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Resumo em tópicos

1. O percurso de pensamento dirige-se ao princípio do fundamento (Satz vom Grund), àquilo que ele enuncia, à origem desse enunciado e ao modo como o profere, mas o acesso inicialmente escolhido não entra diretamente em seu conteúdo, antes acompanha exteriormente seu caráter de princípio fundamental, pois já esse percurso aparentemente periférico oferece matéria suficiente para pensar e poderá revelar-se uma aproximação mais originária ao teor do princípio do que uma análise imediata de seu conteúdo.

2. A manutenção desse fio condutor deverá conduzir a um lugar a partir do qual seja possível reconhecer mais proximamente a posição excepcional ocupada pelo princípio do fundamento (Satz vom Grund) no pensamento ocidental, ao mesmo tempo que o exame da relação habitual com esse princípio lança luz sobre o modo de pensar familiar e, por essa via, sobre a própria essência humana, sem que esta precise ser tomada diretamente como objeto de investigação.

3. A permanência humana no mundo e a travessia da Terra encontram-se continuamente a caminho dos fundamentos e do fundamento (Grund), pois aquilo que vem ao encontro é normalmente aprofundado até algum fundamento mais evidente, por vezes até fundamentos anteriores e, raramente, até a orla do abismo do pensamento, enquanto dos enunciados acerca do que circunda e concerne à existência exige-se invariavelmente que sejam fundamentados.

4. A determinação constante da conduta pelo aprofundar e pelo fundamentar suscita a pergunta por aquilo que faz com que tal comportamento seja precisamente assim, pois, embora mundo e vida possam aparentemente seguir seu curso sem reflexão expressa sobre o princípio do fundamento (Satz vom Grund), a própria estrutura fundamentadora da conduta exige que se interrogue pelo fundamento de seu contínuo buscar fundamentos.

5. A resposta à pergunta pelo fundamento da conduta fundamentadora encontra-se contida no princípio do fundamento (Satz vom Grund), embora permaneça ocultada naquilo mesmo de que ele fala, pois a afirmação de que tudo aquilo que de algum modo é possui necessariamente um fundamento (Grund) recebe assentimento não simplesmente por ter sido confirmada repetidamente pela experiência, mas porque se impõe como algo que parece ter de ser necessariamente correto.

6. Fazer valer o princípio do fundamento (Satz vom Grund) apenas mediante essa convicção espontânea poderia constituir o mais grosseiro desrespeito ao próprio princípio, pois, sendo ele mesmo algo que é, deveria, segundo sua própria exigência, possuir um fundamento (Grund), de modo que o princípio força a pergunta por seu próprio fundamento ao mesmo tempo que a aparência de evidência torna essa pergunta aparentemente artificiosa e capciosa.

7. Uma primeira possibilidade seria admitir que o princípio do fundamento (Satz vom Grund) constituísse a única realidade não abrangida por sua própria afirmação, situação extremamente paradoxal na qual justamente o princípio que estabelece que tudo possui fundamento (Grund) permaneceria ele próprio sem fundamento.

8. A segunda possibilidade consiste em reconhecer que também o princípio do fundamento (Satz vom Grund) possui necessariamente um fundamento (Grund), o qual, em razão do alcance máximo do próprio princípio, não poderia ser apenas um fundamento entre outros, mas deveria assumir a condição eminente de fundamento do fundamento.

9. A busca pelo fundamento do fundamento ameaça desencadear uma regressão ilimitada, pois esse fundamento exigiria novamente outro fundamento e assim sucessivamente, de modo que, levado até suas últimas consequências, o pensamento poderia perder toda possibilidade de repouso e precipitar-se no sem-fundo (Grundlose).

10. O caminho que procura incessantemente o fundamento contém efetivamente o perigo de fazer o pensamento afundar-se, embora essa advertência possa tanto exprimir uma verdade profunda quanto funcionar apenas como defesa impotente contra uma exigência genuína do pensamento, pois a aplicação rigorosa do princípio do fundamento (Satz vom Grund) ao próprio princípio conduz inevitavelmente à região do sem-fundo (Grundlose).

11. O princípio do fundamento (Satz vom Grund) ilumina de maneira estranha o caminho para o fundamento (Grund), revelando simultaneamente que a aproximação aos enunciados fundamentais e aos princípios conduz a uma região crepuscular e potencialmente perigosa, muito distinta da clareza tranquilizadora normalmente atribuída aos primeiros princípios.

12. Alguns pensadores conheceram essa região singular dos princípios, ainda que tenham falado pouco a seu respeito, e sua experiência pode orientar uma aproximação inicial que evite tanto as pretensões precipitadas e inflacionadas quanto uma sobriedade excessiva que esterilize e fatigue o próprio pensamento.

13. A tentativa cartesiana de conduzir todo conhecimento humano a um fundamento inabalável (fundamentum inconcussum) mediante a dúvida e a aceitação exclusiva do que se apresenta clara e distintamente encontra, em Leibniz, a objeção de que Descartes não determinou suficientemente em que consistiam a clareza e a distinção tomadas como critérios, tendo assim simultaneamente duvidado demais e abandonado a dúvida com excessiva facilidade.

14. A palavra de Leibniz permite reconhecer que o caminho para o fundamento (Grund) e a permanência na região dos princípios exigem simultaneamente sagacidade de pensamento e reserva, cada uma exercida no lugar adequado, sem que a radicalidade da interrogação se converta em excesso indiscriminado nem a prudência em recuo diante do que deve ser pensado.

15. A reflexão aristotélica acerca do posteriormente denominado princípio da contradição estabelece que constitui falta de formação não saber distinguir em quais domínios se deve procurar uma demonstração e em quais ela não deve ser exigida, introduzindo assim uma diferença essencial entre aquilo que pode ser demonstrado e aquilo cuja natureza exclui ou dispensa semelhante prova.

16. A palavra grega paideia, ainda parcialmente preservada na noção moderna de pedagogia, designa nesse contexto algo que não encontra tradução adequada e corresponde ao sentido desperto e preparado para discernir o que, em cada situação, é apropriado ou inapropriado.

17. O acesso à região dos princípios fundamentais exige a paideia como capacidade de distinguir aquilo que convém daquilo que não convém diante de determinados estados de coisas, evitando tanto sobrecarregar os princípios com exigências inadequadas quanto subestimá-los por uma compreensão excessivamente simplificadora.

18. Uma consideração mais ponderada das indicações de Leibniz e Aristóteles torna questionável a opinião corrente segundo a qual os primeiros princípios e princípios supremos deveriam apresentar-se imediatamente evidentes, luminosos como o sol e tranquilizadores para o pensamento, pois justamente sua supremacia pode exigir formas mais difíceis e menos imediatas de aproximação.

19. A intuição de Novalis de que o princípio supremo talvez devesse conter o paradoxo supremo apresenta-o como aquilo que jamais permite repouso definitivo, atraindo e repelindo continuamente, tornando-se novamente incompreensível mesmo depois de compreendido e mantendo incessantemente ativa a atividade do pensamento, numa relação comparável àquela que antigas tradições místicas atribuíam a Deus perante os espíritos.

20. A indicação de Novalis permite reconhecer que, na região dos princípios supremos, as coisas provavelmente se apresentam de modo inteiramente diverso daquele pressuposto pela doutrina habitual da evidência imediata, segundo a qual os princípios fundamentais deveriam oferecer ao pensamento transparência e segurança instantâneas.

21. O princípio do fundamento (Satz vom Grund), embora seja constantemente utilizado como apoio e sustentação do pensamento e da conduta, conduz simultaneamente ao sem-fundo (Grundlose) tão logo se reflita seriamente sobre seu próprio sentido, reunindo assim numa mesma estrutura a função de fundamento e a ameaça de perda de todo fundamento.

22. A obscuridade em torno do princípio do fundamento (Satz vom Grund) intensifica-se quando ele deixa de ser considerado apenas um princípio entre outros e passa a ser pensado como princípio fundamental de todos os princípios, pois então o princípio do fundamento torna-se o fundamento dos princípios e, em formulação extrema, o fundamento do próprio princípio.

23. A determinação do princípio do fundamento (Satz vom Grund) como fundamento do princípio introduz um movimento circular no qual algo gira e se enrosca em si mesmo sem simplesmente fechar-se, antes abrindo-se simultaneamente como um anel vivo em que o começo já contém seu fim e o fim reconduz ao começo.

24. A relação segundo a qual o princípio do fundamento (Satz vom Grund) seria fundamento do princípio perturba o representar habitual (Vorstellen), mas essa perturbação não pode ser afastada como mero jogo verbal, pois também a denominação latina principium rationis conduz estruturalmente à ratio rationis, ao fundamento do fundamento, revelando que o movimento circular pertence à própria questão e não apenas às palavras utilizadas para nomeá-la.

25. A formação alemã da palavra princípio fundamental (Grundsatz) como tradução de principium, ocorrida apenas no início do século XVIII, pertence a uma transformação linguística mais ampla que também produziu termos como intenção (Absicht), expressão (Ausdruck), objeto (Gegenstand) e existência ou ser-aí (Dasein), revelando uma época ainda capaz de criar linguagem a partir do diálogo pensante com a tradição.

26. As designações princípio (principium), princípio (Prinzip), princípio fundamental (Grundsatz) e axioma, embora provenientes de campos conceituais distintos, passaram a ser utilizadas indiferenciadamente na filosofia e nas ciências, apesar de o sentido grego originário de axioma remeter não simplesmente a uma proposição fundamental, mas a uma visão ou penetração intelectual mediante a qual algo se torna manifesto.

27. O aspecto decisivo dos princípios (Prinzipien) e axiomas consiste em possuírem caráter de proposições ou princípios enunciados (Sätze) que ocupam a primeira posição nas deduções, demonstrações e consequências lógicas, embora a essência do axioma, já abordada indiretamente por Aristóteles em sua discussão do princípio da contradição, permaneça ainda insuficientemente elucidada.

28. A consideração conjunta das designações axioma, princípio e princípio fundamental mostra que termos provenientes de regiões conceituais diferentes foram progressivamente tratados como equivalentes, embora o sentido grego de axioma, derivado de axioun, “estimar algo digno”, exija ser pensado segundo a relação grega originária com aquilo que é, e não mediante a moderna noção de valor ou avaliação.

29. Estimar algo digno, em sentido grego, significa deixá-lo aparecer e conservá-lo na consideração que lhe pertence a partir de si mesmo, de modo que o axioma designa aquilo que permanece na mais alta estima não porque um sujeito humano lhe tenha atribuído determinado valor, mas porque seu próprio aspecto abre a visão para a elevação desde a qual todas as demais coisas recebem sua aparência e consideração.