O despertar sem imagem corresponde ao estado anterior ao aprendizado do nome, pois o nome se liga à condição humana ordinária da imagem, do conceito e da ideia, e termos como Deus e Amor recaem inevitavelmente no conceitual, enquanto o amor aqui implicado é uma concepção que guarda, vigia e assiste desde antes, como fonte oculta que continua regando mesmo quando a noite se retira.
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Nomear arrasta para conceito, ideia, imagem.
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Deus e Amor são sentidos como termos conceituais.
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O amor descrito é anterior e assistente.
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A fonte da vida permanece escondida.
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Nascer e despertar se equivalem, e cada despertar reitera o nascer no amor preexistente como banho de purificação e transparência da substância recebida que se torna transcendente.
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A existência fundada na pretensão de ser separado ofusca o indivíduo nascente, rompendo a infância e fazendo surgir o adolescente como incógnita que joga a ser, ergue o eu como medida de tudo e exercita a liberdade como arma, enquanto apenas na fadiga ou no esquecimento desse exercício se vislumbra a percepção que reconduz ao amor preexistente, embora com temor de afundar-se em sua acolhida, com alusões aos místicos do nascimento e aos místicos da nada, como Miguel de Molinos.
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A adolescência aparece como enigma e jogo de si.
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A liberdade é tomada como coraça e invulnerabilidade.
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A percepção retorna no esquecimento da autoafirmação.
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A acolhida do amor é temida por parecer abandono.
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Místicos do nascimento e da nada são convocados.
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Miguel de Molinos figura como intercessão da nada.
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O adolescente fixa-se na liberdade de dispor de si antes que o amor disponha dele, investindo numa liberdade de amar que nega ao amor e produz asfixia por uma liberdade não compartilhada e não vinda do alto, enquanto a alta liberdade sustenta o nascimento e guia a morte, e apenas o que abre o morrer dá vida.
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A liberdade é descrita como fechamento em si.
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A liberdade vinda do alto é associada a nascimento e morte.
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Vida é vinculada à abertura do morrer.
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Despertar nascendo e despertar existindo formam a bifurcação inicial do ser humano, e o existir arranca do amor preexistente e das águas primeiras por um ímpeto sem substância que arrasta à realidade e ao tempo mensurável, reduz a luz a luminosidade homogênea e transforma seres em metas ou obstáculos, convertendo o milagre do deslumbramento em algo a ser esquecido e abrindo o abismo do esquecimento que conduz ao cuidado ansioso, à luta e à agonia, sem poder abolir a promessa do nascimento que une fim e princípio, enquanto uma centelha de fogo-luz pode mover a respiração inteira e fazer do ser uma aurora.
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O existir precipita o ser para fora do solo natal.
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O tempo impõe medida e obrigação.
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A luz é reduzida para tornar as coisas nítidas e utilizáveis.
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O deslumbramento é recusado como perigo.
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O esquecimento inicia-se como desconhecimento.
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A luta nasce do esquecimento da dívida ao nascimento.
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A promessa do nascimento permanece indestrutível.
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A centelha de fogo-luz acompanha a respiração plena.
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A aurora figura como destino possível do despertar.
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A inspiração é o primeiro ato do respirar, e cada expiração deixa algo do alento inicial alimentando um fogo sutil, enquanto o suspirar tenta restituir o sopro lavado pelo fogo invisível da vida, prendendo o indivíduo ao respirar do todo e ao centro escondido, ao mesmo tempo em que o ser individual arrisca o vazio entre excesso e carência, suspira invocando nova inspiração capaz de atravessar as camadas que envolvem seu arder oculto e sustentar o peso do que sobre ele se apoia.
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Inspiração inaugura e expiração conserva.
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O fogo invisível aparece como substância do viver.
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O indivíduo oscila entre excesso e vazio.
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A invocação chama por nova inspiração sustentadora.
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A palavra desperta indecisa e mal articulada, como se não pudesse orientar-se no espaço humano que toma posse do ser desperto, enquanto o fluir temporal permanece em atraso e o ser guarda um tempo próprio depositado, e a palavra nasce de uma confiança radical do coração humano que se une à raiz da palavra para erguer a condição humana.
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O espaço humano acomete como definidor do ser.
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O tempo próprio permanece retido e confiado.
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A confiança radical é condição de possibilidade da fala.
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Confiança e palavra aparecem como união originária.
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A docilidade da palavra manifesta-se no despertar como balbucio e susurro, semelhante a ave ignorante pronta a levantar voo sem saber para onde ir.
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A palavra nascente é substituída pela palavra intencional da inteligência como ordem que toma posse diante do espaço e do dia e instala a série das ações, recolhendo a primeira palavra ao seu vagar silencioso sem perder a marca de sua diafaneidade, que atravessa como susurro de confiança as cadeias das palavras intencionais e por instantes as afrouxa.
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Palavra intencional impõe comando e ação.
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A palavra primeira não desaparece, apenas se recolhe.
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A confiança atravessa e solta as palavras por instantes.
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Na breve aurora sente-se o germinar lento da palavra no silêncio, e a palavra se desprende na frágil claridade da liberdade antes da irrupção da realidade, de modo que palavra e liberdade precedem a realidade estranha que irrompe diante do ser ainda não acabado de despertar no humano.
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O silêncio é solo de germinação.
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Liberdade aparece como frágil clarear.
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A realidade irrompe após palavra e liberdade.
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Quando a realidade acomete o despertar, a verdade assiste com sua simples presença, pois sem essa presença originária a realidade não seria suportável nem se apresentaria como realidade ao homem.
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A verdade chega como amor e como morte, sendo pressentida e sentida antes de percebida, e sua aparição é vivida como chegada final de algo engendrado secretamente no ser em sonho, como promessa de revelação e garantia de vida e conhecimento, de modo que despertar como reiterar o nascer implica estar no amor e, sem sair dele, na presença da verdade.
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Verdade é anterior ao reconhecimento.
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Sonho figura como incubação da revelação.
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Amor e verdade se implicam no despertar-nascimento.
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A assistência da verdade, ao manter-se como ela mesma, faz-se sentir invulnerável e desperta temor no ser que acorda inerme, pois revela vulnerabilidade e provoca retraimento e desejo de voltar ao antro escondido, exigindo comparecer como si mesmo, e levando a olhar desde um recinto que se transforma em lugar próprio onde se ergue um castelo de razões para defender-se da verdade.
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A invulnerabilidade da verdade revela a vulnerabilidade humana.
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O retraimento produz recinto e interioridade defensiva.
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O castelo de razões figura a defesa racional.
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A verdade resiste como inviolável presença inicial, mas o homem pode opor-se a ela com ciência e perder a visão originária, defendendo-se do amor que a verdade inspira e fixando-se no temor de ser iniciado e conduzido por ela.
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Ciência pode converter-se em arma contra a verdade.
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O amor inspirado pela verdade é recusado pela defesa.
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A iniciação pela verdade é temida e evitada.
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A perda da iniciação pela verdade instala o perguntar infatigável até que o homem se converta em pergunta, figurado pela Esfinge diante de Édipo, cuja resposta geral sobre o homem não lhe permitiu saber-se a si mesmo no escondido do ser, permanecendo oculto até ser exposto sem valimento, enquanto a verdade só se dá ao que permanece inerme diante dela e a segue sem estar diante dela.
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A pergunta devora quem pergunta.
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Édipo e a Esfinge exemplificam saber geral sem autoconhecimento.
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A verdade exige seguimento e não afrontamento.
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O ser sempre esteve escondido e por isso o homem pergunta por ele, movido pelo sentimento de um ser próprio oculto, de modo que o conhecimento objetivo nasce do anseio de dar-se a conhecer, presente mesmo nas formas mais acabadas do saber.
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Em cada despertar o ser preexistente emerge como chamado por uma luz invisível que toca certa profundidade do ninho onde alenta, anunciando padecer e graça da luz, que aparece como a priori do ser humano e talvez de todas as criaturas.
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A luz é anterior e constitutiva.
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O ninho e o alento figuram interioridade originária.
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Padecer e graça são efeitos da luz.
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Os movimentos essenciais do ser humano dão-se em função de uma luz que chega e deve ser anelada, e por um instante quase imperceptível o encontro ocorre como mínima revelação, pois o ser apetece dar-se na luz que o sustente como alimento, derramando paz e leveza de ser sustentado sem flutuar à mercê do oceano da vida.
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A revelação aparece como chispa mínima.
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Orexis é nomeado como apetite do ser pela luz.
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A paz vem de sentir-se ao descoberto sem confronto.
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Sustento difere de flutuação sem apoio.
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Após o acender da luz na manhã ou no centro da noite, o ser recai e volta a esconder-se, e a consciência assiste a essa recaída, mas permanece a experiência de ter evitado o flutuar solitário, porque se encontra o lugar escuro onde brota a fonte tímida da vida, gerando sustento intermitente entre sede, escuridão e instantes de plenitude no esquecimento de si que reacendem o anseio.
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A fonte aparece como caudal escasso e decisivo.
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A plenitude é intermitente e reanimadora.
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O viver humano se descreve como anelar apaziguado por instantes.
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O tempo nacente brota sem figura e sem aviso, não mede movimento nem abriga sucessos, não se mostra sucessivo nem interrompível, e aparece como tempo puro e divino, semelhante a pulsação e presença que palpita como vida.
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Não há imagem nem cronologia.
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O tempo é presença pulsante.
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O divino é associado à não objetificação.
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O tempo como sopro e respiro é presença que não se exterioriza, sentida com o sentir-se de si, como ferida sem bordas que converte ser em vida e oferece um dom ilimitado recebido como próprio, alento congênito ao nascimento que sustenta a visão e permite aceitar a luz sem temor, com alusão a Emilio Prados.
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O sentir e o sentir-se se unem recolhidamente.
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A ferida sem bordas figura transformação em vida.
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A visão é sustentada pelo alento.
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Emilio Prados é citado como imagem do deus congênito.
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Enquanto o ser recebido tende a esconder-se, algo nomeável como alma tende a sair do recinto, e a psicologia e outras ciências evitam essa noção por ser obstáculo à razão analítica, já que o conceito de alma pode ser analisado, mas a alma como movimento singular não se deixa situar em nós nem em si.
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A alma é tratada como suposto metafísico e vínculo da mística.
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A ciência prefere o que é estático e disponível.
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O movimento da alma é descrito como ir e vir por si.
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A psique responde a estímulos e parece estática mesmo na subconsciência, enquanto a alma responde a chamada, invocação e conjuro, aparentando parentesco íntimo com a palavra e certos modos da música, e figurando como fundamento de liturgia.
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Resposta ao estímulo distingue-se de resposta ao chamado.
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Palavra, música e liturgia são aproximadas da alma.
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A alma não se exalta como a psique.
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A alma tem condição alada e itinerante como pomba, volta até o dia em que parte levando o ser onde estava alojada, e sua ausência deixa o ser fixo em prisão sem orientação, de modo que qualquer resquício de luz ou voz funciona como ponto de orientação e vigília.
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A partida da alma é evento decisivo.
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A prisão é definida pela perda de orientação.
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Luz e voz são sinais de esperança no encierro.
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O despertar com a alma faz o ser orientar-se e abrir-se sem sair de si, renascendo ao deixar a guarida do sonho e do não-ser, e quando a alma abandona, deixa-se entrever a vocação extática do voo que nenhum análise científica alcança.
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Renascimento se dá pela orientação da alma.
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A ausência revela vocação extática.
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O voo escapa ao alcance do método analítico.
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Na diferença entre a vida toda e a exigência de existir abre-se a inteligência como ação mesmo quando passiva, não como emanação orgânica, pois a sensibilidade converte em vida o que toca e prepara revelação, enquanto o existente, ao exteriorizar-se pela inteligência, arrisca esvaziar-se da vida primeira e tratar a entraña como objeto sob claridade exterior.
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Inteligência é ação e aptidão para revelar.
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Sensibilidade é vida em forma primeira.
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A exteriorização arrisca perda do interior vital.
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Entraña aparece como interior sagrado resistente à objetificação.
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A inteligência estabelece um dintel separador dentro do próprio ser que entende, apropriando-se paradoxalmente da objetividade sem sacrifício e afastando-se do amor preexistente e da vida recebida de que é depositário.
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O dintel cria separação interior.
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A apropriação da inteligência se dá sem sacrifício.
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O afastamento do amor preexistente acompanha a objetificação.
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A imagem é sempre múltipla e chega como duplo que altera quem a recebe, pretendendo existir como se escapasse de um reino onde cabem apenas ser e vida, enquanto a realidade oferecida ao humano é quase sempre imagem e não consegue permanecer como nuda realidade, pedindo ser e verdade que lhe faltam.
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A imagem aparece como potência de domínio.
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A realidade exige complemento para ser completa.
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A realidade é descrita como meio real e por vezes irreal por excesso.
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A realidade suplica e acomete ao mesmo tempo, como se quisesse recuperar o ser perdido e fundar outro reino, figurada pela serpente e pela lua que possui órbita mas não plenitude, e assim a realidade pede ao homem menos sua imagem do que sua órbita.
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A serpente simboliza busca rasteira do ser.
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A lua exemplifica plenitude apenas imagética.
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A órbita é apresentada como exigência mais profunda que a aparência.