4. A Redução Transcendental (§§ 71-72)
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A questão é como a epochè pode ser universal, aplicando-se não apenas a objetividades singulares e intenções correspondentes, mas também à estrutura de implicação intencional, pela qual toda visada de objeto é acompanhada por um fundo e um horizonte infinito de objetos covisados e validades ocultas (potenciais ou habituais).
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Como uma epochè pode levar em conta as implicações intencionais, ou seja, os horizontes (internos, externos e temporais descritos na lição 59 da Filosofia Primeira, e os “horizontes de simpatia” descritos na Krisis) que necessariamente acompanham toda consciência constituinte como um halo de validades ocultas no fundo, não apreendidas tematicamente?
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Primeiramente, Husserl estabelece a possibilidade da reflexão e da epochè universais.
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A lição 50 distingue três tipos de reflexão: 1) a reflexão sobre uma ação ou afeição singular (“eu percebo tal ou tal coisa,” “eu emito um juízo sobre ela”); 2) a reflexão sobre períodos inteiros de minha vida (“eu recapitulo minha jornada de ontem ou meus belos anos de estudante,” “eu dirijo meu olhar para as férias da Páscoa que virão,” p. 214); 3) a reflexão ou “recapitulação” universal da totalidade de minha vida, como a crítica universal da minha vida passada inteira.
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“A vida moral e seu modo moral reflexivo podem […] nos preparar para vislumbrar a possibilidade de uma epochè rigorosamente universal, mesmo que para outros fins” (p. 215).
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A reflexão universal não é uma visão ou reprodução efetiva da vida passada na continuidade das rememorações intuitivas explícitas, nem uma evocação figurada das probabilidades e possibilidades da vida futura, mas sim a “apreensão vaga e antecipatória de eventos distantes.”
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A vida é constituída como “unidade de horizonte à maneira de uma representação vaga do distante,” para a qual posso me voltar, aproximando-me progressivamente e destacando contornos com o recurso a intuições reprodutivas singulares; entretanto, esse processo de precisão “não muda nada no fato de que todos os resultados terão sempre novamente o tipo da imprecisão vaga, do distante relativo” apesar da aproximação, de modo que disponho in infinitum de possibilidades de precisão e evocação ulteriores a cada instante.
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Em seguida, Husserl distingue três momentos na reflexão universal (agora psicológica, pois ela culmina na reflexão egológica e conduz à redução transcendental universal, superando a insuficiência das reduções singulares).
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O olhar, na reflexão universal dirigida à minha vida (desviando-se momentaneamente do tema individual), penetra no horizonte totalmente vago que atualmente é o meu, e descobre na consciência de horizonte: 1) A esfera das objetividades que têm valor para mim (em uma generalidade vaga); 2) A forma temporal; 3) A “reflexão egológica” sobre a vida mesma (Ichreflexion auf das Leben selbst, p. 158).
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A reflexão egológica é o ato de inflexão no qual se atinge “minha vida passada enquanto vida em relação com minha objetividade vivida,” sendo o mesmo válido para o lado da reflexão dirigida ao futuro aberto.
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Posteriormente, Husserl aborda a epochè e a redução universais em si mesmas (“a mais universal”).
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A redução começa por isolar a consciência de horizonte através da redução do objeto da reflexão egológica universal.
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O ato de recapitulação de minha vida e de meu mundo vivido também é um ato que tem como objeto a relação intencional dessa vida inteira com a totalidade objetiva que nela chegou a ser ou vem a ser posta, e esse ato pode ser reduzido como qualquer outro.
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Colocando-se entre parênteses o objeto (toda a minha vida em relação com todos os seus mundos), atinge-se o aspecto puramente subjetivo desse ato de recapitulação de si mesmo (Selbstüberschauung).
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“Aqui eu já tenho um elemento puramente subjetivo que pôs fora de jogo toda a validade implicitamente compreendida no horizonte do meu ato e que só conserva sua validade à consciência de horizonte ela própria como consciência posicional” (p. 220).
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Em seguida, fazendo o mesmo para a vida passada e futura, atinge-se a minha vida pura inteira como um fluxo da vida absolutamente fechado em si mesmo, independentemente do ser ou não-ser do mundo circundante universal.
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A epochè universal torna-se possível por uma propriedade de essência: a minha vida contém em cada fase presente uma consciência do distante (embora vazia), uma consciência de horizonte.
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Todo presente da minha vida encerra em si, em sua intencionalidade concreta, a vida inteira, e junto com a objetividade dada à minha consciência perceptiva no presente, encerra como horizonte o universo de todas as objetividades que jamais tiveram valor para mim, e de certa forma, aquelas que futuramente tomarão valor para mim.
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Por último, no fluxo vivo da intencionalidade que constitui a vida de um sujeito egológico, qualquer outro ego já está intencionalmente implicado de antemão, no modo da simpatia e do horizonte de simpatia.
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Assim como há uma única natureza universal da coseidade como unidade de encadeamento fechada em si mesma, há um único encadeamento psíquico, que forma a comunidade de todas as almas, “todas unidas não exteriormente, mas interiormente,” ou seja, pela compenetração intencional na qual sua vida forma uma comunidade (p. 286).
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Isso não significa que vivamos uns pelos outros ou no lugar uns dos outros, pois “Cada alma, reduzida à sua pura interioridade, tem seu ser-para-si-e-em-si, sua vida original própria” (p. 286).
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A psicologia fenomenológica não é a atitude natural que considera a alma como uma substância localizada em um corpo.
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O § 71 da Krisis critica o pressuposto naturalista de que uma psicologia pura só poderia ser uma psicologia das almas individuais, baseada no raciocínio de que “os homens são exteriores uns aos outros, são realidades separadas, portanto suas interioridades psíquicas também são separadas.”
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O que na atitude mundana-natural do mundo da vida antes da epochè é uma exterioridade recíproca (devido à localização das almas nos corpos) se transforma pela epochè em uma pura interioridade recíproca intencional.
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Husserl conclui que, “assim vemos, para nossa maior surpresa me parece, que pelo simples desenvolvimento da ideia de uma psicologia descritiva desejosa de deixar se expressar a essencialidade própria das psuchei, se realiza necessariamente a inversão da epochè fenomenológico-psicológica e de sua redução em epochè e redução transcendentais.”