5 Metodologias

DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : Une pratique concrète. Paris: Armand Colin, 2012.

1. A co-originariedade circular do método

A pluralidade das reduções fenomenológicas, identificada por Husserl desde as Ideias diretrizes I (1913), remete a uma estrutura geral unificada — a modificação da atitude do sujeito na relação com os objetos do mundo, segundo o princípio da ausência de todo pressuposto (Voraussetzungslosigkeit) enunciado já nas Investigações lógicas — que se desdobra em variação eidética, epoché transcendental e conversão reflexiva, reunidas sob o vocábulo genérico de epoché em On Becoming Aware: an Experiential Pragmatics.

1.1. O gesto de suspensão: a epoché

A epoché, designada em 1913 como “colocação entre parênteses” (Inklammersetzung) e “colocação fora de circuito” (Ausschaltung), realiza um duplo movimento de expulsão e conservação que neutraliza — sem negar destrutivamente — o conteúdo ininterrogado, requalificando seu modo de doação a partir da interrupção do fluxo contínuo e irrefletido da consciência, no gesto que Montaigne já nomeava epekhô.

1.2. O gesto de conversão: a redução psicológica

A redução psicológica não delimita um novo campo de experiência, mas reconduz (zurückführen) a experiência imediatamente dada às suas implicações internas não sabidas, liberando o plano do ato de consciência que visa o objeto — um gesto de libertação (Beschränkung), não de delimitação (Einschränkung), conforme a Ideia da fenomenologia de 1907.

1.3. O gesto de variação: a redução eidética

A redução eidética tem por tema a essência concreta de todo objeto, distinguindo-se da conversão reflexiva psicológica e da epoché transcendental por libertar, mediante a variação imaginativa, o espaço interior do puro possível a partir do apego ao dado sensível particular.

2. A co-generatividade metodológica

A distinção entre constituição estática e constituição genética, embora formulada tardiamente por Husserl com sentido inicialmente cronológico, não corresponde a uma disjunção estanque entre os dois registros, mas antes a um entrelaçamento de motivos estáticos e genéticos cuja produtividade reside precisamente em sua generatividade recíproca.

2.1. O trabalho da constituição estática

A primeira efetivação da metodologia husserliana define um processo de estratificação (Schichtung) dos atos de consciência, segundo uma lógica de fundação (Fundierung) vivida — não uma fundação em razão (Begründung) — pela qual a rememoração ou a imaginação pressupõem sempre uma percepção sensível primeira.

2.2. A dinâmica da constituição genética

A não linearidade introduzida pela imaginação constitui o ponto de deflagração da dinâmica genética dos vividos, na qual a constituição não parte do dado sensível do percebido, mas do movimento de atração do afeto, que oferece a estimulação sensorial necessária à mobilização da dinâmica perceptiva.

3. O empirismo transcendental: alcance e limites

O entrelaçamento co-originário das dimensões experienciais do sujeito confere à experiência um papel constitutivo da estrutura do conhecimento, superando o estatuto meramente derivado ou associativo que lhe atribuem os empirismos de Locke e Hume, para instaurar um empirismo propriamente transcendental, no qual o dado sensível não é excluído do a priori como matéria informe, mas contribui intrinsecamente para constituí-lo, conforme o a priori material husserliano.

3.1. A crítica husserliana do empirismo e a fenomenologia como idealismo transcendental

A crítica husserliana ao empirismo, formulada na segunda Investigação lógica como crítica às “teorias da abstração”, opõe à lógica associacionista e atomista dos empiristas britânicos uma lógica de estruturas relacionais globais em que a experiência funciona como componente constitutiva do conhecimento.

3.2. O empirismo no cerne do idealismo transcendental fenomenológico

Para além da crítica ao método atomístico-associacionista, Husserl retoma a seu favor motivos propriamente empiristas nos anos 1920, os quais não se limitam a temáticas adjacentes a uma metodologia deliberadamente idealista, mas se inscrevem por inteiro na refundação de sua própria metodologia.

3.3. O caráter transcendental do empirismo

A aparente “moleza informe” do empirismo revela, à análise, uma lógica própria portadora de requisitos de tipo transcendental, na medida em que a dimensão transcendental da experiência — entendida como explicitação das estruturas constitutivas desta, ainda que imanentes a ela — encontra em Locke, Hume e James antecipações legítimas.

3.4. A ideia de “empirismo transcendental”

A legitimidade de identificar tal empirismo crítico ao empirismo transcendental reivindicado para a fenomenologia encontra apoio na filiação husserliana imediata, notadamente em L. Landgrebe, que explicita o projeto fenomenológico mediante as noções de individuação e facticidade, e em W. Szilasi, de quem Landgrebe extrai a formulação de “positivismo transcendental”.