XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.
IX. Nietzsche, fenomenólogo dos afetos. Leitura a partir de Heidegger
1. Os pensamentos constituem sinais de um jogo e de uma luta entre afetos, permanecendo vinculados a raízes ocultas que sustentam sua formação e seu movimento.
2. A singularidade da crítica nietzschiana à tradição ocidental não pode ser compreendida apenas por sua radicalidade, pois outras filosofias também radicalizam os problemas herdados mediante distinções e fundamentações, preservando, contudo, uma continuidade quiditativa que mantém os conteúdos tradicionais e sua orientação teórico-cognoscitiva.
3. A radicalidade de Nietzsche e Heidegger pode ser compreendida como quoditativa ou suprarradical porque interroga aquilo pelo que os conteúdos são apreendidos e valorizados, em vez de simplesmente substituí-los, de maneira que terra e corpo funcionam como indicações capazes de revelar a desvalorização do mundo e a multiplicidade de forças vitais irredutíveis à razão.
4. A orientação nietzschiana para o modo de apreensão dos problemas aproxima-se da elaboração fenomenológica das indicações formais, pelas quais o jovem Heidegger procura desenvolver conceitos que remetam à realização da experiência vivida, sem fixá-la em conteúdos essenciais petrificados.
5. As expressões fundamentais do pensamento nietzschiano, como vontade de poder, morte de Deus, eterno retorno, transvaloração, niilismo e além-do-homem, assim como corpo, terra e afetos, exigem uma leitura indicativa orientada para aquilo que questionam e tornam visível, evitando sua redução a conceitos tradicionais definidos por um conteúdo estável.
6. A filosofia nietzschiana realiza uma afirmação da vida que exige coerência entre sua expressão e aquilo que afirma, questionando a vontade de saber como domínio racional e conceitual do mundo e rompendo a continuidade de uma tradição que preserva seus pressupostos mediante sucessivas tentativas de fundamentação.
OS AFETOS COMO INDICADORES
1. A investigação nietzschiana dos afetos questiona a primazia teórico-cognoscitiva da filosofia e a pretensão kantiana de começar pela crítica da faculdade de conhecer, pois a razão não pode assumir sem dificuldades a posição de instrumento que avalia sua própria eficácia, seus limites e seus resultados.
2. A crítica da razão exige interrogar os motivos que sustentam o próprio conhecimento, reconduzindo-o à vontade de conhecer e retomando a perspectiva aberta por Schopenhauer sobre a relação entre vontade e representação.
3. A crítica schopenhaueriana considera que Kant permaneceu no domínio da representação, enquanto a experiência imediata da vontade revela aquilo que a objetivação cognoscitiva não alcança, oferecendo uma chave para compreender a essência, a conduta e os movimentos daquele que conhece.
4. A apropriação nietzschiana dessa crítica permite reconhecer que a vida não pode ser reduzida ao conhecimento e que o saber constitui uma manifestação da vontade de poder, cuja pretensão de fazer coincidir pensamento e realidade prolonga a orientação intelectualista estabelecida desde Sócrates e Platão.
5. A crítica à vontade de poder configurada como conhecimento torna-se explícita quando a investigação da vontade de verdade revela o impulso de submeter tudo o que existe à possibilidade de ser pensado.
6. A vontade de verdade dos sábios exprime o desejo de tornar pensável a totalidade do existente e de constituir um mundo diante do qual seja possível reverenciar-se, manifestando uma desconfiança prévia em relação ao caráter do mundo tal como ele se apresenta.
7. A moral constitui uma desconfiança em relação à vida que, diante da ausência de finalidade intrínseca do devir, pressupõe um mundo de entes permanentes como meta, fazendo dessa permanência uma crença improdutiva que apenas procura os meios de alcançar aquilo cuja validade já foi antecipadamente admitida.
8. A pressuposição de uma finalidade impede a potência criadora da vontade e rebaixa a vida à condição de meio para uma meta previamente estabelecida, subordinando seu movimento de intensificação à demonstração de um ser permanente.
9. A vontade de poder designa um pathos originário, anterior às determinações de ser e devir, a partir do qual se tornam possíveis o acontecer e a produção de efeitos, constituindo a forma primitiva do afeto da qual os demais afetos são configurações.
CONCLUSÃO
1. A substituição da teoria do conhecimento por uma doutrina perspectivista e hierárquica dos afetos não consiste em trocar elementos independentes, pois os próprios afetos sustentam tanto a afirmação da vida quanto a moral que dela desconfia, tornando necessário compreender como são contidos, cultivados e articulados em diferentes configurações da vontade de poder.
2. A relação entre pensamento e afetos não exige escolher entre conhecimento e irracionalismo, mas questionar a interpretação unilateral que reduz todo pensar à atividade teórico-cognoscitiva e impede reconhecer as condições afetivas de seu acontecer.
3. Os conteúdos que chegam à consciência constituem resultados e sintomas de um encadeamento mais profundo, de maneira que a aparente sucessão causal entre pensamentos encobre processos que ocorrem abaixo do nível consciente e nos quais cada pensamento permanece sustentado por um afeto.
4. A vida constitui uma configuração particular da vontade de poder fundada nos afetos, cuja investigação oferece uma morfologia de suas forças e impede reduzir a existência humana ao conhecimento ou ao exercício da razão, preservando possibilidades filosóficas que a tradição ocidental restringiu.
5. A centralidade dos afetos em Nietzsche participa de uma transformação mais ampla da filosofia entre os séculos XIX e XX, também presente em Dilthey e Rickert e posteriormente desenvolvida ontologicamente por Heidegger, embora a singularidade suprarradical da investigação nietzschiana permaneça um caminho cujas possibilidades apenas começam a ser exploradas.