Para compreender a dupla intriga, divina e heroica, da Ilíada, é necessário recorrer aos “Cantos Cipriotas”, que narram as premissas da guerra de Troia, onde Hécuba, grávida de Páris, sonha que dá à luz uma tocha, e Cassandra profetiza que ele será a perda da cidade, sendo por isso confiado a um pastor no monte Ida.
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No monte Ida, Páris é escolhido como árbitro por Hera, Atena e Afrodite, que lhe perguntam qual é a mais bela; ao dar o prêmio a Afrodite, ele provoca a cólera das outras duas deusas e obtém como recompensa o rapto de Helena, esposa de Menelau, o que deflagra a guerra de Troia.
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A origem de toda a trama remete ao festim das núpcias de Tétis e Peleu, onde Éris provoca a Querela entre as deusas, sendo essa intervenção desejada por Zeus para realizar o despovoamento da terra e a separação entre deuses e homens, com a raça heroica sendo destinada a ser aniquilada.
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O querer de Zeus traz o conflito aos deuses e aos heróis, rompendo o equilíbrio das potências divinas que assegurava a legitimidade da dinastia troiana, e essa ruptura conduz à destruição do genos heroico, manipulada pelas querelas divinas ao longo da Ilíada e no que se evoca da Odisseia.
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Na mitologia homérica, que se delineia nas relações entre deuses e entre deuses e heróis, Zeus aparece como “semeador” de discórdia e como aquele que pacientemente busca um acordo em detrimento dos heróis, o que inicia a desintricação das intrigas divinas e heroicas, que será interrogada pelos trágicos.
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No trabalho de mitologização de segundo grau que se realiza na Ilíada, o entrelaçamento da sociedade heroica e da sociedade divina, próprio ao modo de pensamento mítico-mitológico dos relatos de fundação, conduz à destruição da primeira, como se os deuses só fossem sublimes em sua distância abissal, e como se a ruptura do equilíbrio os levasse à “miséria eterna” de que fala Longino.
Há na obra homérica um duplo encontro dos deuses: o encontro sublime, bem-sucedido, que eleva ao ilimitado, e o malencontro, fracassado, onde o herói, hipnotizado pela divindade sob as modalidades da até, do menos ou do daimôn, torna-se um agente cego do destino que o ultrapassa, sendo que os homens, quase sempre anônimos e sem voz, não têm praticamente lugar nas epopeias.