a fundação mítico-mitológica constitui, à luz da obra de Claude Lefort, uma fundação teológico-política da realeza, indissociável a instituição política da instituição social
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não há deuses sem reis, nem religião arcaica sem Estado e poder coercitivo
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essa fundação é complexa a ponto de fracassar na maioria dos casos, fracasso retomado e reelaborado em múltiplos níveis pela tragédia
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o campo simbólico se polariza em termos de poder, sendo o poder régio legítimo apenas quando fundado em equilíbrio harmonioso entre os poderes detidos pelos deuses
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a retomada do material mítico-mitológico preexistente implica sua colocação em ordem numa coerência única, tarefa própria do trabalho hesiódico de fundação ao assegurar a ordem entre os deuses — trabalho da fundação mitológica propriamente dita, não mais da fundação mítico-mitológica inchoativa
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há na mitologia stricto sensu um verdadeiro “espírito de sistema” que se conquista e se depura em relação à multiplicidade indefinida dos mitos, noção de Lévi-Strauss
esse trabalho de pensamento, que não decorre de fantasia alguma, é reconstituído em sua “carne”, identificando seus principais motivos no esboço de uma fenomenologia de uma espécie de “hipnose” coletiva (“transcendental”) que acompanha a questão da fundação, na travessia da tirania encarnada pelo Um coercitivo (o déspota, o tirano) rumo à realeza justa, equilibrada e garante da nova ordem simbólica em vias de se instituir
no caso grego, essa travessia não chegou a ocorrer de fato, tendo sido abandonada numa retomada distinta da questão da fundação — a fundação da democracia, em que o problema da soberania deixa de ser central — e desativada, no mesmo movimento, pela experiência trágica
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o efeito catártico consiste em despertar essa hipnose coletiva colocando-a, ela mesma, “sob hipnose” pela “magia” da poesia e do teatro
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o fracasso da fundação, encenado de múltiplas maneiras na tragédia, significa a proliferação da tirania não apenas na figura do herói ou do rei, mas entre os próprios deuses
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a tragédia, na curva significante que vai de Ésquilo a Eurípides passando por
Sófocles, constitui uma elaboração simbólica em abismo dos infortúnios da fundação, conduzindo o homem a se confrontar consigo mesmo como enigma
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a catarse trágica expõe uma fenomenologia da afetividade de extraordinária riqueza e sutileza, ausente da filosofia, propondo uma elaboração simbólica sobre a qual ainda se vive, a despeito das racionalizações psicológicas
essa fenomenologia oferece matéria para reancorar a experiência como experiência fenomenológica e para compreender os motivos e motivações da experiência mítico-mitológica do pensamento
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pela tragédia se abre a possibilidade de uma verdadeira fenomenologia da afetividade, já pressentida por Karl Reinhardt, que “curto-circuita” pela catarse trágica seu codificação em termos de fundação e suspende toda teorização filosófica e psicológica, a qual opera uma redução mais ou menos explícita e empobrecedora da afetividade
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sob o horizonte dessa fenomenologia já esboçada no interior da elaboração simbólica da tragédia, abre-se a chance de reler de outro modo os relatos mítico-mitológicos de fundação, e talvez os próprios mitos, e assim de se reencontrar de outro modo, fora das armadilhas narcísicas do triunfalismo cientificista da época atual
para concluir, a obra não pretende contribuir aos trabalhos muito ricos da Escola francesa de antropologia da Grécia antiga, decifrando em detalhe tal ou qual código simbólico ou relações entre códigos, mas propor uma interpretação filosófica global do próprio trabalho de pensamento mítico-mitológico e mitológico, mostrando, longe de qualquer redução etnocentrista, que esse trabalho de pensamento é um trabalho de pensamento por inteiro, como qualquer outro