Fenômenos

DZ2025

Fenomenologia enquanto estudo do como da experiência

1) A fenomenologia, entendida etimologicamente como ciência ou estudo dos fenômenos, revela-se desde logo não como investigação do quê se experimenta, mas do como se experimenta, sendo capaz de transformar em filosofia até o objeto mais trivial do cotidiano, tal como ilustra a célebre anedota relatada por Simone de Beauvoir sobre a introdução de Sartre à fenomenologia husserliana num bar, quando Raymond Aron apontou para o seu coquetel de damasco afirmando que dali também se poderia extrair filosofia.

O relógio despertador

2) O exemplo concreto de um relógio despertador antigo encontrado numa loja de antiguidades em Copenhague, buscado como presente de aniversário, permite demonstrar que a percepção de qualquer objeto físico ocorre sempre perspectivalmente, nunca sendo dado por inteiro, o que instaura uma interação constante entre presença e ausência que constitui o próprio horizonte de sentido do percebido.

3) O horizonte perceptivo não se limita aos aspectos momentaneamente inacessíveis do objeto, mas estende-se também ao contexto mais amplo em que todo objeto se encontra necessariamente inserido, de sorte que o mesmo relógio despertador adquire sentidos distintos conforme apareça sobre a mesa de uma sala de vendas, de uma sala de exame ou do escritório de um advogado.

4) O campo da consciência não se esgota no objeto tematizado, pois, mesmo quando a atenção recai sobre o relógio despertador, os demais utensílios ao redor, o piso e a iluminação do ambiente permanecem copresentes como fundo daquilo que é tematizado.

5) A aparição perspectival do relógio despertador revela que o percipiente há de estar necessariamente corporificado e espacialmente localizado no mesmo espaço ocupado pelo objeto, não havendo ponto de vista puramente intelectual nem visão a partir de lugar nenhum, senão apenas um ponto de vista corporificado.

6) O papel crucial do corpo na percepção manifesta-se ainda no fato de que raramente nos contentamos com o primeiro vislumbre de um objeto, sendo antes impelidos a explorá-lo mais detidamente, como assinala Husserl ao descrever o apelo do próprio objeto a ser percorrido, virado, aberto e examinado repetidamente por todos os seus lados.

7) Ao aparecer, o relógio despertador não se dá como objeto privado, mas como objeto público, passível de ser simultaneamente observado e utilizado por outros, o que constitui, aliás, a própria razão de cogitar comprá-lo.

Aparência e realidade

8) A pertinência de uma análise centrada no modo de aparecer dos objetos pode ser questionada sob o argumento de que a fenomenologia trataria apenas do aparente, devendo tal investigação ser contrastada com o objetivo da ciência de apreender os objetos tal como verdadeiramente são.

9) Heidegger, na seção 7 de Ser e Tempo, recorre a uma concepção mais clássica de fenômeno (Phänomen), segundo a qual o fenômeno é aquilo que se mostra, aquilo que se revela por si mesmo (das Sich-an-ihm-selbst-zeigende), de modo que seria absurdo do ponto de vista fenomenológico supor algo por trás do fenômeno de que este seria mera aparência representativa.

10) A recusa de uma doutrina dos dois mundos, segundo a qual haveria uma distinção de princípio entre o mundo que se apresenta e pode ser compreendido e o mundo tal como é em si mesmo, não implica negar a diferença entre mera aparência e realidade, mas antes redefini-la como distinção entre dois modos de manifestação, e não entre dois domínios separados reservados respectivamente à fenomenologia e à ciência.

11) Diante do exposto, o escopo da investigação fenomenológica não se restringe à estrutura da mente, mas dirige-se propriamente à díade mente-mundo, a qual será mais bem esclarecida a partir da consideração do conceito central de intencionalidade.