XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.
VIII. Filosofia, ciência e loucura. Sobre os Seminários de Zollikon (GA89) de Martin Heidegger
1. As conversações com Viktor von Gebsattel constituem uma interlocução fecunda, sustentada pelo conhecimento preciso de seu pensamento e por uma rede de relações que também inclui Ludwig Binswanger, evidenciando a proximidade de Heidegger com o campo da psiquiatria.
HEIDEGGER, A CIÊNCIA E A PSIQUIATRIA
1. A interpretação da obra heideggeriana a partir de frases isoladas favorece construções dogmáticas que dispensam o exame de sua documentação mais ampla, tanto na discussão de seu envolvimento com o nacional-socialismo quanto na avaliação de sua relação com a ciência, frequentemente reduzida à afirmação de que a ciência não pensa.
2. A publicação progressiva das obras e da correspondência de Heidegger oferece elementos que exigem rever a interpretação consolidada de uma hostilidade indiscriminada de seu pensamento em relação à ciência.
3. A formação inicial em ciências físico-matemáticas, a investigação do sentido das ciências na universidade, o confronto com problemas científicos e o diálogo direto com pesquisadores mostram um interesse persistente pela atividade científica, acompanhado de críticas às concepções que a orientam.
4. A interlocução com a física e a psiquiatria encontra expressão tanto em encontros pessoais com cientistas quanto na correspondência com físicos e psiquiatras, constituindo uma documentação ampla da relação entre investigação filosófica e conhecimento científico.
5. O contato com Binswanger, iniciado em 1928, e com Medard Boss, estabelecido em 1947, favoreceu tentativas de transformar a psiquiatria mediante a crítica de seus fundamentos subjetivistas e a compreensão ontológica do ser humano como Dasein.
6. O interesse específico pela psiquiatria decorre de seu caráter particularmente fecundo como lugar de encontro entre pensamento filosófico e pensamento científico-natural, embora sua importância para Heidegger não se esgote em sua preferência biográfica pelas ciências.
7. A convergência entre formação científica, experiência filosófica e investigação psiquiátrica exige esclarecer quais frutos podem resultar desse encontro e em que medida o diálogo com as ciências naturais permite transformar a compreensão e a prática da psiquiatria.
8. A aproximação entre filosofia e psiquiatria nasce também das exigências da experiência vivida, pois o filosofar constitui um comportamento da própria vida e precisa confrontar as continuidades, rupturas e dificuldades que atravessam a existência.
9. A unidade entre pensamento e vida foi marcada, em Heidegger, por dificuldades interiores e crises profundas que o aproximaram da psiquiatria também como paciente, tornando sua investigação dos fenômenos humanos inseparável de experiências que atingiram sua própria existência.
O INTERESSE EXPERIENCIAL PELA PSIQUIATRIA
1. A crítica heideggeriana aos processos terapêuticos concentra-se na concepção de ser humano pressuposta pelas ciências particulares, cuja determinação orienta previamente os fenômenos reconhecidos e os procedimentos empregados.
2. A psicologia, a antropologia e a psicopatologia tendem a considerar o ser humano como objeto simplesmente presente, delimitando-o como um setor dos entes constituído pelo conjunto de características empiricamente constatáveis.
3. A ontologia fundamental procura compreender o ser humano a partir de sua existência como compreensão afetiva em meio aos entes, restituindo a especificidade de um modo de ser que não se reduz à simples presença.
4. A interpretação presencial do humano restringe sua compreensão às figuras do sujeito filosófico e do objeto científico, enquanto a análise existencial rompe essa alternativa ao interrogar o modo de ser próprio daquele que compreende o ser.
5. A identificação de pressupostos presenciais nas ciências particulares permite reconhecer que uma transformação de seus fundamentos pode modificar também seus métodos de acesso, especialmente nas ciências humanas, constituindo a motivação filosófica da experiência de Zollikon.
6. A leitura de Ser e tempo levou Boss a procurar Heidegger para esclarecer questões sobre a experiência do tempo nos pacientes psiquiátricos, recebendo uma resposta que reconhecia o interesse filosófico pelos princípios da psicologia e da psicopatologia e, simultaneamente, a ausência de domínio especializado das pesquisas dessas áreas.
7. O entusiasmo de Heidegger diante da interlocução com Boss precisa ser situado no contexto das dificuldades pessoais e institucionais que atravessaram sua vida ao término da Segunda Guerra Mundial.
8. O colapso de 1946 e a recuperação na clínica de Badenweiler, sob os cuidados de Viktor von Gebsattel, conferiram ao interesse pela psicoterapia uma dimensão diretamente experiencial, enquanto o vínculo entre paciente e terapeuta também se desenvolveu como diálogo sobre os fundamentos filosóficos da psicoterapia e da antropologia.
9. A pergunta pelos princípios da psicoterapia, da psiquiatria e da psicologia surgiu de experiências pessoais de crise e encontrou na convergência entre filosofia e ciência natural um campo de investigação particularmente estimulante.
OS SEMINÁRIOS DE ZOLLIKON
1. O interesse mantido ao longo da interlocução com Boss adquiriu uma forma organizada nos Seminários de Zollikon, realizados entre 1959 e 1970, nos quais médicos, psiquiatras e estudantes dialogaram com a investigação filosófica heideggeriana.
2. Os encontros ofereceram a possibilidade de aproximar o método fenomenológico de médicos formados segundo as ciências naturais, considerando os condicionamentos históricos e técnicos que orientavam sua compreensão e sua prática.
3. A concentração excessiva no saber especializado e na prática imediata dificulta a formação reflexiva dos médicos, constituindo uma tendência mais ampla cujo agravamento acompanha o predomínio crescente da técnica.
4. A reflexão sobre a formação médica exige aprofundar a análise do domínio exercido pelo pensamento técnico e calculador sobre as possibilidades de compreender os fenômenos.
5. O poder do pensamento técnico-calculador se fortalece pela eficácia e pelo fascínio do progresso, mas continua dependente de fenômenos diretamente percebidos, razão pela qual a dificuldade de contestá-lo torna ainda mais necessária a preservação da visão simples do que se manifesta.
6. O diálogo com a psiquiatria procura delimitar os métodos científicos, interrogar sua determinação técnica e resguardar a possibilidade de um ver fenomenológico capaz de transformar a investigação, exigindo médicos que pensem e não entreguem integralmente seu campo à especialização técnico-científica.
7. O crescimento da informação pode acompanhar o aumento da cegueira para os fenômenos, tornando mais urgente uma reflexão que distinga a acumulação de dados da capacidade de perceber e compreender aquilo que efetivamente aparece.
8. A psiquiatria constitui um campo exemplar de encontro entre pensamento filosófico e ciência natural, no qual a crítica heideggeriana incide sobre a insuficiência da reflexão científica acerca de seus próprios fundamentos e procedimentos.
9. O caráter técnico da ciência moderna não se limita à aplicação de resultados, pois sua constituição histórica depende do projeto de uma natureza calculável e da posição de um sujeito que se dirige a objetos mensuráveis, fazendo da calculabilidade o instrumento privilegiado de sua objetividade.
10. A fundamentação do conhecimento na formação de representações e na busca de certeza matemática estabelece o caminho histórico que conduz ao domínio contemporâneo da técnica sobre as ciências e sobre a compreensão da natureza.
11. A objetivação técnica do humano nas ciências particulares antecipa sua determinação e enfraquece a pergunta por quem ele é e como existe, exigindo uma compreensão capaz de corresponder ao fenômeno fundamental da abertura do ser.
CONCLUSÃO
1. Os Seminários de Zollikon tornaram acessíveis os limites e horizontes do conhecimento disciplinar mediante a desconstrução de pressupostos científicos e metafísicos relativos ao tempo, ao espaço e ao corpo, abrindo possibilidades de compreender fenômenos terapêuticos a partir da constituição ontológica do Dasein.
2. A crítica da cientificidade moderna e o desenvolvimento de uma compreensão existencial forneceram bases para uma prática terapêutica orientada pelo ser humano como abertura ao mundo, cujas possibilidades de relação com os outros e com as coisas podem sofrer restrições e fechamentos severos.
3. A experiência terapêutica de Badenweiler contribuiu para a interlocução de Zollikon e para a extensão da crítica à subjetividade aos fundamentos da psiquiatria, evidenciando um exercício filosófico de diálogo e delimitação das pretensões científicas que também exige rever as imagens de uma vida imperturbável e de uma hostilidade heideggeriana indiscriminada à ciência.