Autoconsciência incorporada na infância

ZAHAVI, Dan; GRÜNBAUM, Thor; PARNAS, Josef. The structure and development of self-consciousness: interdisciplinary perspectives. Amsterdam: J. Benjamins, 2004.

** A autoconsciência corporificada da criança **

1. Os resultados recentes da psicologia do desenvolvimento acerca da experiência infantil de si mesmo e dos outros colocam em questão a concepção sustentada pela teoria-teoria da mente segundo a qual tanto a autoconsciência quanto a intersubjetividade pressupõem necessariamente a posse e a aplicação de uma teoria da mente.

** 1. Teoria da mente **

2. A expressão “teoria da mente”, introduzida por Premack e Woodruff no estudo da intencionalidade dos primatas, designa a capacidade de atribuir estados mentais a si mesmo e aos outros mediante um sistema inferencial considerado teórico porque esses estados não seriam diretamente observáveis e porque sua atribuição permitiria prever o comportamento dos organismos.

3. A teoria-teoria sustenta que a explicação e a previsão do comportamento dependem de uma teoria psicológico-popular acerca da estrutura e do funcionamento da mente, embora seus defensores discordem quanto a essa teoria ser inata e modular ou adquirida e revisável de maneira análoga às teorias científicas.

4. A teoria da simulação rejeita a necessidade de uma teoria psicológica suficientemente completa para fundamentar a compreensão dos outros e sustenta que a interpretação interpessoal depende sobretudo da capacidade de utilizar os próprios recursos motivacionais e emocionais para simular imaginativamente a perspectiva e a atividade mental de outra pessoa.

5. A própria noção de “teoria” empregada pela teoria-teoria permanece heterogênea, podendo designar desde uma teoria em sentido literalmente científico até um conjunto inato de regras de manipulação simbólica, assim como pode referir-se a conhecimento explícito e consciente ou a mecanismos implícitos e tácitos que operam em nível subpessoal.

6. A indeterminação do significado de “teoria” compromete a avaliação adequada do confronto entre teoria-teoria e teoria da simulação, pois uma definição excessivamente ampla aumenta aparentemente a plausibilidade da posição teórica ao preço de tornar o conceito vazio, fazendo com que praticamente toda competência humana, da culinária à jardinagem e à pesca, possa ser qualificada como teórica.

7. A teoria-teoria compreende o domínio dos conceitos mentais como dependente do conhecimento de uma teoria psicológica na qual esses conceitos recebem significado pela posição que ocupam dentro de uma rede teórica, recusando que crenças, desejos e demais estados mentais sejam conhecidos por familiaridade direta ou definição ostensiva.

** 2. Teoria-teoria da autoconsciência **

8. Uma versão da teoria-teoria da autoconsciência sustenta que os próprios estados mentais são conhecidos pelo mesmo mecanismo cognitivo utilizado na atribuição de estados a outras pessoas, de maneira que conhecimento de si e conhecimento dos outros são igualmente mediados pela aplicação de uma teoria da mente, sendo apenas ilusória a impressão de acesso direto aos próprios estados psicológicos.

9. Se a mesma capacidade de leitura da mente fundamenta a atribuição de estados mentais a si e aos outros, deve haver um paralelismo no desenvolvimento dessas duas competências, de modo que o desempenho infantil na compreensão dos próprios estados e dos estados alheios deveria melhorar ou fracassar simultaneamente, razão pela qual tarefas de falsa crença foram amplamente utilizadas para testar empiricamente essa previsão.

10. Na tarefa Sally-Anne, crianças observam Sally colocar uma bola em determinado recipiente, afastar-se e, durante sua ausência, Anne transferir a bola para outro lugar, sendo então perguntado onde Sally procurará o objeto ao retornar; crianças com aproximadamente quatro anos costumam responder segundo a crença falsa de Sally, enquanto crianças menores tendem a apontar o lugar onde a bola efetivamente se encontra, indicando dificuldade em compreender que outra pessoa possa agir segundo uma crença divergente da realidade.

11. Na tarefa dos Smarties, uma caixa cuja aparência sugere conter doces é revelada como contendo lápis e, após ser novamente fechada, pergunta-se o que outra criança ainda não informada sobre seu verdadeiro conteúdo pensará encontrar nela, com crianças de aproximadamente quatro anos atribuindo corretamente a crença falsa de que há doces e crianças menores tendendo a responder segundo seu próprio conhecimento atual de que há lápis.

12. O interesse pelas tarefas de falsa crença decorre da hipótese de que atribuir uma crença falsa exige compreender a diferença entre a realidade e aquilo que um sujeito acredita acerca dela, o que implicaria possuir crenças sobre crenças e, portanto, dispor de uma teoria da mente capaz de explicar como ações podem ser guiadas por representações incorretas da realidade.

13. Uma variante da tarefa dos Smarties destinada a investigar o paralelismo entre atribuições dirigidas a si e aos outros mostrou que muitas crianças de três anos, quando perguntadas sobre aquilo que elas próprias inicialmente acreditavam existir dentro da caixa, afirmaram ter pensado que havia lápis, embora originalmente tivessem acreditado que havia doces, parecendo revelar dificuldade tanto em atribuir falsas crenças passadas a si mesmas quanto em atribuí-las a outras pessoas.

14. Gopnik interpreta esse resultado como evidência de um paralelismo entre a compreensão dos estados psicológicos alheios e a compreensão dos próprios estados imediatamente passados, contrapondo-o à concepção segundo a qual existe uma assimetria fenomenológica fundamental entre o acesso direto aos próprios estados e a inferência dos estados de outras pessoas.

15. A aparência adulta de acesso imediato à própria mente poderia ser explicada, segundo Gopnik e Carruthers, pelo elevado grau de especialização adquirido na leitura da própria mente, pois processos inferenciais teoricamente mediados tornar-se-iam tão rápidos e automatizados que deixariam de ser percebidos como inferências.

16. O paralelismo encontrado nos estudos de falsa crença não justifica, porém, a conclusão abrangente de que toda experiência de estados intencionais depende de uma teoria da mente, pois demonstrar dificuldades infantis na atribuição de falsas crenças presentes a outros e falsas crenças passadas a si não equivale a mostrar que a criança seja incapaz de experienciar crenças ou outros estados intencionais antes de compreender teoricamente sua possibilidade de erro.

17. Nichols e Stich apresentam uma objeção severa à teoria-teoria da autoconsciência ao mostrar que suas principais interpretações enfrentam dificuldades: se somente informações comportamentais acessíveis igualmente aos outros fundamentassem o autoconhecimento, a posição reduzir-se-ia a um behaviorismo implausível; se houvesse informação privada adicional, seria necessário explicar sua natureza; e, se essa informação já fosse conhecimento dos próprios estados mentais, o mecanismo de teoria da mente tornar-se-ia desnecessário.

18. Uma dificuldade adicional decorre do fato de a teoria-teoria sustentar que a familiaridade com a própria mente pressupõe uma teoria da mente enquanto a concepção desenvolvimental padrão situa a aquisição dessa teoria por volta dos quatro anos, quando crianças começam a resolver tarefas clássicas de falsa crença e aparência-realidade, fazendo com que fracassos anteriores sejam interpretados por autores como Baron-Cohen, Frith e Happé como indícios de ausência de autoconsciência propriamente dita.

19. A teoria-teoria da autoconsciência encontra-se ainda vinculada, embora nem sempre explicitamente, a concepções de ordem superior da consciência, segundo as quais um estado mental só se torna fenomenalmente consciente quando é acompanhado por algum estado mental de ordem superior que o toma como objeto.

20. Carruthers explicita essa ligação ao defender que um estado mental só possui qualidade subjetiva consciente quando o sujeito está consciente de possuí-lo, tornando a autoconsciência condição conceitualmente necessária da consciência fenomenal e identificando-a com uma forma de pensamento de ordem superior.

21. A posição de Carruthers implica que animais e crianças menores de aproximadamente três anos não possuem consciência fenomenal nem dimensão propriamente subjetiva, de maneira que não haveria para eles um modo de sentir dor ou prazer, apesar da convicção comum de que ser uma criança pequena, um gato ou um camelo envolve experiências dotadas de qualidades subjetivas.

22. Condicionar toda autoconsciência à posse de teoria da mente, ao domínio do pronome de primeira pessoa ou ao reconhecimento da própria imagem no espelho emprega uma definição excessivamente estreita do fenômeno, pois evidências de autoconsciência infantil anterior à aquisição dessas capacidades constituiriam diretamente uma dificuldade para a teoria-teoria.

** 3. Contraevidências do desenvolvimento **

23. Investigações de Stern, Neisser, Butterworth e Rochat sustentam que a criança possui formas de experiência de si desde o nascimento e rejeitam a antiga concepção, associada a Piaget e outros teóricos, segundo a qual a vida infantil começaria em uma fusão adualista ou estado de indiferenciação no qual ainda não haveria distinção entre si mesmo, mundo e outros.

24. Stern considera que teoria e linguagem transformam e articulam a experiência infantil de si e dos outros, mas não a constituem originariamente, pois desde muito cedo já estariam presentes formas pré-reflexivas e pré-linguísticas de sentido de si, incluindo agência de si, coerência de si, afetividade de si e história de si.

25. A experiência infantil de agência pode ser compreendida mediante duas invariantes experienciais — o sentido de volição que antecede uma ação motora e o retorno proprioceptivo produzido durante sua execução — cuja presença ou ausência permite distinguir ações próprias voluntárias, ações alheias e movimentos do próprio corpo causados externamente.

26. Neisser, Butterworth e Rochat também rejeitam uma origem tardia da autoconsciência, e a distinção de Neisser entre si ecológico, interpessoal, estendido, privado e conceitual atribui primazia ao si ecológico entendido como agente ativo incorporado ao ambiente imediato, cuja presença se manifesta em toda percepção.

27. A percepção de possibilidades de ação, ou affordances, é dimensionada pelo próprio corpo e mostra que até crianças muito pequenas precisam dispor de informação especificadora de si, pois distinguem objetos alcançáveis daqueles situados além de seu alcance e orientam suas ações de acordo com a relação entre posição ambiental, dimensões corporais e capacidades motoras.

28. Experimentos descritos por Rochat mostram que recém-nascidos com apenas cerca de vinte e quatro horas distinguem estimulação tátil externa de autoestimulação acompanhada por propriocepção, respondendo mais intensamente ao toque proveniente de fora e revelando capacidade de discriminar invariantes intermodais que especificam si mesmo e não-si mesmo.

29. O si ecológico infantil é fundamentalmente corporal, pois a exploração espontânea do próprio corpo permite à criança especificar-se progressivamente como agente diferenciado no ambiente, constituindo a experiência corporal precoce o berço da autopercepção e a origem desenvolvimental das formas posteriores de autoconhecimento.

30. Entre aproximadamente quinze e dezoito meses, o desenvolvimento de competências simbólicas e linguísticas permite à criança assumir uma perspectiva mais distanciada sobre si mesma, como demonstra o reconhecimento no espelho, no qual passa a relacionar uma marca percebida na imagem refletida ao próprio rosto e a agir diretamente sobre seu corpo.

31. O sucesso no teste do espelho comprova uma modalidade de autoconsciência, mas seu fracasso não demonstra ausência de autoconsciência, pois reconhecer-se refletido é uma forma sofisticada e representacionalmente mediada de autoidentificação que já pressupõe consciência corporal anterior.

32. As evidências convergem para uma dimensão de experiência corporal de si estabelecida muito antes da resolução de tarefas de teoria da mente, colocando em dificuldade a tese de que toda autoconsciência seja teoricamente mediada e exigindo estender a crítica também à concepção paralela segundo a qual toda intersubjetividade dependeria de leitura teórica da mente.

** 4. Corporificação e intersubjetividade **

33. Crianças possuem autoconsciência corporal e participam de interações sociais muito antes de adquirir uma teoria da mente, mostrando que atribuições inferenciais de estados psicológicos, embora ocorram ocasionalmente na vida adulta, não podem constituir a base da intersubjetividade primária, imediata e fluida observável desde os primeiros meses de vida.

34. Crianças de dois ou três meses participam de “protoconversações” por meio de sorrisos, vocalizações e regulações temporais e intensivas da comunicação, envolvendo uma ressonância afetiva recíproca na qual a própria interação, e não algum objetivo externo, parece constituir inicialmente sua finalidade.

35. Desde muito cedo, objetos e pessoas são experienciados de maneira diferente, pois rostos, vozes e movimentos corporais são apreendidos como parâmetros sociais especiais, e movimentos alheios podem ser percebidos como dirigidos a objetivos e intencionalmente organizados, fazendo com que a interação primária dependa de uma apreensão intuitiva da expressividade dos outros e não de inferências teóricas sobre estados mentais ocultos.

36. Por volta dos nove meses ocorre uma transformação importante pela qual a criança começa a compartilhar com outros não apenas interações face a face, mas também experiências referentes ao mundo, manifestando atenção conjunta, compartilhamento de intenções e referência aos estados afetivos alheios.

37. A atenção conjunta manifesta-se quando a criança acompanha o olhar ou o gesto de apontar de outra pessoa e retorna posteriormente ao rosto dessa pessoa para verificar se ambas atingiram o mesmo alvo, enquanto o compartilhamento de intenções aparece em solicitações protolinguísticas de ajuda e a interafetividade se manifesta quando a reação emocional do cuidador orienta a própria resposta infantil diante de situações ambíguas.

38. A relação entre experiência corporal de si e experiência dos outros torna-se filosoficamente decisiva porque uma concepção da mente que exclua a corporificação e o comportamento corporal da estrutura fundamental da experiência corre o risco de tornar a intersubjetividade incompreensível e de conduzir ao solipsismo.

39. Se a experiência originária de si fosse exclusivamente mental e interior, sem que a corporificação participasse desde o início da familiaridade consigo mesmo, faltaria fundamento para reconhecer outros corpos como sujeitos incorporados, pois a subjetividade seria conhecida apenas no caso próprio e não haveria indicação experiencial que justificasse sua atribuição a seres externamente percebidos.

40. Se o próprio corpo não participar essencialmente da atribuição de estados mentais a si enquanto os estados alheios forem atribuídos com base na corporeidade e no comportamento, os mesmos conceitos psicológicos serão empregados segundo critérios inteiramente heterogêneos e sua unidade semântica ficará ameaçada, problema que pode ser enfrentado recusando a divisão radical entre mente e corpo e reconhecendo na ação uma dimensão anterior a essa separação artificial.

41. Reconhecer o papel constitutivo da ação não implica reduzir a subjetividade ao comportamento, pois ações são precisamente ações de sujeitos dotados de mente, sendo necessário conservar as diferenças entre perspectivas de primeira, segunda e terceira pessoas sem transformá-las numa separação tão radical que as experiências dos outros se tornem entidades meramente hipotéticas ocultas por seus comportamentos.

42. Merleau-Ponty vincula diretamente corporificação e intersubjetividade ao sustentar que a subjetividade é essencialmente corporificada e, por isso, não coincide nem com um sujeito puro nem com um objeto puro, mas constitui um modo de existência que atravessa essa oposição e permite que a autoconsciência contenha desde o início uma abertura à alteridade.

43. A função constitutiva do comportamento corporal, da expressão e da ação para formas fundamentais da consciência não significa identificar consciência com comportamento, mas reconhecer que determinados estados mentais são apreendidos diretamente nas expressões corporais dos sujeitos e não acrescentados posteriormente por inferência intelectual a movimentos inicialmente destituídos de significado.

44. A compreensão dos outros permanece falível e frequentemente deixa indeterminadas suas crenças e intenções específicas, mas essa incerteza cotidiana é radicalmente diferente do ceticismo solipsista acerca da própria existência das outras mentes, pois a relação fundamental com os outros é mais originária do que qualquer dúvida particular acerca daquilo que estejam pensando.

** 5. Reservas fenomenológicas **

45. Embora razões filosóficas e empíricas sustentem que a consciência corporal constitui genuína experiência de si, as interpretações de Rochat, Butterworth, Neisser e Stern nem sempre esclarecem adequadamente a natureza dessa autoconsciência.

46. Rochat distingue corretamente experiência de si, experiência de objetos e experiência de outras pessoas como classes fenomenologicamente distintas, mas enfraquece essa distinção ao tratar posteriormente o próprio corpo como objeto de exploração e a autopercepção como simples diferenciação do corpo próprio em relação aos demais objetos ambientais.

47. Butterworth distingue desenvolvimentalmente a autoconsciência proprioceptiva das formas reflexivas de ordem superior, mas ainda caracteriza o si ecológico como objeto da própria percepção e a consciência primária como percepção de si enquanto coisa ou objeto situado no ambiente físico e social.

48. Neisser também descreve repetidamente o si como objeto e, embora reconheça que o si ecológico não seja objeto do pensamento, continua a concebê-lo como objeto da percepção.

49. A descrição multifacetada de Stern apresenta tendência objetivista semelhante ao sugerir ocasionalmente que a experiência infantil de si decorre da capacidade geral de discriminar entidades distintas e de reconhecer padrões invariantes que diferenciam os próprios movimentos e experiências daqueles pertencentes a outras pessoas.

50. A simples capacidade de discriminar configurações ou entidades não explica como determinada configuração experiencial é vivida precisamente como pertencente ao próprio sujeito, e transformar a autoconsciência numa identificação correta entre diferentes objetos equivale a imaginar erroneamente que a criança recebe inicialmente experiências neutras e somente depois identifica algumas delas como suas.

51. Conceber o si corporal como objeto e a autoconsciência corporal como consciência de objeto é inadequado porque todo objeto se apresenta como algo distinto e transcendente em relação à experiência subjetiva que o apreende, enquanto a autoconsciência deve justamente proporcionar familiaridade com a própria subjetividade e não simplesmente introduzir mais um objeto no campo experiencial.

52. A mesma dificuldade afeta uma interpretação objetivista da introspecção, pois identificar o objeto introspectivamente observado como sendo o próprio sujeito pressupõe já saber quem realiza a introspecção, e esse saber não pode resultar novamente de outra identificação sem produzir regressão infinita.

53. A principal insuficiência comum às análises de Stern, Rochat e Butterworth consiste, portanto, em tratar o si corporificado como objeto e a autoconsciência corporal como consciência objetual, enquanto a fenomenologia oferece recursos para conceber uma modalidade mais originária de familiaridade consigo mesmo.

54. A fenomenologia emprega uma concepção ampla de autoconsciência segundo a qual ela não começa apenas com a construção de teorias sobre as causas do próprio comportamento, com a introspecção deliberada, com o reconhecimento especular, com o domínio do pronome de primeira pessoa ou com o conhecimento narrativo da própria biografia, mas pertence tacitamente à própria estrutura da experiência consciente.

55. A estreita relação entre consciência e autoconsciência não é exclusiva da fenomenologia, pois teorias de ordem superior também sustentam que a diferença entre estados conscientes e não conscientes depende de algum tipo de relação da mente consigo mesma, normalmente mediante um estado metamental que toma outro estado como objeto.

56. Apesar dessa semelhança superficial, a concepção fenomenológica difere radicalmente das teorias de ordem superior porque nega que a autoconsciência presente em toda experiência consciente resulte de reflexão, introspecção, monitoramento ou de um segundo estado mental dirigido ao primeiro, considerando-a antes uma característica intrínseca da própria experiência primária.

57. A existência dessa autoconsciência pré-reflexiva não exclui modalidades mais complexas de relação consigo mesmo dependentes de linguagem, teoria e constituição intersubjetiva, mas estabelece que a autoconsciência primitiva própria da consciência fenomenal independe dessas formas cognitivamente sofisticadas.

58. A análise fenomenológica complementa as evidências da psicologia do desenvolvimento porque enfrenta explicitamente a relação entre autoconsciência e dimensão experiencial, aspecto que não pode ser estabelecido apenas mediante observações comportamentais, uma vez que atribuir autoconsciência exige não somente identificar determinado comportamento, mas reconhecer que ele decorre de experiências vividas pelo sujeito.

59. A análise fenomenológica da autoconsciência corporificada deve partir do modo originário de doação do corpo, que normalmente não aparece como objeto temático enquanto a atenção se dirige às coisas e finalidades do mundo, pois movimentos corporais permanecem pré-reflexivamente presentes e funcionais mesmo quando não são explicitamente observados.

60. O próprio corpo não se oferece originariamente como mais um objeto perspectivamente percebido entre outros, mas como a perspectiva corporal permanente a partir da qual objetos podem ser percebidos, razão pela qual não é necessário localizá-lo previamente para agir e por que, em sentido fenomenológico, inicialmente não se percebe o corpo: vive-se corporalmente como ele.

61. A consciência corporal pré-reflexiva deve, portanto, ser compreendida como modo pelo qual a consciência corporificada é dada a si mesma enquanto sujeito e não como percepção de um objeto corporal, de maneira que, contra a concepção segundo a qual a propriocepção somática teria o si corporificado como seu objeto, a fenomenologia a interpreta como genuína modalidade de experiência de si.

** 6. Conclusão **

62. A teoria-teoria sustenta que tanto a compreensão dos estados mentais dos outros quanto o acesso à própria mente dependem dos mesmos mecanismos cognitivos de leitura mental e da aplicação de uma teoria da mente, mas, como essa teoria seria adquirida apenas aproximadamente aos quatro anos, a posição termina por negar às crianças menores formas próprias de experiência de si e dos outros.

63. Essa conclusão enfrenta dificuldades empíricas e conceituais decisivas porque as evidências do desenvolvimento indicam que crianças possuem desde muito cedo uma experiência corporal de si e são capazes de interações sociais sofisticadas muito antes de resolverem tarefas de teoria da mente.

64. A articulação entre esses resultados empíricos e a tradição fenomenológica oferece uma alternativa mais consistente, pois a fenomenologia sustenta simultaneamente que a intersubjetividade pressupõe corporificação e experiência corporal de si e que a autoconsciência primária não constitui uma forma de consciência objetual, de maneira que a combinação das investigações de Stern, Neisser, Butterworth e Rochat com as análises de Husserl, Sartre, Merleau-Ponty e Wittgenstein constitui um desafio substancial à teoria-teoria da mente.