O coração é simultaneamente vaso e centro, centro que se move padecendo e que, receptivo, dá continuidade à vida, submetendo-a a número e ritmo, e, sendo sede do sentir, é mediador sem pausa, escravo que governa, filho do tempo que profetiza um reino que o sobrepuja nos instantes de êxtase, dor sem limites ou plenitude.
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O coração é passividade ativa, mediador sem pausa, escravo que governa, que conduz o tempo e faz presentir um além do reino temporal.
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Como filho de Cronos, o coração profetiza um reino que ultrapassa o tempo, revelado nos instantes privilegiados de êxtase, dor sem limites ou plenitude.
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Tudo passa pelo coração e ele tudo faz passar, mas algo deve passar nele que não se vá com o rio da vida, algo que se faça escondidamente em sua escuridão e que, na quietude final, se abra e se dê por inteiro, um sonho de escape e de derramamento que, enquanto se reitera, o mantém cego, impossibilitado de ser livre sem se conhecer.
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Algo deve fazer-se escondidamente na escuridão do coração, algo invulnerável e luminoso, que, no instante em que ele se quedar quieto, se abrirá e se dará por inteiro.
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O coração sonha em escapar-se e derramar-se, mas enquanto sonha assim, reitera-se e a violência é sua cadeia, arrastando-o cego.
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O coração não pode ser livre sem se conhecer, e esse conhecimento seria o diálogo silencioso da luz com a escuridão, onde o coração, como casca que contém o embrião de luz, anseia por desentranhar-se e perder-se até identificar-se no centro sem fim.