BERNET, Rudolf; ALLEN, Sarah. Force, drive, desire: a philosophy of psychoanalysis. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2020.
Introdução
1. A observação da multiplicidade de forças que atravessam a existência humana suscita a questão de saber se sua atividade obedece a uma lei exterior e independente ou a determinações imanentes, inseparáveis das próprias forças e responsáveis pelo desenvolvimento de destinos particulares.
2. A pluralidade frequentemente conflituosa das pulsões exige investigar se sua regulação depende de outras pulsões, da razão ou das exigências do eu e do supereu, ou se uma pulsão pode orientar internamente sua energia para uma renovação que evite a repetição estéril, esclarecendo também se sua realização busca prazer, aumento de potência, expansão ou hegemonia.
3. A compreensão das pulsões humanas requer um diálogo permanente entre filosofia e psicanálise que considere tanto seu enraizamento nas forças naturais e nos instintos animais quanto sua articulação posterior em desejos estruturados simbolicamente.
4. A aproximação entre filosofia e psicanálise permite esclarecer a natureza fundamental da pulsão sem subordinar uma disciplina à outra, reconstruindo uma genealogia que ultrapassa influências explicitamente reconhecidas e mostra como a psicanálise prolonga e rompe a metafísica ocidental, cuja revisão crítica também favorece sua libertação dos pressupostos da psicologia da consciência e da adaptação normativa do eu.
5. A investigação psicanalítica permite reescrever a história da metafísica a partir da potência, da força e da falta, privilegiando o dinamismo sobre a estabilidade, a contenção sobre a atualização e a presença de uma ausência sobre a presença plena, de maneira que conflito, negatividade, excesso e repetição se tornam problemas constitutivos da reflexão filosófica.
6. A potência aristotélica (dunamis), marcada pela privação (sterèsis), oferece uma via para compreender a pulsão como força real ainda não atualizada, cuja eficácia reside justamente em uma realização suspensa, condicionada por inibições internas, confrontos entre tendências, decisões voluntárias e circunstâncias externas favoráveis à liberação de sua energia.
7. A compreensão da pulsão como força inibida exige pensar o intervalo em que um impulso permanece efetivo antes de converter-se em movimento, problema desenvolvido por Leibniz ao distinguir a realidade ativa de uma potência contida da mera possibilidade e ao investigar seu despertar pela remoção de obstáculos.
8. A dinâmica leibniziana articula forças ativas e passivas à unidade da substância individual, conciliando a instabilidade do movimento com a harmonia divina e compreendendo a inquietação humana como expressão de uma falta ontológica que renova incessantemente pulsões e desejos, embora sua orientação para a perfeição limite sua capacidade de esclarecer a pulsão de morte.
9. O desejo pode ser compreendido como investimento pulsional em uma representação consciente ou inconsciente de objeto, estabelecendo uma reciprocidade entre apetites e percepções na qual o conhecimento recebe energia de tendências específicas e estas encontram nas representações uma forma de orientação, sem que essa relação impeça o surgimento de novos desejos e novas percepções.
10. A investigação schopenhaueriana das relações entre tendências afetivas e representações antecipa questões de deslocamento e recalque, mas rompe com o racionalismo otimista de Leibniz ao compreender a vontade como impulso metafísico irracional, do qual as representações individuais constituem objetivações derivadas, desviadas e potencialmente enganosas.
11. As Ideias platônicas e o próprio corpo oferecem acessos privilegiados à vontade, pois a contemplação estética suspende provisoriamente sua dominação, enquanto a experiência corporal permite reconhecer simultaneamente um órgão da vontade e um objeto representado, esclarecendo como o corpo libidinal pode articular exigências de prazer e adaptação à realidade.
12. O conhecimento dos corpos combina a explicação causal de seus movimentos com a apreensão das forças que os animam, mas a experiência do próprio corpo acrescenta um acesso interior à vontade que não está disponível aos observadores externos, tornando essa dupla experiência uma orientação para compreender a unidade entre mundo como vontade e mundo como representação.
13. A distinção husserliana entre corpo vivido (Leib), órgão da vontade e da percepção, e corpo físico (Körper), objeto percebido, retoma a dupla doação corporal e permite investigar sensações cujo caráter êxtimo antecede as separações entre imanência e transcendência ou entre pulsão e representação intencional.
14. A dependência corporal das atividades intelectuais demonstra, em Schopenhauer, a condição pulsional do ser humano e sua sujeição a uma vontade impessoal que orienta sexualidade, conhecimento e representações segundo o prazer, chegando a recalcar conteúdos perturbadores sem depender de uma imagem narcísica do eu ou de um ideal espiritual.
15. As convergências entre Schopenhauer e Freud quanto ao prazer, ao recalque e à vida inconsciente não eliminam uma diferença metodológica fundamental, pois a dedução metafísica do primeiro contrasta com a passagem freudiana da observação clínica à especulação metapsicológica, cuja investigação das estruturas invariantes da pulsão se aproxima de uma eidética fenomenológica.
16. A análise freudiana da sexualidade, especialmente das perversões e de suas relações com a infância, permite uma compreensão estrutural das pulsões que ultrapassa normas biológicas de desenvolvimento, articulando observações clínicas e distinções de princípio em uma investigação de seus componentes essenciais: pressão, meta, objeto e fonte.
17. A descrição estrutural das pulsões torna inteligível sua plasticidade, pela qual objetos e metas podem mudar sem alteração de sua natureza, enquanto a sublimação permanece como transformação particularmente problemática e a pulsão de morte pode manifestar-se tanto como tendência específica quanto como destino geral das pulsões, associada à resistência à ligação, à repetição e a diferentes condições energéticas.
18. A fenomenologia da corporeidade e da afetividade pode impedir que a psicanálise reduza a pulsão a resíduo psicofísico ou mecanismo biológico, esclarecendo sua presença simultaneamente corporal e psíquica, sua intensidade qualitativa e sua temporalidade de expectativa, além de investigar uma repetição situada entre automatismo estéril e diferenciação simbólica.
19. A psicanálise exige reconsiderar o sujeito consciente e egológico como princípio originário, pois a constituição narcísica do eu envolve identificação e perda de um objeto amado, produzindo uma subjetividade atravessada por exigências do isso e do supereu, relações intersubjetivas e fantasias que ultrapassam a oposição clássica entre verdade e ilusão.
20. O encontro entre filosofia e psicanálise conduz a uma investigação que não se reduz à metafísica nem à ciência empírica e permite distinguir a subjetividade do eu constituído, reconhecendo no autoerotismo e no isso uma modalidade primordial de si pulsional que é simultaneamente subjetiva e impessoal, individual e neutra, encarnada e sem forma definida.
21. A existência de um si corporal anterior à centralidade do eu exige repensar a relação entre humanidade e animalidade, aproveitando as análises de Schopenhauer sem aceitar sua tendência a substituir a sujeição às pulsões por um sujeito puro do conhecimento que as julga de cima e reproduz uma instância de superioridade semelhante a um supereu.
22. A sublimação precisa ser compreendida como transformação das pulsões e descentramento do eu, possibilidade desenvolvida por Nietzsche na entrega do espectador às forças artísticas e por Lacan na reversão da pulsão escópica, quando a experiência estética transforma o ver em ser visto e desfaz a pretensão narcísica de domínio.
23. A reflexão sobre Schopenhauer, Nietzsche e Lacan recoloca a alternativa entre imanência e transcendência das pulsões e exige situar o sujeito diante delas, encontrando em Nietzsche uma possibilidade de acompanhar seus movimentos sem sucumbir à sua força nem retirar-se para uma contemplação protegida, ao mesmo tempo que se reconhece sua dimensão niilista.
24. A história do conceito de pulsão conduz da dinamização da substância em Aristóteles e Leibniz ao descentramento do sujeito egológico em Schopenhauer, Nietzsche, Freud e Lacan, permitindo investigar uma racionalidade pulsional articulada pelo logos sem pressupor que potência e razão dependam necessariamente de um eu consciente.
25. A pulsão oferece um fundamento especialmente fecundo para o diálogo entre filosofia e psicanálise porque anima representações e desejos conscientes ou inconscientes antes de sua diferenciação, exigindo uma ontologia da força mais fundamental do que a do sujeito humano ou do Dasein e irredutível a uma hipótese explicativa de comportamentos patológicos ou destrutivos.
26. A confrontação com a psicanálise permite à filosofia ultrapassar oposições metafísicas inadequadas à experiência pulsional, reconhecendo uma potência cuja privação interna se manifesta como presença de uma ausência e temporalidade do ainda não, bem como forças anteriores ao dualismo cartesiano e uma corporeidade capaz de inteligência que desfaz fronteiras rígidas entre animal e humano, pulsão e pensamento.
27. A investigação da essência dinâmica da vida pode evitar tanto o biologismo quanto o finalismo metafísico, mas precisa reconhecer a negatividade de pulsões capazes de destruir aquilo que inicialmente promovem, tornando a animalidade humana uma possível proteção diante de forças niilistas cuja indiferença cruel aos fins e bens humanos revela a presença ameaçadora do inumano no interior da própria vida.