XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.
V. Diferença corporal. Heidegger e a crítica a Descartes sobre o corpo
1. O corpo oferece ao pensamento uma possibilidade de compreensão mais surpreendente e fecunda do que a antiga concepção de alma.
2. A resposta de Heidegger à crítica de Sartre sobre a escassez de considerações acerca do corpo em Ser e tempo reconhece a dificuldade extrema da questão corporal e indica que, no momento de elaboração da obra, ainda não havia condições para desenvolvê-la mais amplamente.
3. A ausência de uma investigação explícita do corpo em Ser e tempo não implica necessariamente seu completo esquecimento, pois a questão pode permanecer implicitamente articulada ao distanciamento das concepções metafísicas tradicionais, exigindo uma reconstrução dos elementos dispersos nas críticas dirigidas a essas concepções.
4. A compreensão da problemática corporal em Heidegger pode desenvolver-se inicialmente pela via negativa de sua crítica a Descartes, permitindo posteriormente reconhecer determinações positivas que esclareçam o aparente esquecimento do corpo na ontologia fundamental.
5. A possibilidade de pensar o corpo a partir da existência exige confrontar a concepção moderna que procura compreender o ser humano mediante a composição entre uma dimensão espiritual e uma dimensão corporal.
6. O ser-em não pode ser esclarecido ontologicamente pela atribuição de uma propriedade espiritual ao ser humano e pela derivação de sua espacialidade da corporalidade vivida (Leiblichkeit), supostamente fundada na corporeidade física (Körperlichkeit), pois essa composição de duas coisas presentes mantém obscuro o modo de ser do ente assim constituído.
7. A investigação das estruturas do ente para o qual o ser é acessível confronta a experiência cotidiana do ser-no-mundo com a definição cartesiana do humano como união de espírito e corpo, tornando necessário distinguir a corporalidade existencial daquela pensada no horizonte da subjetividade e de sua composição substancial.
A PROPOSTA DE DESCARTES
1. A concepção cartesiana do ser humano articula três noções fundamentais — corpo, espírito e união entre ambos —, reconhecendo nesta última uma unidade singular que não pode ser reduzida isoladamente a qualquer uma de suas partes.
2. As sensações de dor, fome e sede mostram que a mente não se encontra no corpo como um marinheiro em seu navio, mas permanece estreitamente unida e como que misturada a ele, pois a experiência sensível resulta dessa união e não de uma simples percepção intelectual das alterações corporais.
3. A possibilidade de separar conceitualmente a mente do corpo não elimina a função essencial das sensações na determinação do humano, pois um espírito apenas alojado em um corpo perceberia seus movimentos sem sentir como os seres humanos, cuja existência corporal envolve necessariamente a experiência sensível.
4. A noção de mistura sugere que as propriedades dos elementos inicialmente distintos se modificam na unidade resultante, como ocorre com ingredientes de consistências diferentes que, ao serem combinados, adquirem características compartilhadas e deixam de conservar integralmente sua condição anterior.
5. A união entre o corpo extenso e a mente pensante apresenta uma assimetria, pois a mistura cartesiana é descrita predominantemente como incorporação da mente ao corpo, sem uma correspondente transformação do corpo em mente, embora permaneça uma interação recíproca entre ambos, especialmente nas emoções.
6. A tentativa de esclarecer a união permite atribuir à alma matéria e extensão em um sentido distinto daquele próprio dos corpos, pois sua relação com o espaço não possui o caráter de exclusão e impenetrabilidade que impede dois corpos de ocuparem simultaneamente o mesmo lugar.
7. A atribuição de matéria e extensão à alma pode auxiliar a compreensão de sua união com o corpo, desde que se reconheça posteriormente que a matéria assim considerada não constitui o próprio pensamento e que a extensão do pensamento difere da extensão corporal, delimitada espacialmente e excludente de outros corpos.
8. O caráter imaterial da alma permanece preservado porque a matéria atribuída à sua união com o corpo não se identifica com o pensamento, enquanto a extensão que lhe corresponde exige uma determinação própria, distinta da impenetrabilidade característica da extensão material.
9. A controvérsia cartesiana com Henry More distingue a extensão da substância (extentio substantiae), própria da matéria, da extensão da potência (extentio potentiae), atribuível à alma segundo sua capacidade de atuação.
10. A extensão da potência designa a causalidade ativa de realidades espirituais, como Deus, os anjos e a mente, manifestando-se na criação ou na capacidade de mover o corpo e exigindo que a união psicofísica seja compreendida a partir de uma noção própria.
11. As noções primitivas fornecem os fundamentos dos demais conhecimentos, cabendo à extensão esclarecer o corpo, ao pensamento esclarecer a alma e à união esclarecer sua ação recíproca, pela qual a alma move o corpo e o corpo produz na alma sentimentos e paixões.
A CRÍTICA HEIDEGGERIANA
1. A compreensão heideggeriana do corpo deve partir da existência como modo de ser humano, em vez de tomar como fundamento uma unidade constituída pela mistura de corpo e alma, exigindo inicialmente o distanciamento da determinação cartesiana.
2. A unidade psicofísica cartesiana permanece condicionada pela independência ontológica previamente atribuída ao corpo e à alma, de maneira que, mesmo quando as sensações ocupam uma posição central, a alma continua sendo aquilo que sente e o corpo aquilo que a afeta.
3. A experiência sensível não é compreendida a partir de seu próprio modo de manifestação, pois a unidade sentiente entre corpo e alma permanece subordinada à extensão e ao pensamento, fazendo da sensação uma modificação do pensar e atribuindo à alma uma extensão potencial.
4. A crítica fenomenológica incide sobre a explicação do ente que sente mediante determinações que não lhe são próprias, pois extensão e pensamento pertencem a domínios mais gerais e levam a compreender a singularidade humana a partir de características compartilhadas com outros corpos ou seres espirituais.
5. A tentativa cartesiana de reconhecer nas sensações uma dimensão especificamente humana permanece limitada pelos pressupostos substanciais de sua concepção, fazendo da mistura entre corpo e alma a expressão máxima da unidade própria do ser humano.
6. A determinação do Dasein pela existência procura evitar a derivação de seu modo de ser a partir de outro domínio ontológico, recusando a generalização da simples presença como fundamento comum para compreender tanto o corpo extenso quanto a coisa pensante.
7. A orientação existencial exige transformar os conceitos herdados, inclusive o de corpo, pois a corporalidade não pode ser reduzida à presença extensa, embora permaneça necessário esclarecer experiências como a dor, a fome e a sede que pertencem ao ente que pergunta pelo ser.
8. A existência não é desprovida de corpo, mas sua corporalidade precisa ser compreendida a partir de seu próprio modo de ser, sem redução à extensão ou derivação de outra realidade, exigindo pensar o corporar em sua manifestação específica.
9. A identificação exclusiva do corporar com a presença extensa favorece a interpretação equivocada de uma existência sem corpo, cuja superação depende de compreender a diferença ontológica entre ser e ente como fio condutor da investigação heideggeriana.
10. A diferença ontológica permite distinguir os fenômenos que aparecem como entes daqueles que, sem se manifestarem dessa maneira, constituem dimensões de ser e se retraem, como mundo, tempo e verdade, abrindo a possibilidade de situar também o corpo nesse domínio.
11. A análise dos utensílios mostra que sua manifestação como algo à mão depende de uma conjuntura de remissões que constitui seu ser e sua pertença ao mundo, embora essa conjuntura não apareça como outro utensílio, evidenciando a diferença entre o ente manifesto e o modo de ser que possibilita sua manifestação.
12. A diferença ontológica também atravessa o Dasein, distinguindo abertura de ser e descoberta dos entes, disposição afetiva e estados de ânimo, projeto compreensivo e possibilidades compreendidas, pois a existência constitui seu modo de ser sem aparecer como mais um ente presente.
13. As diferentes determinações do ser possuem em comum sua distinção em relação ao ente e seu retraimento diante da manifestação ôntica, de modo que o utensílio e as possibilidades existenciais aparecem, enquanto o mundo, o projeto compreensivo e a disposição afetiva permanecem como dimensões ontológicas de sua abertura.
14. O caráter ontológico da conjuntura, da compreensão e da disposição afetiva impede sua tematização como entes, conferindo-lhes um caráter de nada entendido como não ente, sem que isso signifique inexistência ou ausência de eficácia na manifestação.
15. O trato cotidiano com os utensílios evidencia o retraimento da mão e do corpo, embora sua presença implícita atravesse as próprias determinações de disponibilidade manual (Zuhandenheit) e de simples presença (Vorhandenheit), sugerindo que a corporalidade participa da compreensão dos modos de ser dos entes cotidianos.
16. O uso das mãos para manejar objetos distingue o utensílio disponível da coisa simplesmente presente, mas não autoriza compreender a mão ou o corpo como utensílios, pois estes pertencem ao Dasein, cujo existir se determina em vista de si mesmo e não apenas pela finalidade instrumental de um para-algo.
17. O retraimento do corpo pode ser compreendido em analogia com o retraimento do mundo e das estruturas de abertura da existência, embora Ser e tempo não estabeleça para ele uma distinção terminológica tão explícita entre dimensão ontológica e manifestação ôntica quanto aquela empregada para disposição afetiva e estados de ânimo ou compreensão e possibilidades, contribuindo para a impressão de seu esquecimento.
18. A investigação corporal dos Seminários de Zollikon pode ser compreendida em continuidade com problemas já presentes em Ser e tempo, desde que se considerem a diferença ontológica e o procedimento negativo da crítica, embora a abordagem posterior abandone a orientação transcendental que caracterizava a ontologia fundamental.
19. A introdução da facticidade do Dasein oferece uma via específica para compreender o corpo no interior da orientação transcendental de Ser e tempo, relacionando a concreção existencial às estruturas fundamentais de seu modo de ser.
20. A facticidade designa o caráter próprio do fato de que o Dasein existe a cada vez de maneira determinada, cuja estrutura somente pode ser compreendida à luz dos existenciais fundamentais que constituem seu ser.
21. As lições que antecedem e sucedem Ser e tempo esclarecem a relação entre as estruturas fundamentais e a concreção de cada existência mediante a noção de neutralidade metafísica do Dasein, cuja interpretação antecede determinações fácticas particulares e, nesse sentido, não se restringe a qualquer um dos sexos.
22. A distinção entre neutralidade e existência fáctica recebe uma explicitação adicional quando a análise diferencia o caráter neutro da estrutura existencial e sua necessária concretização em uma existência determinada.
23. A neutralidade essencial do Dasein não permanece intacta em sua existência fáctica, pois existir implica romper essa neutralidade e assumir uma concreção sexuada, descrita nas lições como masculina ou feminina.
24. A relação entre neutralidade e concreção exige esclarecer se as estruturas existenciais seriam espirituais e desprovidas de corpo, evitando que a análise reproduza a separação entre corpo e alma e recorra novamente à mistura para explicar sua unidade.
25. A redução do corpo a uma determinação exclusivamente ôntica faria do Dasein uma realidade espiritual, enquanto sua interpretação ontológica como presença já determinada introduziria características antropológicas particulares na ontologia fundamental, tornando necessário encontrar outra compreensão da corporalidade.
CONCLUSÃO
1. O corpo deve ser compreendido ontologicamente a partir da existência e de seu retraimento possibilitador, pelo qual pode manifestar-se como meu corpo, de maneira que a existência é originariamente corporal e a facticidade pertence às próprias estruturas existenciais, sem constituir um acréscimo posterior a uma neutralidade supostamente incorpórea.
2. A condição de estar-lançado pertence constitutivamente à abertura do Dasein e revela que ele, enquanto meu e enquanto este existente determinado, já se encontra em um mundo e entre entes específicos, tornando sua abertura essencialmente fáctica.
3. A neutralidade do Dasein pode ser compreendida, no horizonte transcendental, como dispersão originária que possibilita as concreções ônticas, inclusive a diferenciação sexual, sendo essa dispersão identificada ao ser-com como estrutura anterior às formas particulares de convivência.
4. O ser-com não deriva da simples presença conjunta nem da divisão sexual dos seres corpóreos, pois a própria tendência à união entre eles pressupõe uma dispersão mais originária do Dasein que torna possível a relação com outros.
5. A compreensão existencial do corpo permanece aberta e não oferece uma solução definitiva, mas permite pensá-lo a partir do jogo de ocultamento e desocultamento constitutivo do ser-no-mundo, preparando desenvolvimentos posteriores nos Seminários de Zollikon e nas investigações sobre a essência da verdade.