Para que o ser heideggeriano seja reduzido ao ser da ontologia, todos os seus traços distintivos, que o caracterizam por sua diferença em relação ao ente e por seu caráter impensado, precisam ser riscados ou negligenciados, o que de fato ocorre na leitura de Lévinas.
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A condição de irredutível do ser à mera “presença constante” é desprezada em favor de uma definição por sua “perseverança”.
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A retirada do ser na história é negada em favor de seu domínio exclusivo e manifesto no seio da história.
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A resistência radical do ser à fenomenalidade é negada em benefício daquilo que consta como a “própria existência do ser”.
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A diferença entre o ser e o ente é interpretada como uma “anfibiologia”, ou seja, uma reversibilidade perfeita onde ser e ente se identificam.
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A redução do pensamento heideggeriano à tradição ontológica encontra sua principal expressão na palavra “essência” (ou “essance”), com a qual Lévinas traduz o ser heideggeriano, mas que ao mesmo tempo compreende toda a tradição ontológica da constante presença, cujo sentido e limites Heidegger mostrou.
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Lévinas afirma que o termo “essência” exprime o ser diferente do ente, o Sein alemão distinto do Seiendes, estabelecendo uma equivalência com o ser heideggeriano.
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Simultaneamente, a palavra “essência” abrange toda a tradição ontológica, onde o ser não é precisamente diferente do ente, e toda a temática da constante presença.
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Ao retirar do ser heideggeriano os traços que o faziam o Outro radical de todo ente, Lévinas pode então opor a esse ser reduzido ao Mesmo um Outro radicalmente diferente, mas esse gesto só é possível porque o ser heideggeriano foi previamente amputado de sua diferença e reduzido ao ser da ontologia.
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O ser heideggeriano, que por sua diferença é o Outro de todo ente, é reduzido por Lévinas ao Mesmo da ontologia.
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Face a esse ser reduzido, Lévinas faz surgir um Outro que lhe seria radicalmente oposto, mas essa oposição só se torna possível porque o ser heideggeriano foi previamente amputado de sua diferença.