Introspecção e reflexão

ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, metaphysics, and transcendental philosophy. Oxford: Oxford university press, 2017.

1. A identificação da fenomenologia com uma restauração do método de observação interior ou com alguma modalidade privilegiada de experiência interna constitui, na perspectiva husserliana, uma concepção fundamentalmente equivocada acerca da natureza e das finalidades da investigação fenomenológica.

** 1.1 Preocupações metodológicas **

2. O desenvolvimento extraordinário da psicologia no século XIX, impulsionado por pesquisadores como Müller, Helmholtz, Hering, Fechner e Wundt, consolidou-a como empreendimento científico fortemente modelado pelas ciências naturais e sobretudo pela fisiologia, mas essa orientação naturalista passou a ser contestada por sua tendência a tratar a consciência como simples objeto mundano e por sua incapacidade de fazer justiça à dimensão experiencial e à subjetividade.

3. As Investigações lógicas inauguraram a fenomenologia como novo método de investigação da consciência, tendo como um de seus objetivos centrais compreender sua intencionalidade, isto é, o fato de perceber, pensar e julgar serem sempre atos dirigidos a algo, embora o interesse pela descrição da vida psíquica e pela intencionalidade já estivesse presente em Franz Brentano, de quem Husserl posteriormente se distanciou de maneira decisiva.

4. A análise husserliana da intencionalidade sustenta que toda experiência intencional pertence a uma modalidade específica — perceber, julgar, esperar, desejar, lamentar, recordar, afirmar, duvidar, admirar-se ou temer —, dirige-se de maneira determinada a um objeto e somente pode ser analisada considerando seu correlato objetivo, sendo essa investigação empreendida para estabelecer novos fundamentos para a lógica e a epistemologia sem, contudo, recair no psicologismo.

5. O psicologismo procura subordinar a epistemologia e a lógica à psicologia ao argumentar que perceber, crer, julgar, conhecer e raciocinar são fenômenos psíquicos e que, por conseguinte, as próprias leis lógicas deveriam ser compreendidas como regularidades psicológicas cuja validade seria empiricamente determinada.

6. A crítica husserliana ao psicologismo depende da distinção rigorosa entre o ato de conhecer e o objeto conhecido, pois uma coisa percebida possui propriedades inteiramente distintas da percepção que a apresenta, assim como verdades, princípios e leis lógicas não podem ser identificados com os processos psíquicos temporais pelos quais são apreendidos.

7. A crítica ao psicologismo não impede que a fenomenologia retorne sistematicamente à consciência, e a caracterização inicial da fenomenologia como “psicologia descritiva” nas Investigações lógicas poderia sugerir que se trata apenas de um novo método psicológico, embora essa interpretação não faça justiça ao desenvolvimento posterior do projeto husserliano.

8. A importância conferida pela fenomenologia à perspectiva de primeira pessoa favoreceu sua identificação com a psicologia introspectiva, interpretação que se tornou suficientemente difundida para que o próprio termo “fenomenológico” passasse a designar descrições diretas da consciência baseadas em introspecção e que continua presente em críticas como a hetero-fenomenologia de Daniel Dennett.

9. A crítica de Dennett atribui a falta de consenso fenomenológico à suposta precariedade da introspecção, considerada mais propensa à teorização, fabricação e confabulação do que à observação, e caracteriza a fenomenologia clássica como uma “autofenomenologia” marcada por solipsismo metodológico e incapacidade de satisfazer as exigências de uma ciência propriamente dita.

10. A caracterização de Dennett permanece baseada em observações fragmentárias e não em análise sistemática da tradição fenomenológica, apesar de sua familiaridade declarada com Husserl e outros fenomenólogos adquirida mediante Dagfinn Føllesdal e Gilbert Ryle, circunstância que torna particularmente problemática sua rejeição categórica da fenomenologia como obscurantista.

11. A reivindicação de que uma interpretação equivocada de Husserl seria prejudicial ao próprio Husserl, e não à interpretação, torna-se especialmente difícil de sustentar quando a acusação principal consiste precisamente em atribuir ao filósofo uma metodologia científica fatalmente defeituosa.

12. Thomas Metzinger formula uma objeção semelhante ao declarar a fenomenologia impossível porque dados de primeira pessoa não satisfariam os critérios epistemológicos dos dados científicos, que deveriam ser produzidos por procedimentos técnicos intersubjetivamente definidos, publicamente criticáveis e passíveis de verificação independente.

13. A identificação entre reflexão fenomenológica e introspecção também é defendida positivamente por autores associados ao método da entrevista de elicitação, como Vermersch, Petitmengin e Bitbol, para os quais a proximidade entre fenomenologia e investigação psicológica introspectiva demonstraria a relevância de Husserl como psicólogo.

14. A introspecção clássica de Titchener produz descrições minuciosas e idiossincráticas de imagens e sensações suscitadas por determinadas palavras, enquanto métodos contemporâneos de elicitação procuram ampliar progressivamente o campo atencional para revelar gestos, sensações corporais, emoções e atmosferas afetivas inicialmente despercebidas durante uma experiência.

15. A concepção segundo a qual uma descrição fenomenológica deveria ser validada pela reencenação individual do processo experiencial que a originou conduz à questão de saber se a fenomenologia husserliana deve realmente ser entendida como coleção de descrições extremamente finas de segmentos temporais da experiência e se técnicas destinadas a descobrir detalhes antes despercebidos tornariam alguém filosoficamente um fenomenólogo melhor.

16. O retorno às próprias obras de Husserl mostra que as Investigações lógicas, reconhecidas como marco fundador da fenomenologia, ocupam-se de problemas como a crítica do psicologismo, a idealidade do significado, as representações pictóricas, as relações entre partes e todo, a gramática pura, a intencionalidade e a relação epistemológica entre conceitos e intuições, temas que não podem ser reduzidos a relatos introspectivos de experiências interiores.

17. As controvérsias internas à fenomenologia são filosóficas e não disputas acerca de dados introspectivos concorrentes, como evidencia o fato de análises husserlianas terem sido criticadas, desenvolvidas e reformuladas por Sartre, Heidegger, Levinas e Derrida mediante argumentos filosóficos e não pela apresentação de observações interiores supostamente superiores.

18. Embora se interesse pela consciência experiencial e por sua dimensão em primeira pessoa, a fenomenologia não procura registrar experiências particulares e idiossincráticas, mas investigar estruturas invariantes da experiência e questões de princípio acerca de fenômenos como o caráter apresentativo da percepção, a temporalidade e a diferença entre empatia e simpatia.

19. A fenomenologia pode ser caracterizada como investigação eidética e a priori das estruturas da consciência, destinada a compreender aquilo que caracteriza essencialmente perceber, imaginar, recordar e julgar e as relações existentes entre esses atos, embora o acesso individual à experiência vivida continue desempenhando alguma função na investigação dessas estruturas invariantes.

20. A simples realização de análises eidéticas refinadas da consciência ainda não basta, segundo Husserl, para distinguir a fenomenologia de uma psicologia eidética, pois uma investigação pode alcançar estruturas universais da experiência e continuar permanecendo inteiramente no nível psicológico.

21. A diferença decisiva entre psicologia e fenomenologia reside em que a primeira, como as demais ciências positivas, opera a partir de pressupostos metafísicos e mundanos aceitos na atitude natural, enquanto a fenomenologia transforma esses pressupostos em problemas e desenvolve uma investigação transcendental acerca das próprias condições de manifestação, validade e inteligibilidade do mundo.

22. O caráter transcendental da fenomenologia decorre da correlação entre transcendência e transcendentalidade e de sua tentativa de esclarecer como algo pode constituir-se como transcendente, verdadeiro, válido e objetivo para uma subjetividade que somente dispõe de acesso em primeira pessoa.

23. Merleau-Ponty também distingue em princípio fenomenologia e psicologia introspectiva ao sustentar que esta investiga a consciência como um setor particular do ser, enquanto a fenomenologia reconhece que a própria consciência não pode ser compreendida sem colocar em questão a aceitação ingênua da existência absoluta do mundo e sem investigar transcendentalmente sua constituição.

24. A fenomenologia situa-se, apesar de suas diferenças internas, em um horizonte kantiano ou pós-kantiano segundo o qual a relação cognitiva com a realidade não consiste no mero espelhamento de um mundo previamente constituído, mas exige investigar as condições mediante as quais objetos podem aparecer e contar como reais e objetivos.

25. A atitude crítica fenomenológica desloca, portanto, a investigação dos objetos simplesmente tomados como existentes para o horizonte de sentido e inteligibilidade que torna possível qualquer investigação objetiva, perguntando como a própria objetividade é constituída e como um mundo pode manifestar-se originariamente.

26. A compreensão mais completa da metodologia husserliana exige examinar especificamente o papel da reflexão, pois sua utilização permite esclarecer tanto o alcance quanto a especificidade filosófica da fenomenologia.

** 1.2 O alcance da reflexão **

27. Em Ideias I, Husserl denomina reflexão tanto o ato mediante o qual uma experiência pode ser analisada quanto um procedimento metodológico geral da fenomenologia, chegando a atribuir à própria disciplina a tarefa de investigar reflexivamente o funcionamento da reflexão, sem que isso implique que reflexão seja simplesmente sinônimo de introspecção ou tentativa de apreender estados mentais interiores em estado puro.

28. Bergson sustenta que a razão e a análise tornam o fluxo vivido acessível ao isolá-lo, imobilizá-lo e espacializá-lo, mas justamente por isso deformam a vida verdadeira da consciência, cujo caráter dinâmico e processual excederia necessariamente toda delimitação conceitual.

29. A linguagem transforma, segundo Bergson, percepções, pensamentos e emoções profundamente pessoais e continuamente mutáveis em elementos impessoais relacionados exteriormente, impondo distinções descontínuas semelhantes às existentes entre objetos materiais e sacrificando as nuances singulares da vida experiencial a conceitos gerais uniformizadores.

30. Embora Sartre e Schutz tenham valorizado aspectos da análise bergsoniana e este último tenha comparado o esforço de voltar-se para o fluxo interior com a redução fenomenológica, uma comparação mais rigorosa evidencia diferenças importantes entre Bergson e Husserl, sobretudo quanto à relação entre linguagem, reflexão e experiência.

31. Husserl considera as discussões linguísticas filosoficamente indispensáveis para esclarecer os verdadeiros objetos da lógica e suas diferenciações essenciais, atribuindo à fenomenologia a tarefa de levar à expressão conceitual pura as essências e conexões intuitivamente dadas, posição que se afasta profundamente da desconfiança bergsoniana diante da linguagem.

32. A linguagem pode efetivamente induzir erros, como quando a estrutura gramatical semelhante de “vejo um gato”, “ouço um violino” e “sinto uma dor” sugere uma separação igualmente nítida entre ato e objeto nos três casos, embora a experiência dolorosa não apresente necessariamente a mesma estrutura sujeito-objeto que uma percepção externa; entretanto, a linguagem também permite identificar, formular e criticar justamente essas confusões.

33. A posição bergsoniana incorre numa dificuldade metodológica porque utiliza precisamente linguagem e conceitos para descrever uma dimensão da consciência que declara essencialmente inexprimível, realizando no próprio discurso aquilo que sua teoria considera incapaz de preservar adequadamente a experiência.

34. Husserl reconhece que toda reflexão modifica inevitavelmente a experiência sobre a qual incide, mas rejeita que essa transformação seja necessariamente tão radical que torne impossível reconhecer ou conhecer a experiência original, conservando assim a possibilidade de uma reflexão cognitivamente válida.

35. A objeção cética formulada por H. J. Watt questiona como a fenomenologia poderia garantir que estruturas experienciais conhecidas reflexivamente correspondam à experiência tal como era vivida antes de se tornar objeto da reflexão, uma vez que aquilo que se pretende descrever em sua imediaticidade pré-teórica somente se torna disponível como objeto já modificado pelo conhecimento reflexivo.

36. A resposta husserliana considera autodestrutivo o ceticismo que afirma ser toda reflexão necessariamente deformadora, pois a própria afirmação cética é reflexiva e pressupõe simultaneamente conhecimento da reflexão, do domínio pré-reflexivo e da diferença entre ambos que pretende declarar epistemicamente inacessíveis.

37. A rejeição desse ceticismo não significa afirmar que toda reflexão seja infalível, mas apenas que ela não pode ser constitutivamente enganosa, pois permanece condicionada por aquilo que foi vivido pré-reflexivamente e deve responder a fatos experienciais que não produz arbitrariamente.

38. A reflexão não reproduz simplesmente a experiência vivida em estado intacto, mas a transforma e altera, sendo precisamente essa diferença em relação à experiência originária que lhe confere valor cognitivo, pois uma duplicação completamente fiel acrescentaria pouco ou nada ao que já estivesse imediatamente presente.

39. A transformação reflexiva pode simultaneamente explicitar estruturas implicitamente presentes na experiência pré-reflexiva e introduzir uma espécie de duplicação, fratura ou divisão de si pela qual o sujeito se distancia de seus próprios estados e adquire a possibilidade de submetê-los a avaliação crítica.

40. O potencial crítico da reflexão mostra que seu emprego fenomenológico possui finalidade muito mais ampla do que acumular relatos introspectivos, pois Husserl a relaciona à distinção ontológica fundamental entre o ser da consciência e o ser daquilo que se manifesta à consciência, isto é, entre ser transcendental e ser transcendente, sem separar esses dois polos de sua correlação essencial.

41. A investigação fenomenológica pode distinguir uma dimensão hilética, uma dimensão noética e uma dimensão noemática, examinando respectivamente conteúdos sensíveis desprovidos de intencionalidade própria, atos ou apreensões portadores de intencionalidade que conferem sentido e correlatos objetivos tal como são constituídos e dados à consciência.

42. A descrição fenomenológica parte do mundo vivido e diferencia experiências como saborear café ou cacau, ouvir um clarinete ou ver uma pomba e afirmar ou negar uma proposição não mediante uma retirada introspectiva para objetos mentais internos, mas atentando para os diferentes modos pelos quais objetos e estados de coisas mundanos se apresentam.

43. Na atitude fenomenológica, objetos públicos como árvores, planetas, pinturas, sinfonias, números, estados de coisas e relações sociais continuam sendo investigados, mas são considerados enquanto experienciados e correlacionados aos modos subjetivos de sua manifestação, revelando simultaneamente a estrutura dos atos intencionais e o próprio sujeito como aquele a quem algo aparece.

44. A reflexão fenomenológica investiga tanto estruturas experienciais quanto objetos experienciados e o a priori correlacional entre os objetos e seus diferentes modos de doação, procurando tornar inteligível a relação entre subjetividade constituinte e objetividade constituída que permanece não tematizada nas ciências positivas.

45. A investigação husserliana da subjetividade não constitui finalidade autônoma nem decorre simplesmente da necessidade de incluir a primeira pessoa no estudo dos fenômenos mentais, mas integra um projeto filosófico transcendental destinado a compreender como objetos físicos, modelos matemáticos, processos químicos, relações sociais e produtos culturais podem aparecer com os sentidos e as validades que efetivamente possuem.

46. Reconhecer a familiaridade em primeira pessoa com a própria vida experiencial e a importância epistemológica de sua articulação reflexiva não implica reduzir a fenomenologia à descoberta indefinida de aspectos cada vez mais sutis da experiência, pois a acumulação de descrições não substitui o trabalho sistemático e argumentativo necessário para tratar problemas filosóficos como a relação entre intencionalidade perceptiva e racionalidade científica, entre evidência e verdade ou a possibilidade do ceticismo global.

47. O encontro de Royaumont de 1958 entre representantes da filosofia analítica, como Gilbert Ryle, J. L. Austin, W. V. O. Quine, Bernard Williams e Peter Strawson, e fenomenólogos como Jean Wahl, Maurice Merleau-Ponty e H. L. Van Breda evidenciou dificuldades profundas de comunicação entre as tradições, exemplificadas pela incompreensão da tese strawsoniana de que o uso linguístico constitui dado central para a investigação filosófica dos pensamentos e conceitos.

48. A rejeição da interpretação introspectiva de Husserl ainda precisa enfrentar a aparente tensão representada pelo uso da epoché, da redução e da linguagem da imanência, uma vez que o próprio Husserl exige evidência transparente na consciência, fala de uma investigação abrangente de si e recupera a máxima agostiniana segundo a qual a verdade habita no homem interior.

49. A compreensão definitiva da metodologia husserliana exige, portanto, avançar para uma análise mais cuidadosa de seu caráter transcendental, examinar as acusações de internalismo e solipsismo metodológico e esclarecer primeiramente a relação entre fenomenologia e metafísica.