Desafio naturalista

ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, metaphysics, and transcendental philosophy. Oxford: Oxford university press, 2017.

1. A máxima délfica gnothi seauton adquire novo significado quando a ciência positiva é compreendida como ciência perdida no mundo, tornando necessário perder metodologicamente esse mundo mediante a epoche para recuperá-lo numa autorreflexão universal, segundo a orientação agostiniana de retornar à interioridade na qual habita a verdade. 2. Uma transformação marcante da filosofia do século XX pode ser descrita como passagem de um antinaturalismo explicitamente defendido no início do século por pensadores como Frege e Husserl para uma situação contemporânea em que o naturalismo passou a funcionar, sobretudo na filosofia analítica, como posição metafísica presumida por padrão.

3. O naturalismo contemporâneo não significa simplesmente rejeitar o sobrenatural, mas alinhar descrição, explicação, justificação e ontologia às ciências naturais, segundo a formulação de Sellars de que, no domínio da explicação do mundo, a ciência constitui a medida daquilo que é e daquilo que não é.

4. A virada naturalista possui consequências metafilosóficas profundas ao reconfigurar a relação entre filosofia e ciência, como mostra a concepção de Francis Crick segundo a qual problemas da consciência deveriam ser resolvidos experimentalmente e não por argumentação filosófica geral.

5. Mesmo que nem todos os naturalistas aceitem uma subordinação tão radical da filosofia, o naturalismo inevitavelmente pressiona a pretensão de que a filosofia, inclusive a fenomenologia, possa oferecer contribuição própria e irredutível ao conhecimento da realidade. 6. O confronto com o naturalismo acompanha a fenomenologia desde o início, atravessando a crítica husserliana ao psicologismo nas Investigações lógicas, o manifesto Filosofia como ciência rigorosa, as aulas Natureza e espírito e a Crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, tornando especialmente problemática a proposta contemporânea de naturalizar a própria fenomenologia.

** 5.1 Naturalizando a fenomenologia **

7. A tentativa de aproximar análises fenomenológicas e modelos naturalistas da consciência ganhou novo impulso decisivo com Francisco Varela, particularmente após a publicação de A mente incorporada, de Varela, Thompson e Rosch, que criticou as orientações computacionalistas e cognitivistas dominantes e defendeu a indispensabilidade das dimensões experiencial e corporificada da cognição.

8. Varela posteriormente redefiniu a neurofenomenologia como abordagem da ciência cognitiva na qual dados produzidos por análises fenomenologicamente disciplinadas da experiência e resultados experimentais da neurociência cognitiva possuem estatuto equivalente e se constrangem reciprocamente.

9. A neurofenomenologia desencadeou intenso debate acerca da relação entre fenomenologia e ciência cognitiva e, mais especificamente, acerca da possibilidade e desejabilidade de uma naturalização da fenomenologia. 10. Outro marco desse debate foi Naturalizando a fenomenologia, em que Roy, Petitot, Pachoud e Varela defenderam que o desenvolvimento da ciência cognitiva exige incorporar instrumentos metodológicos elaborados por Husserl e Merleau-Ponty, porque a ciência cognitiva, apesar de seus resultados, teria negligenciado sistematicamente subjetividade, primeira pessoa e dimensão fenomenológica.

11. A insuficiência pode ser caracterizada pelo “hiato explicativo” de Joseph Levine entre processos neurofisiológicos descritos em terceira pessoa e experiências conhecidas em primeira pessoa, cuja permanência revela uma ruptura teoricamente insatisfatória entre níveis neurobiológico e experiencial. 12. As abordagens corporificadas, situadas e enativas da cognição tornariam contraproducente ignorar a riqueza analítica da fenomenologia husserliana acerca da primeira pessoa, consciência temporal, consciência corporal, autoconsciência e intencionalidade, oferecendo a possibilidade de contribuir para uma superação do hiato explicativo. 13. Para desempenhar essa função, porém, a fenomenologia teria primeiro de ser naturalizada mediante sua integração num quadro explicativo que eliminasse dualismos ontológicos e tornasse suas propriedades contínuas com aquelas admitidas pelas ciências naturais. 14. A tentativa de articular fenomenologia e ciência empírica também aparece no “método natural” de Flanagan, que concebe neurociência, psicologia e fenomenologia como perspectivas mutuamente restritivas e indispensáveis à investigação da consciência, orientação compartilhada em formas diversas por Searle, Chalmers, Galen Strawson, Kriegel e outros. 15. A proposta de Roy, Petitot, Pachoud e Varela é mais radical porque identifica fenomenologia especificamente com a tradição filosófica fenomenológica, insiste na relevância de Husserl e sustenta que a própria fenomenologia precisa ser naturalizada para que a lacuna explicativa seja superada.

16. O objetivo último dessa proposta consiste em demonstrar que experiências familiares na perspectiva de primeira pessoa podem receber investigação e explicação integralmente natural-científicas. 17. A proposta dividiu opiniões e, mesmo entre fenomenólogos favoráveis à ideia de uma colaboração indispensável com a ciência cognitiva, permaneceu uma dificuldade evidente: mostrar que a experiência pode ser descrita sistemática e intersubjetivamente não basta para demonstrar que sua dimensão fenomenológica seja integralmente naturalizável, sobretudo porque Husserl é conhecido precisamente por seu antinaturalismo. 18. Roy, Petitot, Pachoud e Varela respondem observando que Husserl distingue ciências eidéticas axiomáticas, dedicadas a essências exatas, e ciências eidéticas descritivas, dedicadas a essências vagas ou morfológicas, situando a experiência consciente nesse segundo domínio.

19. Os progressos posteriores das ciências matemáticas tornariam obsoleta essa limitação histórica porque modelos morfodinâmicos poderiam formalizar matematicamente as essências vagas da dimensão experiencial.

** 5.2 O antinaturalismo de Husserl **

20. A interpretação anterior identifica equivocadamente o fundamento do antinaturalismo husserliano, que não repousa primordialmente na impossibilidade técnica de matematizar estruturas morfológicas da experiência, mas em argumentos filosóficos de caráter transcendental. 21. Em Filosofia como ciência rigorosa, o naturalismo é caracterizado como filosofia fundamentalmente defeituosa por pretender naturalizar tanto idealidade e normatividade quanto a própria consciência. 22. A naturalização das verdades e leis ideais da lógica fracassa porque reduz necessidade lógica a necessidade empírica e normatividade a causalidade, conduzindo ao ceticismo e reproduzindo o erro psicologista criticado nas Investigações lógicas.

23. A naturalização integral da consciência também fracassa porque não consegue fazer justiça à sua especificidade e tende a tratá-la como objeto mundano comparável, embora mais complexo, a vulcões, quedas d’água, cristais de gelo, pepitas de ouro, rododendros ou buracos negros.

24. A recusa de tratar a consciência como ocorrência objetiva ao lado das coisas mundanas não representa defesa de qualia irredutíveis ou de dualismo substancial, pois a questão fenomenológica não concerne ao material do qual a consciência seria composta, mas ao erro de tentar inseri-la como mais um item dentro de um quadro naturalista já pressuposto.

25. O problema da consciência deve ser situado num horizonte transcendental mais amplo, no qual a teoria da intencionalidade não esclarece apenas a estrutura da subjetividade, mas também a própria natureza da objetividade.

26. Diante da diferença entre a explicação fenomenológica de como a subjetividade constitui objetividade e a explicação naturalista de como a subjetividade emerge num mundo objetivo, não basta declarar causalidade, física ou biologia simplesmente mais fundamentais, pois a pergunta pelo fundamento precisa sempre especificar o aspecto relativamente ao qual algo é considerado fundamental. 27. As ciências positivas pressupõem seu domínio de objetos e procuram produzir conhecimento rigoroso acerca dele, enquanto a filosofia questiona criticamente os próprios fundamentos da experiência e do pensamento científico e investiga como esse conhecimento se torna possível. 28. A filosofia possui finalidades e exigências metodológicas próprias, condensadas por Husserl na redução fenomenológica, cuja função é impedir a confusão entre teoria do conhecimento e investigação natural-científica objetiva.

29. A caracterização da atitude fenomenológica como orientação “antinatural” do pensamento expressa justamente a ausência de continuidade simples entre filosofia transcendental e ciência natural. 30. A ciência não é mera coleção de proposições justificadas, mas prática teórica realizada por sujeitos corporificados e situados, dotada de pressupostos históricos e experienciais que precisam ser examinados para compreender sua possibilidade e seus limites. 31. Merleau-Ponty ressalta que a ciência, ao privilegiar unilateralmente a terceira pessoa, esquece a experiência pré-científica em primeira pessoa continuamente pressuposta pela própria prática científica.

32. A principal incompatibilidade entre fenomenologia e naturalismo não decorre do fisicalismo e não seria eliminada pela adoção de emergentismo ou dualismo de propriedades, pois o problema fundamental reside no objetivismo naturalista e em sua consequente ingenuidade transcendental.

33. A fenomenologia pretende explicitar esses pressupostos tácitos do naturalismo e considera tal esclarecimento filosoficamente mais fundamental que qualquer explicação produzida dentro do próprio horizonte naturalista. 34. A oposição ao naturalismo integral aproxima Husserl das escolas idealistas alemãs, descritas em carta a Rickert como aliadas numa luta comum contra o naturalismo contemporâneo, ainda que cada tradição percorra seu próprio caminho filosófico. 35. A fenomenologia transcendental foi, por isso, frequentemente concebida como disciplina autônoma cuja investigação das condições de possibilidade do conhecimento e da experiência possui estatuto diferente daquele das ciências positivas.

36. A aparente incompatibilidade entre fenomenologia e naturalização não encerra, contudo, a questão, porque outras concepções de naturalização podem preservar dimensões que a proposta reducionista inicial elimina.

** 5.3 Fenomenologia transcendental e psicologia fenomenológica **

37. Abandonar as aspirações transcendentais da fenomenologia para facilitar sua naturalização significaria abandonar grande parte de sua especificidade filosófica, como ocorre quando se procura separar das análises husserlianas um suposto conteúdo científico independente de sua interpretação transcendental.

38. Uma primeira alternativa consiste em compreender a naturalização não como abandono do transcendental, mas como intercâmbio produtivo e colaboração entre fenomenologia e ciência empírica. 39. Borrett, Kelly e Kwan concebem essa relação segundo o modelo dados-explicação, atribuindo à fenomenologia a descrição mais completa possível dos fenômenos experienciais que os modelos neurocientíficos deverão posteriormente reproduzir e explicar. 40. Essa concepção permanece excessivamente modesta porque a fenomenologia não fornece apenas descrições mais refinadas de um explanandum previamente definido, mas desenvolve análises teóricas próprias capazes de contestar modelos existentes, questionar pressuposições de fundo e até transformar aquilo que deverá ser explicado. 41. O intercâmbio produtivo exige influência em ambas as direções, numa “iluminação mútua” em que investigações fenomenológicas informam a ciência e resultados empíricos podem aperfeiçoar, corrigir ou refinar análises fenomenológicas clássicas.

42. Uma primeira objeção pergunta como descobertas acerca de mecanismos neuronais subpessoais poderiam modificar descrições fenomenológicas em primeira pessoa orientadas pelo significado vivido para o sujeito. 43. Resultados neurocientíficos podem em certos casos motivar uma revisão fenomenológica, como quando uma experiência aparentemente simples e unificada revela correlatos neurais associados simultaneamente a percepção e memória episódica, sugerindo a necessidade de investigar se sua estrutura vivida é realmente tão simples quanto parecia.

44. A contribuição empírica mais diretamente relevante à fenomenologia provém sobretudo de disciplinas que produzem descrições no nível da pessoa, como psicopatologia, neuropatologia, psicologia do desenvolvimento, psicologia cognitiva, antropologia e psicologia social. 45. Os distúrbios neuropsicológicos da consciência corporal fornecem material capaz de aprofundar análises fenomenológicas clássicas, como exemplifica o caso de Ian Waterman estudado por Jonathan Cole, que perdeu tato e propriocepção abaixo do pescoço e precisou reconstruir de modo laborioso seu controle corporal.

46. As alterações esquizofrênicas da experiência de si e da intencionalidade descritas por Minkowski, Blankenburg, Parnas e Sass podem igualmente ser relacionadas às análises fenomenológicas da imersão mundana e das diferentes formas de autoconsciência. 47. As investigações desenvolvimentais de Rochat, Reddy, Hobson e Carpenter acerca das formas primitivas de compreensão social infantil podem ser comparadas às análises de Scheler, Stein, Husserl e Merleau-Ponty acerca de empatia, emparelhamento e intercorporeidade. 48. A ciência empírica pode oferecer resultados que a fenomenologia precisa acomodar e que eventualmente exigem revisão de suas análises, enquanto a fenomenologia pode esclarecer pressupostos conceituais da ciência e contribuir para a criação de novos paradigmas experimentais. 49. Gallagher denomina “carregamento frontal da fenomenologia” a estratégia pela qual resultados e distinções fenomenológicas são incorporados desde o início ao desenho experimental, em vez de serem utilizados apenas para interpretar resultados posteriormente. 50. A investigação da autoconsciência fornece exemplo dessa estratégia, pois o teste de reconhecimento no espelho, frequentemente tomado como critério decisivo de autoconsciência infantil a partir de aproximadamente dezoito meses, pressupõe uma concepção relativamente sofisticada do fenômeno.

51. As pesquisas sobre neurônios-espelho constituem outro campo de interação, pois Gallese e Iacoboni aproximaram mecanismos de simulação incorporada das análises fenomenológicas de empatia e intercorporeidade desenvolvidas por Stein, Husserl e Merleau-Ponty. 52. A aproximação entre neurônios-espelho e fenomenologia deve permanecer cautelosa porque Husserl rejeita interpretar a relação entre si mesmo e outro simplesmente como espelhamento e porque modelos fenomenológicos pessoais e mecanismos neurofisiológicos subpessoais não podem ser comparados por isomorfismo direto.

53. Uma segunda objeção aponta a aparente incompatibilidade entre análises eidéticas a priori da fenomenologia e resultados empíricos a posteriori da ciência cognitiva. 54. No quadro husserliano, essa objeção perde força porque intuições eidéticas obtidas por variação eidética permanecem provisórias, presumíveis e abertas à revisão diante de novas evidências, não constituindo verdades dogmaticamente imunes à experiência.

55. Supostos contraexemplos empíricos a teses eidéticas precisam, portanto, ser examinados seriamente, e casos excepcionais podem ser especialmente úteis para testar conceitos e intuições fenomenológicas. 56. Experimentos mentais podem desempenhar essa função somente quando respeitam restrições tão rigorosas quanto experimentos reais, pois a ignorância de condições relevantes facilita imaginar cenários aparentemente possíveis que uma análise mais informada posteriormente revela incoerentes. 57. Casos reais provenientes da psicopatologia, neurologia, psicologia do desenvolvimento e antropologia podem cumprir melhor essa função crítica ao desafiar pressupostos arraigados mediante fenômenos como despersonalização, inserção de pensamento, transtorno dissociativo de identidade, apraxia e anedonia. 58. Uma terceira objeção observa que a colaboração proposta mantém fenomenologia e ciência empírica como disciplinas distintas e não esclarece suficientemente aquilo que torna a fenomenologia propriamente transcendental. 59. Uma análise eidética e a priori da consciência experiencial ainda pode permanecer no âmbito da psicologia, razão pela qual é necessário retomar a distinção husserliana entre psicologia fenomenológica e fenomenologia transcendental. 60. A caracterização inicial da fenomenologia como psicologia descritiva nas Investigações lógicas foi rapidamente abandonada por Husserl, mas revela a proximidade e a dificuldade de estabelecer uma separação absoluta entre ambas. 61. Husserl considera a fenomenologia livre de preconceitos naturalistas fundamento de uma psicologia verdadeiramente científica e distingue posteriormente duas modalidades de investigação da consciência: psicologia fenomenológica e fenomenologia transcendental. 62. A psicologia fenomenológica investiga a consciência intencional de modo não redutivo, respeitando suas características específicas e a perspectiva de primeira pessoa, mas permanece dentro da atitude natural e constitui uma análise regional-ontológica da consciência. 63. A fenomenologia transcendental investiga a consciência em sua função constitutiva como condição de possibilidade de significado, verdade, validade e manifestação, ultrapassando assim o interesse psicológico pela consciência enquanto região específica do mundo. 64. Apesar dessa diferença de agenda, análises transcendentais e psicológicas podem influenciar-se reciprocamente porque o sujeito transcendental e o sujeito empírico não são dois sujeitos diferentes, mas duas apreensões do mesmo sujeito.

65. A mudança entre experiência transcendental e experiência psicológica de si ocorre mediante transformação de atitude e conserva a identidade do eu, revelando a objetivação psicológica como auto-objetivação da própria subjetividade transcendental. 66. Uma descrição adequada da intencionalidade perceptiva poderia, idealmente, ser a mesma em seu conteúdo descritivo e receber posteriormente interpretação transcendental ou objetivante segundo a atitude assumida. 67. A psicologia fenomenológica pode possuir função propedêutica porque uma investigação suficientemente radical das estruturas da consciência, mesmo inicialmente conduzida sem interesse transcendental, tende a exigir finalmente a virada transcendental. 68. Husserl chega a defender um paralelismo entre psicologia fenomenológica e fenomenologia transcendental, permitindo transpor análises de uma para outra mediante mudança de atitude. 69. Nas Meditações cartesianas e na Crise, a separação rígida entre psicologia e fenomenologia transcendental perde ainda mais importância porque a própria psicologia da consciência contém uma dimensão transcendental que permanece oculta apenas enquanto ela conserva sua ingenuidade natural.

70. Essa relação permite admitir que descobertas das ciências positivas, especialmente da psicopatologia e da psicologia do desenvolvimento quando baseadas em análises rigorosas dos fenômenos, possam ser incorporadas e modificar investigações da subjetividade transcendental.

71. A posição de Bennett e Hacker fornece contraste importante ao separar principialmente investigação filosófica e investigação empírica, atribuindo à filosofia o domínio do sentido e das possibilidades lógicas e às ciências o domínio dos fatos.

72. Bennett e Hacker concebem a relação entre filosofia e ciência como unidirecional: a filosofia esclarece os conceitos utilizados pelas ciências, mas evidências científicas não poderiam invalidar análises propriamente filosóficas.

73. Essa resposta protege a autonomia da filosofia diante do naturalismo, mas é inadequada à fenomenologia quando exclui a possibilidade de descobertas empíricas desafiarem e refinarem análises fenomenológicas. 74. Tomar o uso linguístico ordinário como guia principal ou exclusivo para investigar a mente também é excessivamente restritivo porque a linguagem comum incorpora pressuposições da metafísica do senso comum e pode ocultar dimensões reveladas apenas por análises fenomenológicas específicas, como as da consciência do tempo ou da consciência pictórica.

** 5.4 Naturalismo fenomenológico **

75. Duas concepções de naturalização da fenomenologia podem inicialmente ser distinguidas: uma integração subordinada à ciência natural e uma colaboração recíproca com as ciências empíricas.

76. A limitação dessa proposta moderada consiste em deixar intactas as próprias concepções de naturalismo e análise transcendental, sem obrigar a reconsiderar mais radicalmente a relação entre constituinte e constituído ou entre transcendental e natural. 77. O próprio projeto de Naturalizando a fenomenologia continha elementos de uma alternativa mais profunda ao propor reexaminar os limites do conceito usual de naturalização e reformular as noções modernas de natureza, objetividade, subjetividade e conhecimento.

78. A tentativa mais abrangente de realizar essa orientação encontra-se em Mente na vida, de Evan Thompson, que confronta cognitivismo, conexionismo e dinamismo incorporado e privilegia uma abordagem enativa da mente como sistema dinâmico corporificado no mundo. 79. A abordagem enativa pretende superar a distância entre vida experiencial em primeira pessoa e processos neurofisiológicos descritos em terceira pessoa mediante uma investigação em que fenomenologia e ciência experimental se esclarecem e restringem reciprocamente. 80. Thompson atribui à fenomenologia papel mais radical do que simplesmente fornecer descrições do explanandum, pois ela pode revelar dimensões dos próprios fenômenos naturais — como ipseidade, normatividade, subjetividade, intencionalidade e temporalidade — que permaneceriam invisíveis a determinados procedimentos científicos.

81. A orientação encontra precedente em A estrutura do comportamento, na qual Merleau-Ponty dialoga com Pavlov, Freud, Koffka, Piaget, Watson e Wallon e encerra sua análise questionando se não existe alguma verdade no naturalismo.

82. A autopoiese e a auto-organização desempenham função central nessa abordagem porque organismos vivos possuem formas emergentes de individualidade e unidade diferentes das entidades meramente físicas.

83. Thompson define cognição amplamente como conduta orientada por significados e normas que o organismo produz a partir de sua própria autonomia e atividade sensório-motora auto-organizada.

84. Uma concepção biologicamente fundada de cognição que incorpore significação pode aproximar biologia, subjetividade e fenomenologia e dissolver parte da lacuna que outras teorias tratam como irredutível.

85. Mente na vida desenvolve e corrige A mente incorporada ao abandonar a interpretação anterior de Husserl como cartesiano, representacionalista e solipsista metodológico e incorporar mais profundamente conceitos como fenomenologia estática, genética e generativa, epoché, redução, constituição, intencionalidade e mundo da vida. 86. Thompson reconhece explicitamente que sua interpretação inicial de Husserl era limitada por conhecimento insuficiente das fontes e fortemente influenciada pelas leituras críticas de Heidegger e Dreyfus, tornando necessária uma reavaliação da relação entre fenomenologia husserliana e ciência cognitiva a partir da totalidade da obra. 87. A resposta de Thompson ao antinaturalismo husserliano começa pela distinção entre o naturalismo reducionista criticado por Husserl e uma concepção contemporânea não redutiva de natureza na qual fenomenologia e biologia podem permanecer em igualdade metodológica.

88. A aproximação preserva, porém, a crítica husserliana ao objetivismo e reconhece o estatuto transcendental da consciência como condição de possibilidade da manifestação de qualquer objeto.

89. A segunda alternativa de naturalização consiste, portanto, em reconsiderar simultaneamente aquilo que se entende por natural e transcendental, reformulando a filosofia transcendental sem abandoná-la e reelaborando uma noção de natureza cuja ambiguidade já fora ressaltada por Hume.

90. A tarefa é extremamente exigente, mas possui precedentes históricos, como mostra o contraste entre a afirmação de Moritz Schlick de que a relatividade geral teria refutado a filosofia transcendental e a obra de Hermann Weyl, participante decisivo da física relativística e quântica que simultaneamente se inspirou na crítica husserliana ao naturalismo e no idealismo transcendental. 91. As transformações da física teórica do início do século XX podem também exigir revisão das concepções científicas tradicionais de subjetividade, objetividade e conhecimento, como sustenta Merleau-Ponty ao interpretar a relatividade como refutação do ideal de observação absolutamente desvinculada da situação do observador.

92. A possibilidade de Husserl aceitar uma naturalização assim reformulada pode ser sugerida por sua afirmação de que natureza não é concebível sem espírito (Geist), nem espírito sem natureza, embora outras explorações husserlianas acerca de panpsiquismo, teleologia natural e instintos transcendentais abram caminhos adicionais que não precisam ser desenvolvidos para estabelecer essa possibilidade. 93. A consideração transcendental da corporeidade e da intersubjetividade levou Husserl a incorporar dimensões sociais, históricas, culturais e linguísticas e a investigar generatividade, historicidade e normalidade, aproximando a fenomenologia das análises empíricas do ser humano de maneira simultaneamente fecunda e problemática, como posteriormente observou Foucault. 94. A intensa reformulação fenomenológica da relação entre transcendental e empírico permite questionar se a objeção clássica à naturalização da fenomenologia, fundada numa separação rígida entre esses dois domínios, não pressupõe uma concepção excessivamente kantiana da filosofia transcendental e ignora justamente aquilo que distingue a modalidade fenomenológica do transcendental. 95. As duas alternativas não reducionistas de naturalização — colaboração recíproca entre fenomenologia e ciências empíricas e reformulação conjunta dos conceitos de natureza e transcendentalidade — não precisam ser consideradas excludentes e podem ser desenvolvidas simultaneamente. 96. Qualquer avaliação acerca de a fenomenologia naturalizada ser desejável ou constituir erro categorial depende, em última instância, de especificar rigorosamente qual concepção de fenomenologia e qual modalidade de naturalização estão efetivamente em questão.