2. A História Circular
-
Husserl declara no § 9 da Krisis: “Estamos em uma espécie de círculo.”
-
A história se torna muda e sem sentido se não compreendermos os começos, mas ao mesmo tempo, a compreensão plena dos começos só é alcançada a partir da ciência existente em sua forma atual e por meio de uma retrospectiva sobre seu desenvolvimento.
-
Toda reflexão histórica, em retorno, parte do presente e se dirige ao passado, pois é o presente que, em uma visão finalizada da história, confere sentido ao passado.
-
O filósofo que pensa em 1936 em Viena como herdeiro não é meramente um resultado contingente perdido na facticidade histórica, pois na situação histórica em que se encontra, ele é constrangido a retomar o passado cultural que lhe é legado e ao qual confere um sentido.
-
Ele se estabelece nesse passado utilizando o modo de racionalidade de que dispõe como guia para reassumir a exigência nativa.
-
Dessa forma, o que é a tarefa original do filósofo se abre também como seu programa, e o passado se torna o futuro para o pensador presente, na medida em que o que foi pensado originalmente deve ser revisto e reativado.
-
Os dois aspectos desse movimento em “zigue-zague” devem se auxiliar mutuamente, pois “Um esclarecimento relativo de um lado traz alguma luz para o outro, que por sua vez a reflete sobre o primeiro.”
-
A história, para Husserl, é “o movimento de solidariedade e de implicação mútua da formação do sentido e da sedimentação do sentido.”
-
Compreender a história é entender que ela é inseparavelmente “sedimentação” do sentido e “constituição” do sentido.
-
O sentido de origem está “sedimentado” porque a história não é apenas o lugar da realização do sentido, mas também de sua possível perda.
-
Quando o sentido não é reefetuado em um presente vivo, ou é reefetuado apenas mecanicamente, ele é então coberto por sedimentações e desaparece sob elas, dando origem aos preconceitos, de modo que o preconceito sempre tem uma significação histórica, sendo “ancestral antes de ser pueril.”
-
O sentido de origem é constituído não apenas quando é originalmente estabelecido por um protogeômetra, mas também toda vez que é visado em conformidade com esse sentido de origem em certos atos da consciência de um sujeito.
-
Esclarecer filosoficamente a história implica uma reflexão retrospectiva sobre a formação original de certos objetivos que acabam por se sedimentar, e revelar a maneira pela qual esses objetivos devem ser incessantemente reinterpretados, clarificados e corrigidos pelo ego para novas descobertas, o que se enquadra no conceito de “constituição transcendental.”
-
O ego se encontra em uma situação peculiar: estando sempre inserido na sedimentação do sentido, o ego seria ao mesmo tempo constitutivo de todo sentido.
-
Consequentemente, o ego está sempre “adiantado” e sempre “atrasado,” estando sempre atrasado por estar preso na trama de uma teleologia, onde há um pré-dado que está sempre presente quando o ego chega, não havendo um começo absoluto.
-
Por outro lado, o ego está sempre adiantado, pois a reativação do sentido original depende dele; cabe-lhe reinterpretar esse passado cultural que lhe é entregue em um presente vivo para conceber seu futuro.
-
Husserl concebe a história como um campo intersubjetivo de cumplicidade entre os vivos e os mortos, onde nós nos comportamos como cúmplices dos mortos, seus coatores, e o filósofo deve reanimar a cadeia de pensadores desaparecidos que são “seus ancestrais, ou seja, seus pais-em-espírito.”
-
Ao invés de ver nisso um motivo macabro ou a adoção da funesta divisa atribuída a Nietzsche: “Deixai os mortos enterrarem os vivos,” seria mais preciso dizer que se trata de os vivos desenterrarem os mortos.
-
A concepção husserliana da história se aproxima da “difícil corrida do archote da história monumental” em Nietzsche, e a história emerge como esse estado de intimidade, constantemente buscada e constantemente fugidia, com os mortos.
-
Nós reanimamos em um presente vivo o que eles viveram, o que eles pensaram, em uma espécie de cumplicidade transcendental.