Resumo da tradução de Irene Borges-Duarte
“Já só um Deus nos pode ainda salvar”
1. A nota introdutória do tradutor situa a entrevista concedida por Heidegger a Der Spiegel em 1966, publicada apenas postumamente em 1976 conforme desejo do filósofo, destinada a esclarecer sua postura frente ao III Reich. * Explica-se a existência de duas versões do texto (a publicada em 1976 e a editada por Hermann Heidegger em 1988) e o critério adotado para cotejá-las, com acréscimos entre colchetes e notas para modificações. * Menciona-se a repercussão internacional da entrevista, traduzida em seis idiomas, e a dificuldade de traduzir o idioleto heideggeriano, sobretudo conceitos como Ge-Stell.
2. Questiona-se por que a obra filosófica permanece ensombrada por episódios de sua vida nunca esclarecidos, por orgulho ou por recusa de se pronunciar sobre eles.
3. Heidegger pergunta se a referência é ao ano de 1933.
4. Confirma-se que a pergunta abrange tanto o que precedeu quanto o que sucedeu a 1933, situando-se o tema na questão mais ampla da relação entre filosofia e ação política.
5. Heidegger afirma não ter participado de atividades políticas antes do reitorado, tendo passado o semestre de inverno de 1932/1933 recolhido em seu refúgio.
6. Pergunta-se de que maneira se tornou reitor da Universidade de Friburgo.
7. Relata-se a eleição de von Möllendorf como reitor em dezembro de 1932 e as conversas mantidas sobre a falta de perspectivas dos estudantes e da universidade.
8. Pergunta-se se havia, então, uma conexão percebida entre a situação da universidade e a situação política geral da Alemanha.
9. Heidegger descreve seu acompanhamento dos acontecimentos políticos de 1933 e narra a destituição de von Möllendorf pelo Ministro da Cultura de Baden, sob o pretexto de este ter proibido a afixação do “cartaz dos judeus”.
10. Pergunta-se sobre a filiação política de von Möllendorf e sua atitude após a destituição.
11. Narra-se a pressão exercida por von Möllendorf, pelo vice-reitor Sauer e por colegas mais jovens para que Heidegger aceitasse o reitorado, apesar de suas hesitações.
12. Pergunta-se se foi essa pressão que o levou a aceitar definitivamente e como se desenvolveu sua relação com os nacional-socialistas.
13. Descreve-se a exigência, feita por representantes estudantis e pelas SA, de recolocação do cartaz antijudaico, à qual Heidegger se recusou, mantendo a proibição mesmo sem apoio do Ministro.
14. Observa-se que esses fatos eram até então desconhecidos.
15. Heidegger vincula o motivo de sua aceitação do reitorado à sua lição inaugural de 1929 (“O que é a Metafísica?”), sobre a dispersão das ciências e a perda do enraizamento destas em sua essência.
16. Questiona-se a congruência entre essa declaração de 1929 e a afirmação do discurso reitoral de 1933 segundo a qual a “liberdade acadêmica” seria repudiada por ser meramente negativa.
17. Heidegger reafirma essa posição, esclarecendo que a “liberdade negativa” deve ser lida em seu contexto original.
18. Aponta-se um tom novo no discurso reitoral, ao referir-se à “grandeza e ao esplendor” do movimento nacional-socialista quatro meses após a nomeação de Hitler.
19. Heidegger confirma que estava, de fato, convencido disso.
20. Pede-se que se estenda sobre esse ponto.
21. Heidegger explica que, diante da confusão de vinte e dois partidos, buscava uma posição nacional e social, citando o exemplo de Friedrich Naumann e de um artigo de Eduard Spranger ainda mais radical que seu próprio discurso.
22. Pergunta-se desde quando levava em conta as relações políticas, já que o desemprego em massa e os vinte e dois partidos existiam havia anos.
23. Heidegger situa-se então nas questões de Ser e Tempo (1927) e no tema do sentido das ciências, explicitado no título “A auto-afirmação da Universidade alemã”, questionando se algum crítico realmente meditou o discurso em profundidade.
24. Questiona-se se não seria inadequado falar em “auto-afirmação” da universidade em momento tão turbulento.
25. Heidegger opõe essa “auto-afirmação” à “ciência política” já defendida pelo partido e pela associação estudantil nazista, que reduzia o saber à sua utilidade fática para o povo.
26. Busca-se compreender se, ao incluir a universidade no movimento, pretendia simultaneamente preservá-la de correntes que a tornassem prepotente.
27. Heidegger confirma essa leitura, acrescentando que a auto-afirmação deveria devolver à universidade um sentido enraizado na tradição do pensamento europeu ocidental.
28. Pergunta-se se pretendia, assim, um saneamento da universidade em conjunto com os nacional-socialistas.
29. Heidegger nega, afirmando que a renovação deveria vir da própria reflexão da universidade, não de aliança com o partido.
30. Pergunta-se sobre os três elementos exaltados no discurso reitoral — “serviço do trabalho” (Arbeitsdienst), “serviço militar” (Wehrdienst) e “serviço do saber” (Wissensdienst) — e sua hierarquia frente à posição nazista.
31. Heidegger nega tratar-se de “pilares”, esclarecendo que o “serviço do saber”, embora citado em terceiro lugar, ocupa primazia de sentido, fundamento do trabalho e do serviço militar.
32. Cita-se uma frase de 1933 segundo a qual apenas o Führer constituiria “a realidade alemã e a sua lei”, questionando-se se ainda a subscreveria.
33. Heidegger esclarece que essa frase não consta do discurso reitoral, mas de um jornal estudantil, reconhecendo que aceitar o reitorado implicava compromissos que hoje não repetiria, embora reafirmasse, sem a referência ao nacionalismo, o discurso sobre a auto-afirmação da universidade.
34. Propõe-se uma questão intermediária: a atitude de 1933 oscilaria entre o dizer coisas ad usum Delphini e a percepção positiva de um movimento novo.
35. Heidegger confirma essa polaridade, afirmando que via, de fato, tal possibilidade positiva no movimento.
36. Pergunta-se sobre a acusação de participação em queimas de livros promovidas pela juventude hitlerista.
37. Heidegger afirma ter proibido a queima de livros projetada diante da universidade.
38. Pergunta-se sobre a acusação de ter mandado retirar da biblioteca livros de autores judeus.
39. Heidegger nega ter dado seguimento às ordens de retirada, afirmando que autores judeus, sobretudo Husserl, continuaram a ser citados no Seminário.
40. Pergunta-se à que atribui o surgimento de tais boatos.
41. Heidegger sugere que a aceitação do reitorado foi apenas pretexto para uma calúnia de motivos mais profundos.
42. Pergunta-se sobre sua relação, aparentemente cordial, com estudantes judeus mesmo após 1934.
43. Heidegger afirma que sua atitude não se modificou, ilustrando com o caso de Helene Weiss, aluna que se doutorou na Basileia e a quem visitou repetidamente.
44. Pergunta-se sobre o esfriamento da amizade com Karl Jaspers, atribuído por alguns ao fato de sua esposa ser judia.
45. Heidegger nega essa versão como mentira, recordando a amizade desde 1919 e o envio de obras por Jaspers com dedicatórias cordiais entre 1934 e 1938.
46. Observa-se que tais cumprimentos pressupõem ausência de perturbação prévia, e pergunta-se sobre a gratidão a Husserl, seu antecessor na cátedra.
47. Heidegger remete à dedicatória de Ser e Tempo como prova dessa gratidão.
48. Confirma-se a lembrança da dedicatória, perguntando-se pela posterior deterioração da relação.
49. Heidegger atribui o afastamento a divergências teóricas, mencionando um ajuste de contas público de Husserl contra Max Scheler e ele próprio.
50. Pergunta-se quando isso ocorreu.
51. Heidegger situa o episódio numa conferência de Husserl no Palácio de Desportos de Berlim, noticiada por Erich Mühsam.
52. Afirma-se não interessar a polêmica em si, mas confirma-se que nada teve a ver com 1933.
53. Heidegger confirma que absolutamente nada.
54. Pergunta-se sobre a retirada da dedicatória a Husserl na quinta edição de Ser e Tempo.
55. Heidegger confirma o fato, remetendo à explicação dada em “A Caminho da Linguagem” sobre o acordo com o editor Niemeyer em 1941, mantendo-se a nota de agradecimento a Husserl.
56. Pergunta-se sobre a suposta proibição, como reitor, do acesso de Husserl à biblioteca da universidade.
57. Heidegger classifica essa acusação como calúnia.
58. Pergunta-se pela origem documental desse boato.
59. Heidegger declara desconhecer a origem, citando em contraponto sua defesa, perante o Ministro, dos professores judeus Thannhauser e von Hevesy, que o Ministério pretendia demitir.
60. Observa-se que, apesar disso, não compareceu ao funeral de Husserl em 1938.
61. Heidegger nega o corte de relações, relatando uma carta de agradecimento enviada por sua esposa a Frau Husserl em 1933 e reconhecendo como falha humana não ter renovado seu apreço por ocasião da doença e morte de Husserl.
62. Pergunta-se como se chegou à renúncia ao reitorado em 1934.
63. Heidegger relata a nomeação de decanos jovens independentemente de sua filiação partidária e a crescente resistência de colegas e do partido a essa renovação.
64. Pergunta-se se teve oportunidade de comunicar ao Ministro do Reich suas ideias de reforma universitária.
65. Heidegger pergunta a que época a questão se refere.
66. Esclarece-se que se trata de uma viagem de Rust a Friburgo em 1933.
67. Heidegger distingue dois encontros: uma saudação formal em Schönau e uma conversa em Berlim, em novembro de 1933, na qual expôs sua concepção da ciência e da organização das faculdades sem obter resultado prático.
68. Pergunta-se se sua relação com o partido se alterou após a renúncia ao reitorado.
69. Heidegger relata ter-se limitado à docência, lecionando Lógica e, no semestre seguinte, o primeiro curso sobre Hölderlin, entendido por ouvintes atentos como enfrentamento com o nazismo.
70. Pergunta-se sobre a cerimônia de transferência do cargo.
71. Heidegger confirma ter-se recusado a participar da cerimônia.
72. Pergunta-se se o sucessor era militante do partido.
73. Heidegger identifica-o como jurista, anunciado pela imprensa partidária como “o primeiro reitor nacional-socialista” da universidade.
74. Pergunta-se como o partido se comportou a partir de então em relação a ele.
75. Heidegger afirma ter passado a ser vigiado permanentemente.
76. Pergunta-se se percebia essa vigilância.
77. Heidegger confirma, citando o caso do Dr. Hanke.
78. Pergunta-se como veio a saber disso.
79. Heidegger relata que o próprio Hanke, enviado pelo Serviço de Segurança para vigiá-lo, veio confessar-lhe a missão.
80. Pergunta-se o motivo dessa confissão.
81. Heidegger atribui-a ao seminário sobre Nietzsche de 1937, cujo conteúdo levou Hanke a não poder prosseguir a vigilância.
82. Pergunta-se se o partido mantinha, de fato, tal vigilância.
83. Heidegger relata a proibição de comentar seus escritos, os ataques do jornal das juventudes hitleristas e de Ernst Krieck, e sua exclusão dos congressos internacionais de filosofia de Praga (1934) e de Descartes em Paris (1937), além da retirada de circulação do discurso reitoral.
84. Pergunta-se se a situação chegou a piorar.
85. Heidegger relata que, no último ano de guerra, foi convocado para construir trincheiras nas margens do Reno, ao contrário de outros cientistas dispensados do serviço.
86. Menciona-se, em contraponto, Karl Barth construindo trincheiras do lado suíço.
87. Heidegger relata ter sido classificado entre os “totalmente dispensáveis” pelo reitor, seguido de um curso intitulado “Poetar e pensar” e de sua mobilização como o mais velho dos docentes convocados.
88. Considera-se dispensável relatar os acontecimentos até a reforma legal, tema que Heidegger reconhece como “assunto pouco agradável”, sem acrescentar mais detalhes.
89. Resume-se a trajetória: de posição estritamente apolítica, Heidegger teria ingressado na política desse movimento em 1933.
90. Heidegger precisa que tal ingresso se deu no âmbito estritamente universitário.
91. Cita-se um trecho de “Introdução à Metafísica” (1935, publicado em 1953) que distingue a “verdade íntima e a grandeza” do movimento nacional-socialista, associadas ao encontro com a técnica planetária, perguntando-se se o parêntese explicativo já constava do original.
92. Heidegger confirma que o parêntese já estava no manuscrito, referindo-se à sua compreensão da técnica anterior à formulação posterior como Ge-Stell (composição).
93. Pergunta-se se situa o comunismo na mesma linha de determinação técnica planetária.
94. Heidegger confirma essa avaliação.
95. Pergunta-se se o americanismo também se enquadra nessa categoria.
96. Heidegger confirma, acrescentando que a técnica moderna constitui hoje um poder de grandeza histórica difícil de sobrevalorizar, expressando dúvida quanto a saber que sistema político seria conforme à era técnica, sem crer que seja a democracia.
97. Observa-se que “a” democracia reúne representações diversas, perguntando-se sobre a possibilidade de sua transformação e sobre a classificação de democracia, cristianismo político e estado de direito como “meias-tintas” (Halbheiten).
98. Heidegger reafirma essa classificação, por considerar que tais concepções ainda entendem a técnica como algo que o homem tem “na mão”, o que julga impossível.
99. Pergunta-se qual corrente seria mais “adequada aos tempos que correm” (zeitgemässe).
100. Heidegger declara não saber, propondo antes esclarecer o próprio sentido de “tempo” e questionando se a adequação temporal, e não o agir do pensar e do poetar, seria a medida correta.
101. Objeta-se, com a imagem do aprendiz de feiticeiro, que seria excessivamente pessimista negar controle sobre a técnica moderna.
102. Heidegger recusa o rótulo de pessimismo, afirmando que a técnica moderna já não é, propriamente, um instrumento.
103. Pergunta-se por que, então, estaríamos subjugados pela técnica.
104. Heidegger corrige o termo “subjugados”, afirmando apenas que ainda não se encontrou um caminho correspondente à essência da técnica.
105. Objeta-se, ingenuamente, que tudo funciona bem e que os homens vivem em bem-estar na era tecnificada.
106. Heidegger considera precisamente esse “funcionar” inquietante, associando-o ao desenraizamento do homem, ilustrado pelas fotografias da Terra vistas da Lua e por uma conversa com o poeta René Char sobre a desertificação da Provença pelas bases de mísseis.
107. Argumenta-se que, apesar disso, o homem prefere permanecer na Terra, questionando-se se ele estaria de fato destinado a esse lugar, cogitando-se a possibilidade de expansão a outros planetas.
108. Heidegger reafirma que tudo o que é essencial surgiu do enraizamento numa pátria e numa tradição, criticando a literatura contemporânea por ser excessivamente destrutiva.
109. Manifesta-se perturbação com o uso do termo “destrutiva”, associado ao niilismo característico de sua própria filosofia.
110. Heidegger esclarece que a literatura referida não é niilista no sentido por ele pensado.
111. Pergunta-se se essa tendência conduziria, ou já teria conduzido, ao Estado absolutamente técnico.
112. Heidegger confirma, qualificando o Estado técnico como o mais servil e cego instrumento do poder da técnica.
113. Pergunta-se se o homem comum, ou a filosofia, ainda pode influir sobre esse curso inevitável das coisas.
114. Heidegger afirma que a filosofia não pode provocar alteração imediata do estado do mundo, restando apenas preparar, pelo pensamento e pela poesia, a disposição para o aparecimento ou a ausência do deus, pois “já só um deus nos pode ainda salvar”.
115. Pergunta-se se há relação causal entre o pensamento heideggeriano e o advento (Heraufkunft) desse deus.
116. Heidegger nega poder atrair o deus pelo pensar, admitindo apenas despertar a disposição de esperá-lo.
117. Pergunta-se se, ao menos, é possível ajudar.
118. Heidegger define o “dispor-se a estar disposto” como primeira ajuda, afirmando que o mundo não pode ser sem o homem nem apenas pelo homem, e explicita sua concepção do ser (Sein) e da essência da técnica como Ge-Stell (com-posição), pela qual o homem é situado e provocado por um poder que não domina.
119. Recorda-se a antiga crença numa forte ação indireta da filosofia, exemplificada por Kant, Hegel, Nietzsche e Marx, perguntando-se se essa influência teria chegado ao fim.
120. Heidegger admite ser possível uma ação mediata por outro pensar, mas nega a possibilidade de ação direta e imediata.
121. Reconhece-se estar na charneira entre política e filosofia, retomando a questão do que resta ao indivíduo e à filosofia.
122. Heidegger reitera que resta apenas preparar-se para a abertura à chegada ou à falta do deus, experiência que libertaria da “queda no ente” (Verfallenheit) mencionada em Ser e Tempo.
123. Pergunta-se se seria necessário, então, um impulso vindo de fora, e se o pensar já não poderia agir por si mesmo como antes.
124. Heidegger reafirma que não de forma imediata.
125. Recorda-se o exemplo de Leibniz como impulso para a física moderna, perguntando-se sobre a ausência atual de efetividade semelhante.
126. Heidegger declara que, da parte da filosofia, tal efetividade já não existe, tendo as ciências particulares (Psicologia, Lógica, Politologia) assumido seus papéis, dissolvendo-a.
127. Pergunta-se quem ocupa hoje o lugar da filosofia.
128. Heidegger responde: a Cibernética.
129. Sugere-se, alternativamente, o devoto em atitude de abertura.
130. Heidegger nega que isso ainda seja filosofia.
131. Pergunta-se, então, o que seria.
132. Heidegger denomina-o “o outro pensar” (das andere Denken).
133. Pede-se maior clareza sobre essa formulação.
134. Heidegger remete à frase final de “A pergunta pela técnica”: “o perguntar é a devoção do pensar”.
135. Cita-se a afirmação, das lições sobre Nietzsche, de que os grandes pensadores pensam todos o mesmo, dada a riqueza inesgotável do pensar filosófico, observando-se que esse edifício parece ter chegado a um termo.
136. Heidegger confirma o término, sem que isso signifique dissolução, pois seu trabalho consistiu em interpretar a filosofia ocidental, cuja metafísica tradicional, encerrada com Nietzsche, já não permite pensar os traços fundamentais da era técnica.
137. Recorda-se um diálogo com um monge budista, no qual Heidegger falou de um “método totalmente novo de pensar”, inicialmente acessível a poucos homens.
138. Heidegger reitera que esse “dar-se” deve ser entendido em sentido originário.
139. Observa-se que sua efetivação (Verwirklichung) não foi explicitada nesse diálogo.
140. Heidegger admite não poder torná-la visível, sugerindo que o caminho do pensar pode dirigir-se ao silêncio, e que talvez sejam necessários trezentos anos para que produza efeito.
141. Objeta-se que, vivendo no presente, não é possível calar-se, esperando-se dos filósofos alguma ajuda indireta para as decisões políticas urgentes.
142. Heidegger confirma que, de fato, não pode ajudar.
143. Considera-se isso desanimador para quem não é filósofo.
144. Heidegger justifica sua recusa pela dificuldade das questões, que tornaria contrário ao sentido do pensar assumir pregação ou juízos morais, respondendo o mistério da técnica com a provisoriedade do pensar.
145. Pergunta-se se não se considera entre os que poderiam indicar um caminho, se ao menos fossem ouvidos.
146. Heidegger nega conhecer qualquer via de alteração imediata da situação mundial, esperando apenas despertar e assegurar o “estar disposto” mencionado.
147. Pergunta-se se a única resposta seria “aguardar trezentos anos”.
148. Heidegger esclarece tratar-se antes de “pensar de antemão” (vordenken) os tempos vindouros a partir das linhas ainda impensadas da era atual, remetendo ao curso “O que significa pensar”.
149. Retoma-se o início: o nazismo teria sido, a um só tempo, realização do encontro planetário com a técnica e o mais forte e impotente protesto contra ele, apontando-se contradição entre a defesa heideggeriana da técnica planetária e de noções como “pátria” e “enraizamento”.
150. Heidegger discorda, recusando uma dependência absoluta e insuperável entre homem e técnica, afirmando que a missão do pensar é contribuir para uma relação mais rica com a essência técnica, da qual o nazismo, incapaz de pensar, não se aproximou verdadeiramente.
151. Pergunta-se se os americanos teriam hoje essa relação explícita com a técnica.
152. Heidegger nega, atribuindo aos Estados Unidos um pensar pragmático que evita a reflexão sobre a técnica, admitindo a possibilidade de que tradições ancestrais russas ou chinesas venham a contribuir para uma relação livre com o mundo técnico.
153. Constata-se que, se ninguém possui essa relação e o filósofo não pode oferecê-la, resta indagar o alcance de sua própria tentativa.
154. Heidegger recusa-se a avaliar o alcance futuro de seu pensamento, remetendo à conferência “O princípio de identidade” (1957) e vinculando indissoluvelmente seu pensar à poesia de Hölderlin, entendido como o poeta que aguarda o deus.
155. Cita-se, do curso sobre Nietzsche, a oposição entre o dionisíaco e o apolíneo como “lei oculta” da caracterização histórica dos alemães, cuja missão histórica permaneceria em aberto.
156. Heidegger situa a citação provavelmente no curso sobre Nietzsche de 1936/1937.
157. Pede-se que explicite essa definição dos alemães.
158. Heidegger propõe que apenas a partir do mesmo lugar de onde surgiu o mundo técnico moderno se pode preparar uma inversão, recusando o recurso ao budismo zen e reafirmando a necessidade de nova apropriação da tradição europeia.
159. Indaga-se se é justamente nesse mesmo lugar que a técnica deveria ser superada.
160. Heidegger confirma, esclarecendo que “superação” não tem sentido hegeliano, e que o homem não pode realizá-la sozinho.
161. Pergunta-se se atribui aos alemães uma missão especial.
162. Heidegger confirma, no sentido do diálogo com Hölderlin.
163. Pergunta-se se os alemães estariam especialmente qualificados para essa inversão.
164. Heidegger aponta o parentesco íntimo entre o idioma alemão e o grego, confirmado, segundo diz, pelo testemunho de franceses que afirmam pensar em alemão.
165. Pergunta-se se isso explicaria sua forte influência sobre os países latinos e, sobretudo, sobre os franceses.
166. Heidegger observa que a racionalidade francesa não penetra na origem essencial do mundo atual, comparando a dificuldade de traduzir pensamento à de traduzir poesia.
167. Considera-se inquietante esse pensamento.
168. Heidegger sugere que essa inquietude deveria ser levada a sério, remetendo à tradução do pensamento grego para o latim romano como acontecimento que ainda impede sua compreensão plena.
169. Argumenta-se que é preciso partir do otimismo de que o pensamento pode ser comunicado e traduzido, sob risco de provincianismo.
170. Heidegger questiona se seria “provinciana” a diferença entre pensamento grego e representação romana, observando que apenas cartas comerciais e a linguagem matemática das ciências são efetivamente traduzíveis sem perda.
171. Aponta-se a crise do sistema democrático parlamentar, não apenas na Alemanha, perguntando-se se não caberia ao pensador indicar reformas ou alternativas, sob pena de o homem sem formação filosófica tomar decisões erradas.
172. Heidegger nega haver pensador em condições de perscrutar o mundo em sua totalidade para fornecer indicações práticas, afirmando que no âmbito do pensar não há proposições de autoridade, e que a única medida vem da própria coisa a pensar.
173. Observa-se que, sem proposições de autoridade, também a arte moderna teria dificuldade em fornecer normas, sendo por vezes chamada de “destrutiva” e caracterizando-se como arte experimental.
174. Heidegger declara ter gosto em aprender sobre o tema.
175. Complementa-se que tais ensaios surgem do isolamento do artista, entre os quais sempre se encontra algum acerto.
176. Heidegger reformula a questão como a de saber em que situação, em que lugar, se encontra a arte.
177. Observa-se que, assim, esperaria da arte algo que já não espera do pensamento.
178. Heidegger nega esperar qualquer coisa da arte, limitando-se a apontar a problematicidade de seu lugar.
179. Pergunta-se se é por desconhecer seu lugar que a arte seria destrutiva.
180. Heidegger recua da afirmação, reiterando apenas não ver claramente aonde apontam os caminhos da arte moderna.
181. Observa-se que também o artista carece de vinculação com a tradição, incapaz de repetir estilos passados, situação semelhante à do pensador, exemplificada pelo falsificador Hans van Meegeren.
182. Heidegger distingue essa situação comum quando arte, poesia e filosofia são entendidas como “assuntos culturais”, mas afirma que, pensada a própria noção de cultura, revela-se a miséria do pensar contemporâneo, por faltar um pensador suficientemente grande para conduzir o pensamento a seu tema, restando talvez construir passagens por sendas mais estreitas.
183. Encerra-se a entrevista com agradecimento a Heidegger, realizada em 23 de setembro de 1966, conduzida por Rudolf Augstein na presença de George Wolff e H. W. Petzet.