4 Hélios

IV. Hélios, claridade diurna — noite, métra — térmata (fragmentos correlatos: 94, 120, 99, 3, 6, 57, 106, 123).

1. Permanecem em aberto diversas questões deixadas sem resolução na sessão anterior, sobretudo porque as Horas (hôrai) não devem ser compreendidas como fluxo temporal mensurável, relação cronológica submetida à nivelação métrica ou forma vazia separada de um conteúdo, mas como tempo preenchido que temporaliza, traz e consuma cada coisa, em conexão com o fogo celeste de Hélios, cuja duração atravessa as horas do dia e as estações do ano, produz, alimenta e conserva o crescimento e, por seu percurso no firmamento, antecede toda métrica humana calculadora.

2. O fragmento 94 — Hélios gàr oukh hyperbésetai métra; ei dè mḗ, Erínyes min Díkēs epíkouroi exeurḗsousin, “Hélios não ultrapassará suas medidas; caso contrário, as Erínias, auxiliares de Díke, o descobrirão” — põe em questão o significado de métra, que pode indicar tanto as medidas próprias do percurso solar quanto aquelas que o sol estabelece para o que se encontra sob sua luz.

3. A afirmação de que Hélios não ultrapassará suas medidas não pode ser reduzida à submissão a leis naturais invioláveis, pois a ameaça de intervenção das Erínias, auxiliares de Díke, pressupõe a possibilidade de uma transgressão e conduz à questão de um limite mais originário do domínio solar.

4. O fragmento 120 — ēoûs kaì hesperēs térmata hē árktos kaì antíon tês árktou oûros aithríou Diós, “limites da manhã e da tarde: a Ursa e, diante da Ursa, o marco fronteiriço do Zeus luminoso” — permite pensar os térmata como delimitações do domínio solar nas quatro direções do céu, distinguindo-os dos métra relativos aos lugares determinados do percurso conhecido do sol.

5. A leitura do genitivo ēoûs kaì hesperēs torna-se decisiva para saber se se deve falar em “limites da manhã e da tarde” no sentido de limites destinados a elas ou, antes, de limites constituídos pela própria manhã e pela própria tarde.

6. A leitura segundo a qual manhã e tarde constituem os próprios limites parece mais adequada, embora a diferença gramatical entre “limites para” e “limites formados por” não altere necessariamente de maneira decisiva o sentido geral.

7. Se manhã, tarde, Ursa e marco oposto à Ursa forem compreendidos como quatro lugares-limite, formar-se-ão como que os quatro cantos do mundo solar, fazendo dos térmata uma terceira possibilidade de significação dos métra além das medidas internas ao curso solar e das medidas distribuídas às coisas.

8. A interpretação de ēoûs kaì hesperēs como genitivus subiectivus aproxima diretamente o fragmento 120 dessa terceira significação de métra, pois manhã e tarde passam a ser compreendidas como aquilo que constitui os próprios limites.

9. A distinção das três possibilidades semânticas de métra permanece inicialmente hipotética, tendo por finalidade apenas manter aberta a terceira possibilidade indicada pelos térmata do fragmento 120.

10. No uso ordinário da linguagem, a noção de métra comporta a distinção entre a medida e aquilo que é medido.

11. A medida pode ser compreendida em sentido tópico e temporal, sendo que os primeiros métra pertencem aos lugares e tempos do curso de Hélios, determinados não por leis naturais abstratas, mas por sua phýsis, enquanto os segundos dizem respeito às medidas de crescimento e nutrição distribuídas às coisas, e os terceiros delimitam o próprio domínio de poder solar.

12. Se manhã e tarde constituem os limites, a tradução de Diels deveria evitar o “de” e dizer antes “limites que a manhã e a tarde formam”.

13. Essa modificação gramatical, contudo, não parece alterar substancialmente o sentido principal da passagem.

14. A interpretação registrada por Diels-Kranz, seguindo Kranz, compreende os países da manhã e da tarde como separados pela linha que une a estrela polar ao ponto culminante diário da trajetória solar, limite que Hélios, identificado nesse contexto com Zeus aithérios, não poderia ultrapassar.

15. Essa interpretação retiraria de térmata o sentido de limites constituídos por manhã e tarde e transformaria ambas em determinações quase regionais, o que permanece problemático.

16. A representação de terras da manhã e da tarde pressuposta pela tradução de Kranz parece historicamente inadequada para Heráclito, sendo mais plausível situá-la apenas em Heródoto.

17. A interpretação de Kranz enfraquece o caráter limítrofe de manhã e tarde e torna menos inteligível o plural térmata, embora permaneça uma resposta possível à dificuldade do fragmento 120; por isso, a polissemia dos métra de Hélios deve continuar aberta e ser confrontada também com os demais fragmentos solares e com aqueles que tratam de dia e noite.

18. Entre as três significações possíveis dos métra de Hélios, a terceira, derivada do fragmento 120, torna-se especialmente importante porque o segundo período do fragmento 94, iniciado por ei dè mḗ e mencionando Díke e as Erínias, sugere uma limitação externa da própria potência solar.

19. Hélios, embora meça e distribua medidas a todas as coisas, pode estar ele próprio limitado por uma potência superior, pois Díke, acompanhada de suas auxiliares, vigia a fronteira entre a claridade solar e um domínio subtraído à visão, correspondente ao abismo noturno.

20. O fragmento 120 serve precisamente como apoio para essa terceira significação possível de métra.

21. A claridade diurna apresenta fenomenicamente o caráter peculiar de estender-se sem limite visível rumo ao aberto sem fim, embora o reino luminoso encontre outras formas de limitação, como o solo terrestre, a opacidade da terra e, parcialmente, o oceano.

22. O fragmento 99 — ei mḕ Hḗlios ēn, héneka tôn állōn ástrōn euphrónē an ēn, “se não houvesse sol, apesar dos demais astros seria noite” — mostra Hélios como o único astro que consuma plenamente a claridade, permitindo, por contraste com os demais astros, pensar a estrutura do domínio luminoso como algo que talvez esteja, em sentido mais profundo, envolvido por uma noite que não se mostra diretamente.

23. O uso de “fenômeno” deve ser entendido aqui como referência àquilo que imediatamente se mostra, e não ao fenômeno no sentido técnico fenomenológico.

24. O fragmento 3 pode ser lido como uma fala comparativa na qual a potência que abre todo o espaço luminoso aparece dentro de sua própria abertura como algo diminuto, pois o que abre se encobre de certo modo naquilo que por ele é aberto e passa a figurar entre as próprias coisas delimitadas por sua força luminosa.

25. A noite no domínio solar não deve ser confundida com a opacidade fechada do solo terrestre, pois a escuridão noturna permanece em princípio iluminável e é efetivamente pontuada pelos astros, o que torna necessário pensar conjuntamente os fragmentos solares e aqueles relativos a dia e noite.

26. A expressão esti gàr hén deve então ser compreendida de modo absoluto, pois supor simplesmente que Hesíodo ignorava a diferença entre dia e noite seria uma interpretação demasiado forçada.

27. A afirmação de que Hesíodo não conheceu dia e noite assume deliberadamente caráter provocativo.

28. Não seria plausível censurar Hesíodo por simplesmente distinguir dia e noite, distinção que qualquer pessoa realiza, de modo que a tradução “pois são um” deve ser rejeitada se implicar que a distinção cotidiana seria um erro.

29. A tradução “pois é um” soa como se dia e noite fossem indiferentes, interpretação que não encontra sentido adequado, porque ambos constituem estados alternantes do aberto, uma ritmicidade originária do viver marcada pela presença e ausência do sol, enquanto o verdadeiro problema consiste em pensar essa alternância em referência ao hén.

30. O fragmento 106, no qual aparece mía phýsis hēmérēs, “uma única phýsis do dia”, pode ser convocado como paralelo ao fragmento 57.

31. A relação entre ambos depende da possibilidade de pensar mía phýsis juntamente com esti gàr hén.

32. A “única phýsis do dia” opõe-se à divisão entre dias bons e maus, favoráveis e desfavoráveis, de maneira que essa unidade não possui o mesmo peso nem o mesmo sentido que o hén relativo a dia e noite.

33. Ainda assim, a aproximação entre os fragmentos 57 e 106 conserva legitimidade porque em ambos Hesíodo aparece relacionado a uma forma de não saber: num caso, não reconhece o hén em relação a dia e noite; no outro, não reconhece a única e mesma phýsis de cada dia.

34. O fragmento 106 funciona sobretudo como paralelo ao 57, no qual Hesíodo perde sua autoridade como mestre da maioria precisamente porque, embora conheça a diferença fundamental de dia e noite, não reconhece que “há o hén”.

35. Para Heráclito, “a maioria”, hoi pleîstoi, corresponde àqueles que ignoram o que verdadeiramente importa, sendo equivalente aos polloí; além disso, phýsis no fragmento 106 não pode ser traduzida simplesmente como “essência” no sentido metafísico posterior.

36. Se se emprega “essência”, ela não deve ser entendida no sentido latino de essentia.

37. O fragmento 123 — phýsis krýptesthai phileî, “a phýsis ama ocultar-se” — indica que phýsis deve ser compreendida a partir do emergir e do despontar, não a partir de uma essência fixa.

38. Phýsis deve ser entendida no sentido do surgir, despontar ou emergir.

39. A relação entre phýsis e hén deverá ser retomada posteriormente com maior profundidade.

40. A expressão enigmática esti gàr hén pode apontar para um hén distinto daquele anteriormente pensado como contraposto a ta pánta, isto é, distinto do hén do raio, do golpe, do sol e do fogo, talvez designando a unidade dos dois domínios constituídos pelo reino de Hélios e pela noite guardada por Díke e suas auxiliares.

41. A rejeição da interpretação do hén como simples unidade do firmamento exige esclarecer por que ela seria inadequada.

42. A unidade de dia e noite sob o mesmo firmamento seria demasiado simples, pois a fórmula “há o hén” parece apontar antes para a unidade do domínio solar e do abismo noturno que o circunscreve, formando ambos conjuntamente um único campo duplo.

43. Surge então a questão de saber se esse hén, concebido como unidade do campo duplo, corresponderia a algo como um além-do-ser que ultrapassaria o próprio ser.

44. A compreensão do hén como campo duplo de domínio solar e abismo noturno não precisa ultrapassar o ser, pois pode ser entendida como aprofundamento da própria estrutura do ser mediante a inclusão conjunta da desocultação (Entbergung) e da ocultação (Verborgenheit).

45. O percurso interpretativo iniciado pela relação entre o raio e ta pánta pode ser ampliado pela compreensão do sol como outro nome do hén, de modo que a dimensão luminosa e aberta deve ser pensada juntamente com a dimensão fechada e noturna que a limita.

46. A relação entre os dois domínios ainda exige esclarecimento.

47. O espaço luminoso do raio ou de Hélios, no qual ta pánta aparece e recebe seus contornos, encontra-se circunscrito por um abismo escuro, e Hélios não pode ultrapassar os limites de seu próprio domínio para penetrar nesse fundo noturno sem ser chamado à responsabilidade pelas Erínias que guardam a fronteira.

48. Permanece em aberto se se trata propriamente de dois domínios ou de um único domínio internamente diferenciado, questão que deve ser retomada posteriormente, ao mesmo tempo que a estrutura gramatical de esti gàr hén continua exigindo exame.

49. A pontuação de Diels antes de esti gàr hén talvez devesse ser um ponto, e não um ponto e vírgula, porque a frase contém uma afirmação extraordinária que precisa ser destacada mais fortemente do que aquilo que a precede.

50. A maioria conhece a diferença entre dia e noite, assim como Hesíodo, mas esse conhecimento permanece insuficiente porque desconhece o xynón, o comum; por isso, esti gàr hén irrompe como uma espécie de golpe, numa formulação deliberadamente tética e imperativa.

51. Por desconhecer o xynón, Hesíodo e Heráclito permanecem em linguagens distintas, impossibilitando um verdadeiro encontro no mesmo plano de pensamento.

52. Esti gàr hén não pensa a mera coincidência do diferente, mas o hén do campo duplo, cuja dimensão precisa ser alcançada para ultrapassar os polloí, de modo que a crítica a Hesíodo não o toma simplesmente por ignorante, mas denuncia a limitação especulativa de um saber que não conhece o fundamento.

53. Heráclito não apresenta diretamente o fundamento, mas afirma apenas que Hesíodo não o conhece.

54. O esti gàr hén desmascara precisamente a ignorância de Hesíodo quanto ao fundamento.

55. Permanece difícil determinar de que maneira esti gàr hén explica concretamente o não saber de Hesíodo relativamente a dia e noite, exigindo estabelecer a relação entre a fórmula do hén e o conhecimento hesiódico desses fenômenos.

56. O gàr não deve ser relacionado de maneira demasiado imediata a uma simples interpretação equivocada de dia e noite, pois Heráclito não substitui a compreensão hesiódica por outra descrição do mesmo fenômeno, mas fala a partir do saber do hén, segundo o qual a mera repartição entre dia e noite contraria o caráter fundamental do ser.

57. Hesíodo pode ser aproximado daqueles mencionados no fragmento 72 — kaì hoîs kath’ hēméran enkyroûsi taûta autoîs xéna phaínetai, “aquilo com que se deparam diariamente lhes parece estranho” — pois encontrava diariamente a diferença entre dia e noite sem alcançar seu sentido próprio.

58. Dia e noite constituem para Hesíodo o mais cotidiano e o mais noturno de sua experiência.

59. Mesmo assim, permanecem-lhe estranhos naquilo que propriamente são quando pensados a partir do hén.

60. A consideração conjunta dos fragmentos de Hélios e daqueles de dia e noite permite compreender o fogo celeste do sol como análogo ao raio na relação com ta pánta: Hélios dá luz, contorno, crescimento e tempo a tudo o que se desenvolve, permanece submetido a métra que deve respeitar sob a vigilância de Díke e suas auxiliares e, ao mesmo tempo, distribui medidas ao crescimento das coisas.