Do claro da floresta, ou da série de clareiras, trazem-se palavras furtivas e indeléveis, inapreensíveis, que pedem para se desdobrar e se completar, uma palavra de verdade que não pode ser inteiramente entendida nem esquecida, que se consome sem desgaste e que, fixa, não se queda muda, mas se move com um aleteo, voltando segundo a situação e a disposição de quem a recebe.
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Do percorrer as clareiras na floresta, trazem-se palavras furtivas e indeléveis, que pedem para se desdobrar e completar.
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Uma palavra de verdade, guardada e dada a quem chega distraído, não pode ser nem inteiramente entendida nem esquecida; é para ser consumida sem desgaste.
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A palavra não fica quieta e muda; tem asas e se vai, podendo voltar segundo o modo e a situação de quem a recebe, seja para apenas percebê-la, sustentá-la ou aceitá-la plenamente.
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Dentro de quem a acolhe, a palavra se faz indefinidamente, abrigada no silêncio, e dela brota a música inesperada que a reconhece, a música inicial do indizível.
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Não só o linguagem, mas todas as palavras aludem a uma palavra perdida, sentida na angústia e em um alvorecer que a anuncia, guardada no coração e na respiração, palavra que se vai com a morte violenta e que guia os que podem morrer.
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Todas as palavras aludem a uma palavra perdida, sentida na angústia e em um alvorecer que a anuncia, palpitando.
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Sente-se essa palavra latindo no fundo da respiração e do coração que a guarda, e na garganta, fechando a passagem da palavra que ia sair.
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É a palavra que se vai com a morte violenta, e a que a precede como guia dos que, ao fim, podem morrer.
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A palavra que um ser humano guarda como de sua própria substância, que não se diz porque dizê-la a desdiz, uniu-se ao ser e não pode converter-se em passado nem contar com o futuro, sendo perceptível em algumas criaturas não humanas, na quietude dos animais, em constelações, e na presença de certas figuras humanas e em suas obras.
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A palavra guardada é da substância de quem a guarda, não pode ser dita porque dizê-la a desdiz, e uniu-se ao ser, não podendo ser passado nem futuro.
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Pressente-se essa palavra em alguns animais, como se a fossem dar a entender ao morrer, e na quietude de bestas que guardam o sol.
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Constelações e luzeiros parecem guardar uma palavra e custodiar com ela a imensidão do universo.
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Em seres humanos, essa palavra passa inadvertida, mas esclarece certas presenças e desprende-se de figuras lendárias e de obras de arte e pensamento, que assim têm vida mais clara.
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A palavra guardada permanece inviolada no delirio e no espanto, orientando o ser que entrou na noite da mente; pode ser um nome que recolhe as notas do nome único, ou um sim ou um não que transcende todo sucesso.
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Nem todo escrito é indelével; escritos se borram pelo clima ou pelo tempo, e ao longo de um ciclo histórico, palavras se tornam tópicos, sentenças condenatórias que formam um cerco que poucos transcendem, pois a inspiração que o transcende raramente arrasta consigo os visitados, que preferem reassumir a continuidade do cerco como seus guardiães.
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“O escrito, escrito está”, mas nem tudo é indelével; escritos se borram por si mesmos ou pelas circunstâncias.
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Durante um ciclo histórico, há palavras tópicas, sentenças condenatórias que formam um cerco, e a inspiração que transcende esse cerco só raramente arrasta os visitados, que comumente reassumem seu lugar como habitantes e guardiães do cerco.
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Os guardiães do cerco o são da continuidade do cerco, ignorando que a discontinuidade da inspiração corresponde à discontinuidade da história escrita.
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É o escrito que faz a história, mas há algo para além da história, como as pedras em círculo, que não são história, e que, não escritas, aguardam talvez a hora de tomar figura e voz, aparentadas com as palavras que na história aparecem e se apagam, as palavras sem condena da revelação, que se acendem e apagam como “letras de luz, mistérios encendidos”.
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As pedras, mesmo em círculo, não são história; não há história sem palavra escrita ou cantada.
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Há, porém, algo fora da história, como as pedras que talvez guardem o canto perdido, fantasmas mudos em espera, aparentados com as palavras que na história aparecem e se borram.
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Essas palavras sem condena da revelação, despertadas pelo alento do homem, acendem-se e apagam-se, como “letras de luz, misterios encendidos”, profecias do que se deu a ver por um instante.
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Ao modo da semente, a palavra se esconde, e sua germinação faz sentir a terra como uma casca a ser atravessada, anunciando que algo está por vir; só entende isso quem padeceu de forma indizível o abandono pela palavra interior, que não nasce para ser dita, e que deixa um vazio, uma extensão que é resultado de um abandono.
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A palavra se esconde como a semente, e sua raiz faz sentir a terra como uma casca a ser atravessada, uma pulsação de vida que anuncia que algo está por vir.
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Só entende esse anúncio quem padeceu de modo indizível o ter sido deixado pela palavra interior, raramente pronunciada, que se queda remota, como se nunca houvesse existido, deixando apenas um vazio indefinível, uma extensão.
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A palavra perdida sente-se então como raiz e germe, presença escura sem porta para a consciência, e o sujeito se sente obstáculo, casca, lugar cerrado a ela.
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Quando o sujeito, afundando-se em sua condição paciente, se sente como lugar cerrado à palavra, nada o assiste; mas no nada obtido por um puro retirar-se, surge o inesperado, o primeiro dom do exílio, resposta a uma pergunta não formulada, e o germinar da palavra prossegue, num silêncio que é vida mais alta e deserto pleno, a ponto de a palavra concebida estar para nascer.
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Quando o sujeito se vê como lugar cerrado à palavra, nada o assiste.
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Mas na nada obtida pelo puro retirar-se para que o mais preciado apareça, surge o inesperado, o primeiro dom do exílio.
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O germinar da palavra prossegue, e o silêncio a que se está submetido é como uma vida mais alta, o deserto da palavra um pleno a ponto de estalar, pois a palavra se dispõe a nascer, a palavra concebida.
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Que a palavra tenha de ser humanamente concebida é o que dá conta de que haja palavra, distinguindo-a do mero linguagem notificativo ou indicativo presente em outras espécies; palavra propriamente é só a que é concebida, albergada, que inflige privação e pode ir-se e esconder-se, e cujo anúncio reiterado é o de estar a nascer.
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A palavra humanamente concebida distingue-se do linguagem notificativo de outras espécies, como a dança das abelhas ou o canto da lechuza, que apenas avisam de algo determinado.
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Palavra propriamente é só a que é concebida, albergada, a que inflige privação e pode ir-se e esconder-se, sem dar certeza de ficar.
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A privação do só linguagem é já privação do voo, e o anúncio reiterado da palavra concebida é o de que está a nascer.
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Ouviu-se a guitarra porque seu somar abriu desde o primeiro instante o modo justo de escutar, e é a música, que pode ser um modo de silêncio, que sustenta a palavra em seu meio justo, prenda da não traição, pois nela não há “boas intenções” e um só erro na voz revela a falácia.
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A primeira virtude da guitarra era indiscernível de momento: seu somar abria o modo justo de escutar.
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É a música que ensina sem palavras o justo modo de escutar, e quando se trata de só palavra, é a música (ou um modo de silêncio) que a sustenta em seu modo justo.
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A música é prenda da não traição; nela não há “boas intenções”, e um só erro na voz denuncia o incumprimento da verdade.
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A música cumpre e, escutando-a, cumpremo-nos; quem a traz é um ser remoto, pura atualidade do sempre, e voltará sempre, pois sua música se aproxima da origem e revela o instante de agora, durando um instante de eternidade, como o morrer, o nascer, o amar.
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Aquele que traz a música é um ser remoto, pura atualidade do sempre; é impensável que alguma vez se vá, que alguma vez não tenha estado; voltará.
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A música que se aproxima da origem revela o instante de agora e dura um instante, um instante de eternidade.
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A música da guitarra, instrumento único, unia os contrários, lamento e não lamento, celebração sem triunfo, devolvendo ao origem do tempo e dando a lei do reto sentir, livrando da nostalgia, e guardando o secreto da justeza do sentir e o cálculo infinitesimal do padecer.
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A guitarra, instrumento único, unia os contrários, o ser e o não-ser do sentimento.
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Sua música devolve ao origem do tempo e dá a lei do reto sentir, livrando da nostalgia.
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A música guarda o secreto da justeza do sentir, as cifras do cálculo infinitesimal do padecer, alcançando na guitarra, que soa desde dentro da gruta do coração do mundo, seu máximo cumprimento.
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Há uma palavra, uma só, da qual não se sabe se alguma vez transpôs a barreira entre o silêncio e o som; essa palavra, unidade milagrosa, pode surgir anônima sustentando um discurso ou poema, orientando o sentido, transformando a lógica em cadência, abrindo espaços de silêncio reveladores.
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A barreira entre o silêncio e o som nunca deixou de existir, eriçando-se até o paroxismo.
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A palavra, em si mesma unidade milagrosa, cai arrastada, mas a palavra escondida, celada no silêncio, pode surgir sustentando anonimamente um discurso, um poema, um texto filosófico, orientando o sentido e transformando a lógica em cadência.
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O que há de revelador em um falar provém dessa palavra intacta que não se anuncia, engendradora de musicalidade e abismos de silêncio, fonte do conceber para além do pensar; não se dá a ver, mas abre os olhos do entendimento, e talvez seja ela que um dia chegue.
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O revelador no falar provém dessa palavra intacta, que não se anuncia nem enuncia, invisível como cristal.
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É engendradora de musicalidade e abismos de silêncio, a palavra que não é conceito, pois é ela que faz conceber, a fonte do conceber para além do pensar.
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Não se dá a ver; abre os olhos do entendimento para que veja ou vislumbre algo, e talvez seja ela que um dia chegue.
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Sem se mover, essa palavra move; seus aspectos são incalculáveis; pode impor a privação da linguagem ou estabelecer a presença da palavra só como uma respiração interior, uma respiração do ser escondido no humano, distinta da respiração da vida.
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A palavra, sem mover-se, move; seus aspectos são incalculáveis e daria de si para múltiplas vidas.
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Ela pode impor a privação do linguagem ou deixar o indivíduo em total silêncio, ou ainda estabelecer uma vida de comunicação silenciosa, liberada da expressão.
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A presença da palavra só é uma espécie de respiração interior, uma respiração do ser escondido no humano, distinta da respiração da vida.
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Inicialmente, a respiração da vida e a do ser dão-se por separado, e a falta de respiração do ser pode afetar a respiração vital; mas, para que o ser sustente a vida, é preciso deixá-lo a si mesmo, pois ele alberga a palavra só como sua manifestação incalculável.
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A respiração da vida está sob ameaça de cessar, frequentemente pela falta de respiração do ser escondido.
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A dificuldade de respirar vitalmente se condensa sob a atenção, que, em vez de desatar o nó, o estreita.
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Para que o ser sustente a vida, é preciso deixá-lo a si mesmo, pois ele alberga a palavra só como sua manifestação mais direta e incalculável.
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Em alguns seres humanos, dá-se a união das duas respirações: a da vida e a do ser; a respiração do ser, escondida sob a vida, transcende tudo, e sua palavra só, em seu ímpeto, ergue e unifica todas as palavras, destruindo-as, numa nadificação que procede do ser como prenda da união.
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Em alguns humanos, cumpre-se a união das duas respirações: a da vida e a do ser, que está depositada sobre as águas primeiras da Vida.
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A respiração do ser transcende tudo, e sua palavra só, em seu ímpeto único, ergue todas as palavras e as unifica, destruindo-as irremediavelmente.
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A nadificação que procede do ser é prenda da união, distinta da ameaça do apagamento da respiração do ser.