epistemológica também se orienta pela compreensão da vida e não pela mera demarcação metodológica entre ciências naturais e humanas, pois Dilthey procura apreender a realidade histórica em sua própria efetividade e compreender o conhecimento histórico como forma privilegiada de autoconhecimento humano.
37. As duas primeiras direções da pesquisa diltheyana convergem para a apreensão e explicitação do fenômeno da vida, finalidade igualmente perseguida pela psicologia de Dilthey contra as formas tradicionais nas quais o ser próprio da vida desaparece.
** IV **
38. A questão fundamental de Dilthey dirige-se ao conceito de vida e exige que a vida seja primeiramente tornada acessível em sua originariedade antes de ser conceitualmente determinada, tarefa assumida sob o nome tradicional de psicologia, entendida não como ciência natural dos processos psíquicos, mas como investigação da experiência vivida e das estruturas do ser humano espiritual.
39. A psicologia descritiva e analítica de Dilthey diferencia-se da psicologia positivista e naturalista porque rejeita a transferência imediata dos métodos físicos para o psíquico e considera metodologicamente ilegítima qualquer construção baseada em hipóteses que não tenham sido precedidas pela intuição da própria realidade investigada.
40. A psicologia construtiva inspirada pelas ciências naturais reduz a vida psíquica a elementos últimos, sobretudo impressões sensoriais, procurando reconstruir fenômenos como vontade ou ódio mediante combinações desses elementos, enquanto a perspectiva de Dilthey insiste na prioridade do contexto vital originário sobre qualquer decomposição atomística.
41. A análise diltheyana parte do todo da vida psíquica como realidade originariamente dada e entende a decomposição analítica não como separação de elementos independentes, mas como explicitação das estruturas internas de um contexto vital que se desenvolve, é livre e possui uma configuração adquirida historicamente.
42. O contexto psíquico fundamental constitui-se pela mesmidade do si-próprio em correlação recíproca com o mundo, sendo cada momento da consciência estruturado simultaneamente por comportamentos cognitivos, afetivos e volitivos que não se relacionam causalmente, mas segundo nexos de motivação e finalidade.
43. A recepção neokantiana da investigação de Dilthey deformou sua problemática ao substituir a pergunta pelo ser histórico por uma distinção formal entre o procedimento individualizante da história e o procedimento generalizante das ciências naturais, eliminando precisamente a tentativa diltheyana de constituir uma psicologia não naturalista.
44. A avaliação crítica da pesquisa de Dilthey exige determinar até onde ele avançou e em que ponto permaneceu insuficiente, retomando a pergunta pelo ser histórico com os meios mais radicais proporcionados pela fenomenologia.
** V **
45. Uma visão histórica de mundo deve fundar-se na investigação da historicidade (Geschichtlichkeit) e não simplesmente na acumulação de conhecimentos sobre acontecimentos históricos, pois o problema decisivo concerne ao ser do histórico e não apenas aos entes históricos, à historicidade e não ao conjunto factual da história.
46. A compreensão da fenomenologia pode ser articulada pela análise de sua atitude fundamental, do avanço representado pelas Investigações lógicas de Husserl, das descobertas da intencionalidade e da intuição categorial, do significado do próprio nome “fenomenologia” e dos limites das pesquisas fenomenológicas desenvolvidas até então.
47. A atitude fundamental da fenomenologia exprime-se na máxima “às coisas mesmas” (zu den Sachen selbst), segundo a qual a realidade investigada deve ser conduzida à doação originária para que o sentido de seu ser possa ser apreendido nela mesma, em oposição à tendência histórica da filosofia de operar com conceitos herdados sem verificar sua adequação originária.
48. A fenomenologia nasceu menos como programa teórico do que como realização concreta de investigações elementares, mas seu retorno às coisas mesmas não pode significar abandono da história, pois toda descoberta permanece determinada por uma continuidade histórica da qual a própria fenomenologia precisa apropriar-se criticamente.
49. O avanço decisivo da fenomenologia ocorreu com as Investigações lógicas de Husserl, cuja importância não pode ser apreendida por mera exposição doutrinária, pois o princípio fenomenológico exige a realização concreta do percurso investigativo e o exercício prolongado de uma capacidade de ver os fenômenos em si mesmos.
50. A intencionalidade e a intuição categorial constituem descobertas decisivas para a retomada fenomenológica da questão de Dilthey, pois a intencionalidade revela que todo pensar, querer e experimentar é sempre direcionado a algo, tornando possível investigar o ente tal como se mostra em seu ser e, assim, fundamentar cientificamente a pergunta pelo ser dos entes.
51. A intuição categorial possibilita demonstrar o sentido do ser mesmo quando este não é acessível à intuição sensível, permitindo distinguir de maneira rigorosa o ente daquilo que se exprime quando se afirma que algo “é”.
52. A fenomenologia deve conduzir os conceitos filosóficos diretamente àquilo que neles é visado, permitindo que o fenômeno se mostre a partir de si mesmo, mas sua primeira configuração permaneceu excessivamente vinculada à psicologia tradicional e o próprio Husserl teria interpretado inadequadamente sua descoberta ao apresentá-la como aperfeiçoamento da psicologia.
** VI **
53. Embora Dilthey tenha identificado o Dasein humano (menschliches Dasein) como o ente propriamente histórico e explicitado algumas estruturas da vida, não perguntou pelo sentido do ser desse Dasein e, por isso, tampouco pôde responder de maneira radical ao significado do ser-histórico, limitação compartilhada pelas primeiras investigações fenomenológicas.
54. A determinação preliminar do ser humano deve partir fenomenologicamente do Dasein cotidiano (alltägliches Dasein), pois precisamente aquilo que parece mais próximo e evidente encontra-se facticamente encoberto pelas formas tradicionais de questionamento.
55. A concepção cartesiana do ser humano como ego ou coisa pensante (res cogitans) transforma a consciência em um interior isolado diante de uma realidade exterior e conduz a epistemologia moderna ao falso problema de explicar como o sujeito alcança o objeto, enquanto a doação originária do Dasein consiste em ser-em-um-mundo (In-einer-Welt-sein).
56. O ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) manifesta-se originariamente não por conhecimento teórico, mas pelo trato prático e pela ocupação com as coisas, de modo que o mundo circundante (Umwelt) se estrutura por utilidades, referências, proximidades, distâncias e possibilidades de manejo anteriores ao espaço homogêneo e mensurável da geometria.
57. O Dasein da vida caracteriza-se também pela presença de outros entes dotados do mesmo caráter de ser, de maneira que a existência humana é essencialmente ser-uns-com-os-outros e compartilhar um mesmo mundo e um mesmo espaço.
58. O ser-no-mundo é simultaneamente ser-com-os-outros, inclusive quando nenhum outro está facticamente presente, e o próprio si-mesmo é encontrado inicialmente não por observação introspectiva, mas nas ocupações, tarefas e relações familiares do mundo circundante.
59. Na cotidianidade, o Dasein não é primordialmente ele mesmo, mas encontra-se submetido ao domínio impessoal daquilo que “se” diz, julga, pensa e faz, isto é, ao “todos” ou impessoal (das Man), cuja publicidade governa inclusive as práticas científicas e conduz o Dasein a perder-se no mundo.
60. A linguagem cotidiana evidencia a queda do Dasein na publicidade porque o discurso, cuja função originária consiste em tornar algo manifesto aos outros, pode degenerar em falação (Gerede), na qual aquilo que se diz adquire validade pela repetição enquanto se afasta progressivamente das próprias coisas.
61. As estruturas analisadas não são atos ou vivências isoladas de consciência, mas modos de ser-no-mundo, e o Dasein deve ser inicialmente determinado como ocupação cuidadosa com o mundo, sendo o cuidado (Sorge) o caráter próprio de seu ser.
62. A tentativa de compreender integralmente o Dasein encontra a dificuldade de que a vida permanece sempre incompleta enquanto existe e deixa de existir precisamente quando alcança seu fim, tornando impossível alcançar sua totalidade mediante a observação de uma vida concluída ou pela substituição da própria existência pela existência de outro.
** VII **
63. A circunvisão do Dasein cotidiano é orientada pela interpretação pública do mundo, na qual a existência tende a perder-se e a compreender-se mediante categorias retiradas das coisas mundanas, razão pela qual as definições tradicionais do ser humano como animal racional ou unidade de sensibilidade e razão deixam sem resposta o sentido do ser da totalidade humana.
64. A morte não deve ser concebida como acontecimento exterior que sobrevém ao término de um processo vital, pois pertence permanentemente ao Dasein como sua possibilidade extrema, de modo que o próprio existir é desde sempre a possibilidade de sua própria morte.
65. A presença da morte manifesta-se diretamente na fuga cotidiana diante dela, pois sua possibilidade é temporalmente indeterminada e, ao mesmo tempo, absolutamente certa, enquanto a cotidianidade procura neutralizar essa certeza indefinida adiando-a e recusando-se a permanecer diante dela.
66. A morte mostra-se, portanto, como a possibilidade extrema, indeterminada e certa na qual o Dasein é colocado diante de si mesmo.
67. A estrutura existencial da morte possui prioridade em relação às interpretações particulares dela decorrentes, inclusive as religiosas, pois constitui uma determinação a priori que também precisa estar pressuposta nas formas cristãs de compreender a morte e o sentido da vida.
68. A existência inautêntica (uneigentlich) caracteriza-se pela fuga diante da morte, tornando necessário perguntar em que consiste um estar autenticamente diante da morte e quais consequências essa possibilidade possui para a compreensão fundamental do Dasein.
** VIII **
69. A compreensão do ser do Dasein deve apreendê-lo em sua totalidade, e essa totalidade é delimitada pela morte enquanto possibilidade certa e indeterminada que pertence ao próprio ser da vida humana, diante da qual a cotidianidade adota predominantemente a atitude inautêntica da evasão.
70. A relação autêntica com a morte exige sustentar essa possibilidade como possibilidade, sem convertê-la numa realização efetiva, e consiste no antecipar-se para ela (Vorlaufen), no qual o mundo perde sua autoridade absoluta e o Dasein é reconduzido à possibilidade de escolher a si mesmo.
71. O antecipar-se à possibilidade extrema revela a estrutura temporal do Dasein, pois, enquanto antecipação, ele é seu futuro; enquanto assume sua culpa, é seu passado; e enquanto age resolutamente, torna-se presente, de modo que o Dasein não simplesmente existe dentro do tempo, mas é ele próprio temporalidade.
72. Na cotidianidade, o tempo manifesta-se no “agora” determinado pelo relógio e pelos calendários, mas essa temporalização pública deriva da ocupação, que espera o futuro enquanto aquilo que deve ser realizado, esquece o passado e concentra a existência numa sucessão de presentes disponíveis.
73. A gênese do relógio encontra-se na orientação prática da vida cotidiana pelos ciclos naturais e pelas necessidades do convívio, pois manhã, meio-dia e noite são inicialmente pontos de referência das ocupações e somente posteriormente se tornam determinações astronômicas abstratas.
74. O tempo mensurado pelo relógio é o agora público compartilhado no ser-com-os-outros e não o tempo próprio do Dasein, revelando até que ponto a publicidade governa a existência ao transformar a temporalidade em uma sequência comum de instantes pelos quais todos podem orientar-se e ser pressionados.
** IX **
75. A ciência e a filosofia surgem quando a circunvisão ocupada do Dasein se autonomiza e passa a contemplar o mundo em seu ser, extraindo da experiência cotidiana uma natureza concebida como permanentemente subsistente e submetida a regularidades que devem ser purificadas das contingências do acesso observacional.
76. A física moderna radicaliza a busca pelas leis invariantes do movimento e a teoria da relatividade deve ser compreendida não como relativização da validade das leis físicas, mas como tentativa de determinar condições de mensuração capazes de apreender a natureza a partir dela mesma.
77. A teoria da relatividade torna insuficiente a concepção kantiana de tempo ao revelar que o tempo físico é sempre tempo local dependente das condições de medição, sendo a mensuração um modo de tornar algo presente mediante uma medida e um número.
78. Mesmo o tempo da natureza não pode ser concebido metafisicamente como absoluto, pois aparece fisicamente como multiplicidade unidimensional e irreversível de momentos anteriores e posteriores, em que cada agora ocupa uma posição irrepetível e permanece aberto indefinidamente em ambas as direções.
79. O tempo científico mensurado é um tempo de mundo no qual todos podem concordar, mas sua impropriedade não consiste, como sustentava Bergson, numa espacialização do tempo, e sim em sua redução à presença do agora.
80. A primeira determinação científica do tempo recai compreensivelmente sobre o tempo da natureza, como já se encontra em Aristóteles ao defini-lo mediante a contagem do movimento segundo o antes e o depois, mas a tarefa filosófica consiste em compreender o tempo próprio (eigentliche Zeit) como realidade que cada Dasein é em sua singularidade.
81. As determinações alcançadas acerca do tempo tornam possível formular a questão final acerca do sentido da historicidade (Geschichtlichkeit).
** X **
82. A questão própria de Dilthey busca compreender o sentido da história a partir da própria vida, mas, embora tenha reconhecido que a vida possui caráter essencialmente histórico, não perguntou pelo significado ontológico do ser-histórico, lacuna que pode ser retomada fenomenologicamente mediante a análise do Dasein e de sua realidade própria enquanto tempo.
83. História (Geschichte) e ciência histórica (Historie), embora frequentemente empregadas como sinônimos, possuem significados distintos, pois Geschichte designa o acontecer (Geschehen) no qual o próprio Dasein está envolvido e que permanece como passado carregado e sustentado no presente.
84. A ciência histórica (Historie) constitui o conhecimento do acontecido mediante descoberta, crítica, interpretação e exposição das fontes, e sua vinculação terminológica com o próprio acontecer deve-se ao fato de que aquilo que aconteceu conosco permanece conservado em nosso conhecimento histórico.
85. A história distingue-se do simples movimento porque não consiste numa mudança que ocorre exteriormente no mundo, mas num acontecer que o próprio Dasein é, cuja estrutura fundamental se manifesta no antecipar-se para o futuro, pelo qual o passado é simultaneamente descoberto e carregado.
86. O passado pode tornar-se tema explícito de investigação, mas toda apreensão histórica permanece delimitada pela compreensão que o presente possui de seu próprio Dasein, razão pela qual interpretações como a de Spengler, ao compreender culturas segundo categorias biológicas e estéticas, acabam impedindo a manifestação própria dos fenômenos históricos.
87. Toda investigação histórica parte inevitavelmente de uma determinada interpretação, mas uma pesquisa capaz de abrir o passado em sua singularidade deve impedir que categorias inadequadas do presente sejam projetadas sobre situações históricas distintas, tornando necessária uma meditação sobre o sentido (Besinnung) do Dasein como fundamento do método histórico.
88. A história da filosofia constitui um exemplo privilegiado da possibilidade de investigação histórica precisamente porque a fenomenologia, apesar de sua radicalidade, manifesta frequentemente uma falta de sentido histórico e acredita poder abandonar a tradição para alcançar diretamente as coisas mesmas, permanecendo assim inadvertidamente presa às formas tradicionais de questionamento.
89. A história da filosofia deve ser reconduzida à questão fundamental do ser dos entes e, em última instância, ao próprio sentido do ser (Sein), pois somente a partir dessa questão se torna inteligível a continuidade histórica que vai da ontologia grega às concepções modernas e fenomenológicas.
90. A investigação histórica da filosofia retorna, portanto, à questão do ser (Seinsfrage), que deve ser retomada em continuidade crítica com sua primeira formulação científica pelos gregos, a fim de verificar sua legitimidade e seus limites e devolver à filosofia a função de antecipar e abrir os conceitos fundamentais das ciências.
91. Yorck von Wartenburg percebeu talvez com maior radicalidade que Dilthey a necessidade dessa meditação histórica sobre o sentido (Besinnung), ao diagnosticar o afastamento do ser humano moderno de si mesmo e afirmar que todo filosofar genuíno é necessariamente histórico, pois a ciência somente encontra seu solo originário numa apropriação viva do mundo do passado e da Antiguidade.