O cenário filosófico contemporâneo, especialmente o de língua inglesa, é pressionado por um naturalismo físico que gera dúvida sobre a apresentação sensível do mundo, provocando um movimento de reabilitação da percepção na filosofia analítica.
A valorização da percepção na constituição da ontologia humana é fundamental, visto que a ignorância do ancoradouro perceptual torna opacos os conceitos gramaticais que estruturam a visão de mundo.
A redução da percepção à mera capacidade de conhecer representa uma miséria teórica que confunde o ato perceptivo com a fundamentação do conhecimento, resultando em um silêncio sobre a experiência em si.
A categorização da percepção como uma capacidade é gramaticalmente questionável, sendo mais preciso defini-la como um fato inerente à existência humana, que persiste independentemente da vontade ou de estados de consciência.
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A percepção é descrita como um dado que nasce e morre com o indivíduo, abrangendo inclusive estados de sono ou coma.
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O conceito de percepção designa o próprio ser do sensível e a realidade em sua dimensão existencial.
A fragilidade da filosofia da percepção reside na incapacidade de tratar a realidade sensível, perdendo-se em discussões técnicas entre conjonctivistas e disjonctivistas ou sobre a natureza conceitual do conteúdo.
O erro fundamental das discussões modernas e clássicas consiste em identificar a percepção exclusivamente por seu papel cognitivo ou como uma justificativa para o conhecimento, ignorando sua facticidade como experiência autônoma.
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A percepção atua como razão para o conhecimento apenas quando interrogada sob essa perspectiva específica.
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A fenomenologia descreve a percepção como um preenchimento, mas frequentemente falha em abordá-la fora do escopo da cognição.
A história da filosofia privilegia um conceito de percepção estritamente cognitivo, moldado por preocupações epistemológicas e pelos desafios céticos introduzidos por
Descartes.
As análises contemporâneas sofrem de um ponto cego ao não interrogarem a essência do sensível, tratando os órgãos dos sentidos apenas como fontes de informação e negligenciando o que qualifica a percepção como presença em carne e osso.
A ausência de uma investigação sobre o papel do sensível na filosofia atual ocorre porque a percepção é tratada apenas como meio para o conhecimento e não como ser.
A elucidação da percepção exige uma busca em fontes externas à filosofia tradicional, especificamente na psicologia e na investigação da organização sensível do perçu.
A arte oferece uma expertise indispensável para o filósofo, pois os artistas atuam como mestres do sensível que enfrentam continuamente o problema da manipulação da realidade perceptiva.
A obra de Merleau Ponty destaca-se no século XX por estabelecer um diálogo real com a psicologia e a arte, abordando a percepção real em vez de apenas o problema filosófico dela.
A relação com a Fenomenologia da percepção e o conjunto da obra de Merleau Ponty caracteriza-se por uma influência profunda e duradoura, apesar de certas ambiguidades quanto ao seu fundamento fenomenológico.
O afastamento do discurso da fenomenologia permite uma análise crítica que reconhece o valor de Merleau Ponty na superação de aporias tradicionais, ao mesmo tempo em que aponta sua permanência em certos limites da concepção clássica.
Merleau Ponty defendeu um intentionalismo fraco onde o sensível deve obrigatoriamente possuir um sentido, falhando em distinguir a idealidade do sentido da realidade do sensível e incorrendo em um narcisismo transcendental.
O esgotamento das possibilidades do conceito de percepção pode exigir o abandono do próprio termo para que se possa apreender o sensível, conforme sugerido pelas últimas pesquisas de Merleau Ponty voltadas para a arte.
O objetivo colateral do presente trabalho é prestar homenagem a Merleau Ponty, reconhecendo seu papel fundamental na construção da inteligibilidade do conceito de percepção.
A origem do questionamento aqui proposto não é merleau-pontyana, mas deriva de uma estratégia de desermeneutização da fenomenologia desenvolvida no final da década de 1990.
A reflexão concentrou-se na especificidade da intencionalidade perceptiva em relação à intencionalidade de significação, acreditando-se que o modelo de doação da coisa mesma superaria a mera visada.
A suspeita de um círculo vicioso no desdobramento das intencionalidades precedeu a compreensão de que a percepção poderia não ser estruturalmente intencional.
O encontro com Charles Travis e a exposição de Sandra Laugier em 2002 foram decisivos para a ruptura com o dogma da intencionalidade da percepção.
A obra The Silence of the Senses forneceu os elementos analíticos para uma crítica ao representacionalismo e para a compreensão da percepção fora do modelo intencional.
A influência de Charles Travis foi decisiva para o abandono da fenomenologia no campo da percepção, revelando a radicalidade austiniana como alternativa viável.
A rejeição da intencionalidade não implica a substituição pelo conceito de être au monde, que é considerado apenas outra nomenclatura para o mesmo erro, nem pela noção de relação, que se mostra uma metáfora inadequada.
A análise gramatical proposta assume que há uma componente fundamentalmente não intencional na percepção que é essencial para a economia do conceito comum.
A interpretação da componente não intencional segue um caminho próprio, afastando-se de Charles Travis em direção a uma ontologia e poética do sensível.
A influência de Claude Imbert foi determinante para a crítica radical à fenomenologia e para a compreensão da intencionalidade como uma tentativa tautológica de domesticar o sensível.
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O recurso a Baudelaire e Lévi Strauss permitiu pensar a variedade do agir com o sensível fora dos moldes construídos pelos filósofos.
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Claude Imbert revelou os elementos em Merleau Ponty que resistem à estrutura fenomenológica e a transcendem.
A gratidão a Claude Imbert justifica-se pelo auxílio na superação do problema da percepção, oferecendo uma libertação da escolástica contemporânea.
A redescoberta do sensível é acompanhada por uma celebração de sua plenitude, reconhecendo a alegria e a exaltação que essa dimensão confere à condição humana.
O sensível é simultaneamente o lugar da plenitude e o testemunho do dénuement humano, onde a memória da carência se manifesta na crueza dos sons e das experiências mais simples.