Scheler recusa dois pressupostos do argumento por analogia:
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A tese de que o ponto de partida é uma autoconsciência puramente mental e isolada, anterior à experiência corporal e ao encontro com outros.
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A tese de que jamais há acesso direto à vida mental alheia, apenas inferências a partir de comportamento “sem sentido”.
A fenomenologia deve ater-se ao dado e não deixar que uma teoria determine de antemão o que pode ser dado; por isso, o argumento por analogia superestima as dificuldades da experiência do outro e subestima as da autoexperiência.
É problemático dividir o encontro em dois estágios, percepção de comportamento “sem significado” e atribuição intelectual de significado psíquico, pois isso distorce tanto o comportamento quanto a própria ideia de mente.
No encontro face a face, não se está diante de um corpo “nu” nem de uma psique oculta, mas de uma totalidade unificada que Scheler descreve como unidade expressiva, cuja divisão em “dentro” e “fora” é posterior, abstrativa e derivada.
Merleau-Ponty: afetos como estilos visíveis de conduta e redefinição da psique
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Merleau-Ponty sustenta que emoções como raiva, vergonha, ódio e amor não são fatos psíquicos escondidos no fundo da consciência, mas estilos de conduta que se mostram no rosto e nos gestos, existindo neles e não “atrás” deles.
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A dificuldade da psicologia clássica em explicar o acesso ao outro decorre de preconceitos filosóficos não interrogados, sobretudo a suposição de que a vida experiencial é diretamente acessível apenas ao indivíduo “proprietário” dela, e que o outro é acessível apenas indiretamente por sua aparência corporal.
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Contra isso, Merleau-Ponty afirma que a vida experiencial é primariamente relação ao mundo, e é nessa relação que a consciência do outro se torna acessível, quando eu e outro somos definidos como condutas em operação no mundo.
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A consequência é uma exigência de redefinir o conceito de psique para que se torne inteligível como a compreensão do outro é possível sem recorrer a inferências ou simulações.
Abordagem perceptivo-corporificada e a diferença entre pessoas e coisas
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Fenomenólogos partem da distinção entre perceber corpos físicos e perceber o outro como corpo vivido, isto é, como corpo engajado ativamente em um contexto significativo.
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Como Sartre observa, é um erro pensar que o encontro ordinário com o corpo do outro é encontro com o corpo da fisiologia; o corpo do outro é sempre dado em situação, co-determinada por sua ação e expressividade.
Empatia [Einfühlung] como intencionalidade própria da experiência do outro
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Para Husserl e Stein, a compreensão do outro envolve uma forma específica de intencionalidade chamada empatia [Einfühlung].
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Empatia não se reduz a contágio emocional, tomada imaginativa de perspectiva, simpatia ou compaixão, mas designa uma forma básica e perceptiva de experiência do outro, pressuposta por formas mais complexas e indiretas de compreensão interpessoal.
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Por isso, empatia é frequentemente aproximada de “experiência do outro” ou “percepção do outro”, pois no encontro face a face a vida mental alheia é intuída nos gestos, na entonação e nas expressões faciais, que já se apresentam impregnadas de sentido psicológico.
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Contudo, a presença do outro não é idêntica à autodoação da própria experiência:
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O luto e a raiva do outro podem ser percebidos em sua conduta, mas nunca têm para mim o mesmo sentido que têm para ele, pois para mim eles se mostram, e para ele são vividos.
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Stein recusa a ideia de “transmissão” literal da experiência do outro para minha mente; o decisivo é que a experiência empatizada permanece situada no outro, preservando sua alteridade.
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A assimetria entre autoexperiência e experiência do outro é constitutiva da empatia, pois se o outro fosse dado como eu me dou a mim mesmo, ele deixaria de ser outro e se tornaria parte de mim.
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Husserl descreve a empatia como encontro com uma transcendência peculiar, na qual a consciência se ultrapassa e se depara com um tipo novo de alteridade.
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A possibilidade de erro ou engano não anula o caráter experiencial do acesso ao outro, e a diferença de modos de doação é precisamente o que torna possível falar de “outras mentes”.
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Em consonância com Levinas, a presença do outro se manifesta também como excedência e elusividade: há sempre mais no outro do que aquilo que se apreende.
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Fenomenologia contra teoria-da-mente e simulação
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Ao insistir na possibilidade de um encontro experiencial direto com o outro como ser dotado de mente, a fenomenologia se opõe a posições dominantes no debate da teoria da mente, como a theory-theory e a simulation theory, que negam acesso experiencial e recorrem a inferências teóricas ou simulações internas.
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Para a fenomenologia, o outro é percebido diretamente como ser expressivo, cuja corporeidade manifesta estados e experiências.
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Ser-com [Mitsein] e crítica heideggeriana da empatia
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Heidegger é cético quanto à primazia da empatia [Einfühlung], pois considera que ela nasce de um modelo equivocado: o de sujeitos inicialmente isolados que precisariam construir uma ponte entre si.
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Para Heidegger, essa formulação é absurda, porque Dasein não é primeiro um sujeito sem mundo ao qual mundo e outros se somariam; a constituição do ser-no-mundo já inclui ser-com [Mitsein].
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O encontro ordinário com outros não é primariamente temático-cognitivo, mas situado: encontra-se o outro no mundo compartilhado das ocupações, onde instrumentos, tarefas e fins remetem a outros mesmo quando não presentes.
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A crítica heideggeriana enfatiza:
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A insuficiência de restringir a intersubjetividade ao face a face.
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A questão da primazia entre encontro direto e vida anônima em mundo público.
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O risco de eliminar ou minimizar a diferença entre eu e outro para explicar a vida compartilhada.
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Concordâncias e mediações: Sartre, Husserl e
Schutz
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Sartre corrobora que utensílios e complexos instrumentais remetem a uma pluralidade de outros que os produzem e utilizam, e que viver no mundo é já estar comprometido com significados que não provêm exclusivamente de meu projeto.
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Contudo, Sartre ressalta que um objeto só aparece como “equipamento” que “se usa assim” porque aprendi isso com outros concretos, de modo que o anônimo supõe o encontro efetivo.
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Husserl, já em Ideias II, aponta para exigências indeterminadas de costume e tradição, expressas em fórmulas como “a gente” julga assim, “a gente” segura o garfo assim, vinculando normalidade a vida generativa e historicidade comunitária.
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Schutz propõe uma posição equilibrada:
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O face a face é básico no sentido de que formas derivadas retiram sua validade dele.
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Mas a compreensão interpessoal é plural e contextual, mobilizando um estoque de conhecimento geral e particular que funciona como esquema interpretativo inclusive no encontro direto.
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Assim, pode-se aceitar a crítica heideggeriana sem descartar a empatia, desde que ela seja entendida como capacidade de perceber a expressividade como sentido mental, e não como projeção sentimental.
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Alteridade e confronto: crítica sartreana e radicalização levinasiana
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Sartre critica Heidegger por enfatizar anonimato e substituibilidade, pois isso ocultaria o núcleo dramático da intersubjetividade: o confronto com a alteridade radical do outro.
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Levinas radicaliza essa ênfase, acusando Heidegger de totalização e defendendo que o outro não pode ser possuído, apreendido ou conhecido como objeto, pois, se o fosse, deixaria de ser outro.
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O encontro autêntico com o outro aparece, em Levinas, como visitação e epifania, e é primariamente ético, não perceptivo nem epistemológico.
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Surge aqui uma tensão estrutural:
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Se se elimina a diferença entre eu e outro, a alteridade se perde.
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Se se absolutiza a diferença, a relação se torna obscura e incompreensível.
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Um desafio decisivo da fenomenologia é sustentar um equilíbrio entre semelhança e diferença na inteligibilidade do vínculo intersubjetivo.
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Comunidade e formas ampliadas de socialidade