Ao longo do século XX, contudo, esses caminhos se separaram progressivamente:
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James voltou-se ao pragmatismo.
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Frege e Russell fundaram a tradição da filosofia analítica.
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Husserl desenvolveu a fenomenologia como investigação rigorosa da consciência e da experiência.
A partir da metade do século XX, instalou-se uma quase completa falta de comunicação entre filosofia analítica da mente e fenomenologia, frequentemente marcada por indiferença ou hostilidade recíproca.
Críticas mútuas extremadas exemplificam esse afastamento, como a acusação de que a fenomenologia teria se arrogado o monopólio da filosofia ou, inversamente, de que ela seria um programa de pesquisa intelectualmente falido.
Apesar disso, há interesses comuns, e o livro se propõe a mostrar tanto diferenças estruturais quanto convergências substantivas entre essas tradições.
Psicologia, comportamentismo e a narrativa tradicional distorcida
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A narrativa clássica apresenta a psicologia inicial como introspeccionista, seguida por uma virada comportamentista e, posteriormente, pela revolução cognitiva.
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Segundo essa narrativa, o comportamentismo teria rejeitado a vida mental interior em favor do comportamento observável, sendo depois substituído pelo cognitivismo computacional.
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Essa reconstrução é considerada excessivamente simplificadora e historicamente enviesada.
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Evidências históricas mostram que:
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Métodos objetivistas já estavam presentes nos primeiros laboratórios psicológicos.
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A introspecção sempre foi vista com desconfiança, inclusive por Wundt.
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Conceitos computacionais da mente têm raízes muito anteriores ao século XX.
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A consciência jamais deixou de ser tema filosófico central desde Locke e, antes dele, desde a filosofia antiga.
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O cognitivismo, longe de romper radicalmente com o comportamentismo, preservou traços mecanicistas fundamentais.
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A fenomenologia foi frequentemente identificada, de modo equivocado, com introspeccionismo, o que contribuiu para sua marginalização na filosofia analítica da mente.
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Naturalismo, ciência e a marginalização da fenomenologia
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A filosofia analítica da mente dominante adotou amplamente o naturalismo, enquanto a fenomenologia foi associada a uma postura não naturalista ou antinaturalista.
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Como as ciências cognitivas emergiram sob forte influência do computacionalismo e do naturalismo, a filosofia analítica pareceu oferecer o arcabouço conceitual mais adequado.
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O funcionalismo, por exemplo, forneceu bases filosóficas centrais ao modelo computacional da mente.
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Nesse contexto, a fenomenologia foi considerada irrelevante para a inteligência artificial e para as ciências cognitivas, com raras exceções, como o trabalho de Hubert
Dreyfus.
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Mudanças recentes e reabertura do diálogo
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Três desenvolvimentos principais reabilitaram a relevância da fenomenologia:
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O renovado interesse pela consciência fenomenal, especialmente a partir do debate sobre o problema difícil da consciência.
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A ascensão das abordagens da cognição incorporada, que criticam a ideia de uma mente puramente computacional e desincarnada.
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Os avanços das neurociências e das técnicas de brain imaging, que exigem descrições refinadas da experiência subjetiva para o desenho e a interpretação de experimentos.
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Autores como Varela, Thompson, Rosch, Damasio e Clark recorreram explicitamente a Merleau-Ponty para fundamentar críticas ao dualismo mente-corpo e ao computacionalismo clássico.
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A fenomenologia passa a ser vista como fonte metodológica para a descrição rigorosa da experiência, sem recaída no introspeccionismo ingênuo.
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O que é a fenomenologia enquanto abordagem filosófica
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A fenomenologia nasce com Husserl e se desenvolve como um conjunto plural de abordagens, incluindo existencialismo e hermenêutica, bem como críticas internas e externas.
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Apesar da diversidade, há um núcleo comum que orienta a investigação fenomenológica.
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Diferentemente dos manuais tradicionais de filosofia da mente, a fenomenologia não começa por assumir posições metafísicas como dualismo ou materialismo.
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Ela suspende, coloca entre parênteses, tais compromissos teóricos, a fim de voltar-se ao fenômeno tal como é vivido.
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O lema “às próprias coisas” expressa a exigência de descrever a experiência tal como se dá, antes de filtrá-la por pressupostos teóricos estranhos.
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A suspensão das questões metafísicas e o primado da experiência
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A fenomenologia não nega nem afirma teses como “o cérebro causa a consciência”, mas suspende o juízo sobre elas.
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O ponto de partida é a experiência vivida, não sua explicação causal.
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No caso da percepção, o fenomenólogo não investiga processos neurais, mas descreve como a percepção aparece ao sujeito e como ela se diferencia de imaginação ou memória.
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Processos cerebrais podem ser condições causais da percepção, mas não fazem parte do conteúdo experiencial do percipiente.
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Primeira pessoa e terceira pessoa
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A fenomenologia adota uma perspectiva de primeira pessoa, interessada no significado da experiência para o sujeito.
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As ciências cognitivas adotam predominantemente uma perspectiva de terceira pessoa, explicando a experiência por meio de processos subpessoais objetivos.
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Ambas tratam do mesmo fenômeno, mas fazem perguntas distintas e produzem explicações de naturezas diferentes.
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Estrutura intencional da experiência
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Toda consciência é intencional, isto é, é sempre consciência de algo.
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A experiência nunca é isolada ou elementar, mas sempre refere-se a um mundo, entendido em sentido amplo, físico, social e cultural.
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A percepção não é mera recepção passiva de dados, mas envolve interpretação e sentido.
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Ver algo como algo, por exemplo, um carro como meu carro, já implica um horizonte de significados sedimentados por experiências anteriores.
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Contextualidade, corporeidade e sentido prático
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A percepção é informada por hábitos, práticas e capacidades corporais.
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O conteúdo perceptivo depende do contexto pragmático, social e cultural em que o sujeito está inserido.
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Em vez de dizer que a mente representa propriedades abstratas, a fenomenologia enfatiza que o mundo se oferece como dotado de possibilidades de ação em relação a um corpo situado.
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Espacialidade, temporalidade e incompletude prospetiva
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A percepção é perspectivada: nunca vemos um objeto em sua totalidade de uma só vez.
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Cada percepção envolve ocultamento de aspectos e antecipação de outros, formando expectativas tácitas.
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Essa estrutura implica uma dimensão temporal essencial, descrita fenomenologicamente como síntese do passado, presente e futuro imediato.
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Estrutura gestáltica da percepção
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A experiência perceptiva organiza-se em figura e fundo, foco e horizonte.
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O deslocamento da atenção implica sempre reorganização do campo perceptivo.
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Fenomenicidade e “como é” da experiência
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Além da estrutura intencional, a fenomenologia investiga o caráter qualitativo da experiência, o “como é” vivenciar algo.
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Esse aspecto fenomenal não é separado da intencionalidade, mas articulado a ela.
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Fenomenologia e ciência: complementaridade
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A descrição fenomenológica não substitui explicações científicas, mas fornece um modelo claro do que deve ser explicado.
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Qualquer tentativa de naturalizar ou reduzir a consciência requer uma compreensão prévia adequada do fenômeno a ser reduzido.
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Uma análise fenomenológica rigorosa oferece ao cientista um ponto de partida mais sólido do que pressupostos de senso comum.
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Crítica ao uso impreciso do termo “fenomenologia”
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Em debates contemporâneos, o termo é frequentemente usado como sinônimo de introspecção ou descrição subjetiva não controlada.
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Essa identificação é enganosa, pois ignora o caráter metodológico rigoroso da fenomenologia.
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Fenomenologia, teoria e ciência cognitiva
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A fenomenologia não rejeita teoria, mas busca evitar dogmatismo e preconceitos teóricos.
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As descrições fenomenológicas podem fundamentar teorias da percepção, da intencionalidade e da fenomenicidade.
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A tese central do livro é que essas teorias podem contribuir de modo mais fecundo às ciências cognitivas do que debates metafísicos abstratos, como o problema mente-corpo em sua formulação tradicional.