Se a linguagem torna possível a instauração do ser, ela própria só se desdobra na medida em que já está à escuta de um apelo que não pertence à ordem linguística, mas que a funda, a saber, o apelo do ser, razão pela qual escuta e diálogo possuem uma dimensão vertical anterior à troca inter-humana.
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A linguagem desenvolve-se apenas na escuta.
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O apelo não é uma palavra humana.
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Falar pressupõe ouvir.
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A linguagem consagra-se a receber o que a reivindica.
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O que a reivindica é o ser.
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A voz do ser ressoa através da linguagem.
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O diálogo horizontal pressupõe escuta comum de uma mesma voz.
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O entendimento vertical fundamenta o entendimento das palavras.
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A linguagem tem origem na conversação.
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A linguagem ocorre como Geschehen dialógico.
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A linguagem pressupõe o ser que permite sua ocorrência.
Não se trata de círculo, mas de movimento mediador constitutivo da essência da linguagem, pois a linguagem instaura o ser sem reduzi-lo à sua ordem e só pode fazê-lo porque já responde ao apelo do ser, de modo que não há ser sem linguagem nem linguagem sem ser.
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A linguagem torna possível a abertura do ser.
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O ser não é produto exclusivo da linguagem.
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A linguagem é escuta, acolhimento e compilação.
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O ser é revelador da linguagem.
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A linguagem faz ser ao deixar o ser vir.
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A função mediadora da linguagem cumpre-se plenamente na poesia.
A poesia é o lugar onde a linguagem permanece conforme sua essência mediadora, e o poeta, enquanto mensageiro, encarna essa mediação ao recolher sinais dos deuses e transmiti-los ao povo, assumindo a responsabilidade de guardião e velador do ser.
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O poeta deixa a essência da linguagem desdobrar-se.
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A linguagem une recepção e doação.
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O poeta recolhe e transmite sinais.
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Não inventa, mas recebe e comunica.
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Recolhe o raio do pai na abertura do ser.
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Partilha-o com os filhos da terra após apaziguá-lo.
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Enfrenta a violência da relação direta com os deuses.
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Media entre deuses e homens.
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É guardião e velador do ser.
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Pode ser chamado salvador do ser.