ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, metaphysics, and transcendental philosophy. Oxford: Oxford university press, 2017.
1. A afirmação husserliana de que questões metafísicas não pertencem ao âmbito imediato das Investigações lógicas introduz um problema interpretativo decisivo acerca da relação entre fenomenologia e metafísica, pois não é evidente se a fenomenologia deve ser considerada metafisicamente neutra, preliminar à metafísica, já uma modalidade de metafísica ou mesmo a culminação de determinada tradição metafísica.
2. A dificuldade de responder de maneira unívoca decorre sobretudo da polissemia do próprio conceito de metafísica, empregado de modos muito diferentes inclusive no interior da tradição fenomenológica, de maneira que as posições de Heidegger, Levinas, Sartre e Derrida revelam orientações profundamente divergentes.
3. A análise deve concentrar-se na posição do próprio Husserl e distinguir a fenomenologia descritiva pré-transcendental das Investigações lógicas de sua posterior fenomenologia transcendental, pois a realização da virada transcendental modifica profundamente a ideia inicial de que a suspensão das questões relativas à existência e ao ser serviria para assegurar uma neutralidade metafísica da fenomenologia.
** 2.1 Metafísica nas Investigações lógicas **
4. Nas Investigações lógicas, o projeto husserliano consiste em fornecer novos fundamentos à lógica pura e à epistemologia mediante uma teoria do conhecimento capaz de explicitar as condições de possibilidade do conhecimento objetivo, sem transformar em problema epistemológico a questão metafísica de saber se existe uma realidade independente da consciência.
5. Diversas passagens das Investigações lógicas reiteram essa separação ao caracterizar a fenomenologia como investigação neutra, colocar as questões epistemológicas antes de qualquer metafísica e atribuir às seis investigações uma ausência de pressuposições metafísicas.
6. Husserl rejeita na Segunda Investigação definições metafísicas do ser-em-si (An-sich-sein) como realidade transcendente e independente da consciência, sustenta na Quinta Investigação que a diferença descritiva entre experiência e objeto permanece válida independentemente de qualquer teoria sobre o ser-em-si e critica na Sexta Investigação a contaminação metafísica da epistemologia kantiana, defendendo que a compreensão da relação entre leis naturais e leis racionais exige esclarecimentos fenomenológicos do significado, do pensamento e do conhecimento, e não construções metafísicas.
7. A orientação descritiva da fenomenologia pode, assim, ser diretamente associada à sua neutralidade metafísica, pois sua tarefa inicial é esclarecer estruturas e modos de doação sem formular explicações especulativas acerca da constituição última da realidade.
** 2.2 Realismo — idealismo **
8. A neutralidade metafísica das Investigações lógicas implica que a oposição entre realismo metafísico e idealismo metafísico deve permanecer metodologicamente suspensa, já que ambos procuram responder à questão, considerada extrafenomenológica nesse estágio, acerca da existência e independência da realidade externa.
9. A interpretação realista da primeira fenomenologia husserliana possui longa tradição, tendo sido sustentada por discípulos de Göttingen e posteriormente por autores como Levinas e D. W. Smith, que viram na teoria inicial da intencionalidade uma forma de realismo segundo a qual o mundo existe independentemente da consciência e suas essências podem ser conhecidas pela percepção e pelo juízo.
10. A teoria husserliana da intencionalidade não oferece, contudo, fundamento suficiente para uma conclusão metafisicamente realista, pois a relação entre ato e objeto é intencional, e não real ou causal, e a própria intencionalidade pertence intrinsecamente à consciência independentemente de o objeto intencionado existir efetivamente.
11. A crítica husserliana ao representacionalismo também foi interpretada como indício de realismo, sobretudo porque a consciência estaria, de início e na maior parte das vezes (Zunächst und Zumeist), dirigida às próprias coisas e não a intermediários mentais, mas o antirrepresentacionalismo perceptivo não implica necessariamente realismo metafísico.
12. A afirmação de que objeto intencional e objeto efetivo coincidem não significa que todo objeto intencional exista realmente, mas apenas que, quando o objeto pretendido existe, é justamente esse objeto existente, e não uma representação intermediária, que constitui o objeto intencional.
13. A diferença entre objetos meramente intencionados e objetos existentes permanece descritiva e não metafísica, pois “existente” designa nesse contexto um modo privilegiado de doação e não a afirmação de uma realidade independente da mente.
14. Uma interpretação idealista das Investigações lógicas também encontra dificuldades, sobretudo porque Husserl rejeita expressamente o fenomenalismo por confundir a aparição enquanto experiência intencional com o objeto que aparece e, assim, reduzir as propriedades objetivas a complexos de sensações subjetivas.
15. Herman Philipse procura contornar essa rejeição explícita interpretando Husserl como fenomenalista e idealista redutivo, apoiando-se na passagem da primeira edição segundo a qual as coisas do mundo fenomenal seriam constituídas da mesma “matéria” que as sensações.
16. Philipse reconhece a suspensão husserliana das questões metafísicas, mas sustenta que a discussão da coisa em si (Ding an sich) mostraria um compromisso metafísico efetivo com o idealismo redutivo, já que a coisa em si seria tratada como possível objeto intencional e, portanto, assimilada ao domínio fenomenal.
17. Essa interpretação depende, porém, de uma leitura equivocada da noção husserliana de perfil ou adumbramento (Abschattung), pois Husserl distingue rigorosamente aquilo que pertence à experiência perceptiva daquilo que pertence ao objeto percebido.
18. A distinção entre propriedades objetivas e sensações já é explicitada nas Investigações lógicas, onde Husserl adverte contra o uso ambíguo de termos como “cor”, “lisura” e “forma” tanto para propriedades das coisas quanto para sensações pelas quais essas propriedades são apresentadas.
19. Na Quinta Investigação, Husserl distingue ainda mais claramente o aparecer perceptivo (Wahrnehmungserscheinung) do objeto percebido, pois o primeiro é vivido imanentemente como componente da experiência enquanto o segundo é aquilo que efetivamente aparece e é percebido.
20. A interpretação redutivamente idealista segundo a qual o objeto nada seria além de um complexo de sensações revestido de exterioridade por uma interpretação objetivante contradiz explicitamente a fenomenologia husserliana, que considera falsa a tese de que a diferença entre conteúdo consciente e objeto externo seja mera diferença no modo de tratar o mesmo material.
21. A referência husserliana à coisa em si (Ding an sich) tampouco rompe a neutralidade metafísica, pois dentro da fenomenologia descritiva essa expressão pode designar simplesmente aquilo que preencheria o sentido da intenção perceptiva, sem qualquer compromisso com uma teoria metafísica acerca de uma realidade transcendente independente da consciência.
** 2.3 Libertação ou restrição **
22. A neutralidade metafísica pode ser interpretada como força filosófica, como faz Jocelyn Benoist ao atribuir às Investigações lógicas a descoberta de uma concepção não mentalista de fenômeno e aparição capaz de situar a fenomenologia para além do representacionalismo, do fenomenalismo e até mesmo da oposição tradicional entre idealismo e realismo.
23. A fenomenologia, nessa interpretação, não examina introspectivamente um inventário mental, mas investiga a própria estrutura da doação, dimensão mais fundamental que antecede e possibilita discussões posteriores acerca de realidade, idealidade, subjetividade e objetividade.
24. A neutralidade metafísica não deve, portanto, ser confundida com impotência filosófica, pois é compatível com críticas a posições metafísicas determinadas, como evidencia a rejeição husserliana do fenomenalismo; ainda assim, permanecem dificuldades relativas à consistência textual das Investigações lógicas, à própria interpretação de Benoist e às consequências restritivas dessa neutralidade.
25. Heidegger já observava em 1919 que a autointerpretação metodológica de Husserl nas Investigações lógicas não correspondia inteiramente às análises efetivamente realizadas, sendo necessário distinguir as declarações programáticas husserlianas do movimento filosófico concreto da obra.
26. Algumas declarações programáticas das Investigações lógicas restringem expressamente a fenomenologia aos conteúdos imanentes (reell) dos atos e determinam que o interesse teórico se afaste dos objetos para concentrar-se nas próprias experiências.
27. As próprias Investigações lógicas contêm, contudo, uma orientação oposta, pois Husserl reconhece que o ato possui conteúdo imanente e conteúdo intencional ideal, afirma que a referência objetiva é uma característica descritiva do próprio ato e efetivamente analisa continuamente a correlação entre experiência e objeto intencional.
28. A inclusão da objetividade intencional no campo fenomenológico não contradiz necessariamente a insistência posterior de Husserl na imanência, porque A ideia da fenomenologia distingue dois sentidos fundamentalmente diferentes de imanência e transcendência.
29. A avaliação das Investigações lógicas depende inevitavelmente de sua relação com a posterior fenomenologia transcendental, mas essa transformação não deve ser interpretada simplesmente como passagem de um realismo metafísico inicial para um idealismo metafísico posterior, pois o primeiro Husserl não sustentava o realismo metafísico que essa narrativa pressupõe.
30. A leitura de Benoist pode parecer transcendental quando compreende a nova noção de doação como horizonte mais fundamental no interior do qual podem ser colocadas questões acerca de realidade, idealidade, subjetividade e objetividade e quando afirma que a análise da intencionalidade deve abranger simultaneamente ato e objeto.
31. Benoist, porém, rejeita explicitamente essa interpretação transcendental e sustenta que a correlação entre manifestação e aquilo que se manifesta já pertence à descrição pura, sem exigir uma fundamentação ou dedução subjetiva transcendental.
32. A resistência de Benoist parece depender de uma concepção demasiado estreita e especificamente kantiana de transcendentalidade, pois reconhecer que o projeto das Investigações lógicas difere de Kant não implica negar qualquer dimensão transcendental, sobretudo porque a própria fenomenologia transcendental madura de Husserl também não coincide simplesmente com o projeto kantiano.
33. A questão decisiva consiste em saber se a neutralidade metafísica das Investigações lógicas liberta a fenomenologia de pseudoproblemas ou a impede de enfrentar questões filosoficamente importantes, sendo possível distinguir pelo menos três avaliações diferentes.
34. Essas três reações não são necessariamente incompatíveis, pois diferentes problemas classificados como metafísicos podem ter estatutos distintos: alguns podem constituir pseudoproblemas a serem abandonados, outros podem efetivamente exceder o alcance da fenomenologia e outros ainda podem ser legitimamente abordados por ela.
35. A neutralidade metafísica inicial produz, entretanto, uma dificuldade epistemológica concreta ao afirmar que a existência independente do objeto intencional é fenomenologicamente irrelevante e que a estrutura intrínseca do ato permanece a mesma existindo ou não seu objeto.
** 2.4 Metafísica e teoria da ciência **
36. As aulas Introdução à lógica e à teoria do conhecimento, de 1906–1907, constituem um momento decisivo da emergência da fenomenologia transcendental porque desenvolvem o método da redução iniciado nos manuscritos de Seefeld e oferecem uma reflexão mais elaborada sobre o estatuto da metafísica do que aquela encontrada nas Investigações lógicas.
37. Husserl mantém inicialmente a diferença entre metafísica, voltada ao ser real espaço-temporal, e teoria da ciência ou ontologia formal, cujo âmbito é muito mais amplo por incluir qualquer tipo de ser passível de predicação, inclusive entidades ideais como números, conceitos, proposições, teorias e ideias estéticas.
38. Os problemas mais profundos do conhecimento passam a ser explicitamente vinculados aos problemas transcendentais, cuja solução é apresentada como condição para a possibilidade de uma metafísica científica.