essa representação, que dominou por dois milênios o pensamento social e político e ainda o domina na maior parte das vezes, consiste em pensar que não há sociedade possível sem poder coercitivo — sendo a anarquia sinônimo de caos — reduzindo o campo do político ao campo de ação do poder, frequentemente com certo desencantamento
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esse tipo de representação muito exclusivo foi recentemente posto em questão em profundidade pelos trabalhos de Pierre Clastres sobre as sociedades ameríndias como sociedades contra o Estado, onde toda irrupção de um poder coercitivo é contida por um sistema complexo de trocas simbólicas capazes de neutralizar a emancipação da chefia indígena em relação à sociedade
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relacionando esses trabalhos com os de Lévi-Strauss sobre os mitos ameríndios, percebe-se que essas sociedades, sede de um pensamento ativo do “contra o Um”, nas palavras de La Boétie, elaboram simbolicamente sua condição em mitos onde não há deuses, ao menos no sentido em que há deuses na mitologia
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conforme demonstrou Lévi-Strauss, os mitos caracterizam-se por serem originariamente múltiplos e indefinidos, remetendo uns aos outros, cada um propondo uma resposta local a uma questão simbólica local, com articulação em relatos que sempre envolvem metamorfoses de tal ou qual personagem em seres “naturais” ou “celestes” para nós
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é por um efeito de ótica etnocêntrico que certos personagens de mitos podem ser assimilados a “deuses”: trata-se de fundadores míticos da civilização, inventores da agricultura ou de outras técnicas, “heróis culturais” às vezes destinados, uma vez cumprida sua tarefa, a deixar o mundo dos homens, jamais objeto de culto especial, com nomes mais comuns que pessoais, não sendo deuses propriamente ditos ainda que possam ser vistos como “ancestrais” dos deuses
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quanto à questão de saber se os “selvagens” acreditavam em seus mitos, cabe responder, como Lévi-Strauss, que essa questão é exterior ao problema, tendo aqueles que os ouvem, tanto quanto os anônimos que os inventam, relação equivalente, mutatis mutandis, à que se tem com uma peça musical, não visando o mito, não filosófico, dizer um ser ou exprimir uma verdade, não sendo nem verdadeiro nem falso, tratando apenas de uma questão de sentido