2 Indicações formais

XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.

II. A sombra conceitual. Conceitos operativos e indicações formais na fenomenologia

1. A concentração extrema na experiência fáctica constitui uma exigência para conquistar a própria facticidade como problema, de modo que a ausência momentânea de referências explícitas à indicação formal, à crítica da concepção habitual do a priori e à formalização não significa o abandono dessas questões no desenvolvimento do pensamento.

2. A necessidade de uma filosofia examinar seus próprios conceitos depende da compreensão da linguagem que a orienta, pois, quando a expressão deixa de ser considerada um veículo neutro e passivo e passa a ser reconhecida como participante da formação do sentido, torna-se indispensável retornar às operações linguísticas pelas quais o pensamento constitui e apresenta seus objetos.

3. A investigação dos meios expressivos da filosofia não resolve seus problemas pela simples explicitação de condições materiais, mas nasce da relação do pensamento com seus próprios limites, assumindo na fenomenologia a exigência de revisar pressupostos conceituais sem transformar essa revisão em tarefa preliminar autônoma, uma vez que os conceitos devem surgir das questões investigadas e permanecer orientados por elas.

4. A fenomenologia procura expressar linguisticamente o sentido silencioso da experiência intuitiva da consciência intencional, recorrendo a metáforas e analogias capazes de trazer à linguagem aquilo que não se reduz ao sentido linguístico habitual e que se encontra aquém ou além das formas ordinárias de expressão.

5. A crítica dos conceitos fenomenológicos precisa investigar aquilo que se configura por meio deles, além de sua origem e formação, e conduz Heidegger, no confronto com Husserl, à elaboração das indicações formais (formale Anzeige), destinadas a abordar a experiência cotidiana do mundo circundante mediante uma práxis fenomenológica que orienta o comportamento diante do dado, sem transmitir conteúdos previamente constituídos.

6. A passagem heideggeriana do quê ao como envolve a transformação hermenêutica dos conteúdos fenomenológicos, articulando a distinção entre conceitos temáticos e operativos, a integração das sombras operativas ao próprio conteúdo da experiência e a elaboração de indicações formais capazes de expressar aquilo que tende a ocultar-se.

CONCEITOS TEMÁTICOS E OPERATIVOS NA FENOMENOLOGIA

1. A fenomenologia parte da linguagem disponível para comunicar suas descobertas, mas exige fundamentar seus conceitos em uma fonte pré-linguística legítima de conhecimento, reconduzindo as expressões às estruturas lógicas puras e à intuição antepredicativa, para que as diferenças terminológicas correspondam efetivamente às diferenças entre as coisas dadas.

2. A verdade de uma teoria depende dos dados originariamente oferecidos na intuição, de maneira que uma proposição capaz de explicitá-los por significações ajustadas ao que aparece constitui um começo absoluto e pode exercer uma função genuinamente fundadora.

3. A concepção husserliana atribui relativa transparência à expressão gramatical da fenomenologia, pois as palavras provenientes da linguagem comum, apesar de sua equivocidade e imprecisão, adquiririam um sentido determinado ao corresponderem ao intuitivamente dado na atitude transcendental, tornando possível sua fixação científica e sua libertação de significações obscuras.

4. A crítica de Fink evidencia que compreender a palavra apenas como adaptação fiel à essência intuída reconhece sua capacidade de transportar sentido, mas negligencia sua participação constitutiva, pois a formação dos conceitos filosóficos depende de compreensões anteriores e de outros conceitos ainda imprecisos, conservando sombras e perfis de sentido desde sua definição.

5. A distinção entre conceitos temáticos e operativos permite reconhecer, de um lado, as formulações pelas quais o pensamento fixa explicitamente aquilo que pensa e, de outro, os recursos empregados sem tematização suficiente, como metáforas, analogias, modelos e esquemas, cuja influência sobre os conteúdos filosóficos é inevitável e nem sempre controlável.

6. A obscuridade conceitual pertence à própria natureza do meio linguístico e limita a realização da clareza filosófica, como mostram a multiplicidade de sentidos de representação, a oscilação do conceito de constituição entre formação de sentido e criação e o emprego predominantemente operativo de termos como epoché e subjetividade transcendental.

7. A substituição integral da linguagem natural por uma linguagem transcendental enfrenta uma dificuldade recorrente, pois a própria expressão da redução fenomenológica depende de termos convencionais que exigem novos esclarecimentos, mantendo a tensão entre o uso operativo dos conceitos e sua determinação temática.

8. A exigência de esclarecer previamente toda a linguagem produziria uma regressão interminável que impediria alcançar as coisas mesmas, enquanto a fenomenologia husserliana preserva a mobilidade de seus conceitos conforme o avanço das análises e confia na designação intuitiva para assegurar sua compreensão, atribuindo as dificuldades sobretudo à orientação não habitual exigida pela investigação da consciência.

9. A divergência entre Husserl e Fink envolve diferentes níveis de investigação, pois, enquanto o primeiro considera excessivas as objeções linguísticas e reconduz a análise à experiência antepredicativa, o segundo desenvolve uma doutrina transcendental do método que interroga o emprego de uma linguagem referida aos entes para esclarecer o âmbito de seu surgimento, aproximando-se, sob influência de Heidegger, de uma dimensão anterior à objetivação.

10. A discussão dos conceitos fundamentais confronta uma fenomenologia que encontra no preenchimento intuitivo a garantia de sua precisão descritiva com o reconhecimento de que todo pensamento filosófico depende de formulação e transmissão verbal, tornando incontornável a investigação da relação entre filosofia e linguagem.

11. A explicitação dos conceitos operativos não elimina as sombras do pensamento, pois sua tematização requer novos conceitos não esclarecidos, e a impossibilidade de uma transparência integral decorre da finitude do próprio filosofar, que não pode realizar-se como posse plenamente transparente da verdade.

12. A apreensão humana dos entes em seu conjunto alcança a totalidade somente a partir de uma perspectiva finita, cuja formulação conceitual depende de outros conceitos mantidos na sombra, impedindo que o todo se ofereça a uma compreensão universal completamente esclarecida.

13. As sombras conceituais constituem uma dimensão essencial e produtiva do pensamento finito, em vez de simples erros posteriormente corrigíveis, pois a força de esclarecimento dos conceitos fundamentais se alimenta também dos recursos que permanecem irrefletidos, aprofundando simultaneamente a iluminação e a sombra que a acompanha.

AS SOMBRAS CONCEITUAIS

1. A presença de conceitos operativos insuficientemente tematizados também se verifica em Heidegger, especialmente na elucidação recíproca de ser e tempo, mas sua fenomenologia integra as sombras ao próprio conteúdo investigado, desde a significatividade mundana até a compreensão da verdade como jogo de ocultamento e desocultamento que comporta uma não verdade constitutiva.

2. A transferência das sombras operativas do plano conceitual para o conteúdo fenomenológico depende de uma interpretação radical das coisas mesmas, pois, enquanto Husserl suspende a atitude natural para investigar a constituição do mundo, Heidegger dirige a investigação precisamente à experiência fáctica que essa suspensão coloca entre parênteses.

3. As coisas que devem ser conhecidas não se apresentam apenas como objetos de constituição e validade, mas vêm ao encontro da investigação em direções problemáticas já delineadas pela existência fáctica, cuja situação antecede e orienta a possibilidade do questionamento.

4. O retorno às coisas mesmas exige deixá-las vir ao encontro no interior de uma problemática especificamente prefigurada, em vez de supor uma apresentação inteiramente livre de qualquer modo de perguntar.

5. A reivindicação inicial da primazia do quê sobre o como procura preservar a livre doação das coisas contra uma orientação fenomenológica previamente subordinada ao ideal teórico da matemática, sem identificar ainda o conteúdo investigado com uma essência fixa ou com um núcleo metafísico a ser desmantelado pela destruição (Destruktion).

6. A partir de 1925, a crítica heideggeriana à redução fenomenológica modifica essa relação, associando o quê a uma objetualidade separada de seu contexto mundano e reconduzindo o como ao aparecer primário e pré-temático das coisas na ocupação cotidiana, em que elas se tornam acessíveis segundo seu para-quê fáctico.

7. A investigação do ser exige um terreno fenomenal prévio que não se oferece originariamente ao conhecimento teórico, mas ao trato ocupado com as coisas enquanto pragmata, isto é, enquanto utensílios cujo sentido se realiza nos diferentes modos de utilização, como escrever, trabalhar, viajar ou medir.

8. O utensílio manifesta seu modo de ser mais próprio quando permanece absorvido no uso e não é tematizado, de maneira que o martelo aparece genuinamente no martelar, enquanto a quebra ou a ausência interrompem sua disponibilidade e fazem sobressair tanto sua inutilidade quanto as relações do mundo circundante que sustentavam a ocupação.

9. A compreensão operativa estende-se dos entes intramundanos ao próprio mundo circundante, pois o não se anunciar do mundo torna possível a discrição do que está à mão, enquanto sua abertura significativa depende da ocupação circunspectiva e emerge da dimensão não tematizada em que os utensílios permanecem operantes.

10. A manifestação das coisas e do mundo a partir de seu retraimento operativo exige conceitos situacionais e não objetivantes, capazes de expressar a dinâmica da experiência em sua realização sem convertê-la em estruturas teóricas fixas que desfaçam o jogo de claro e escuro próprio de seu aparecer.

O PAPEL DAS INDICAÇÕES FORMAIS

1. A preocupação heideggeriana com a expressão filosófica culmina na exigência de libertar a linguagem da lógica e da gramática metafísicas, mas já aparece nas primeiras lições de Friburgo como crítica à identificação imediata entre visão fenomenológica e descrição, que pressupõe tanto a possibilidade de formular linguisticamente o visto quanto o caráter objetivante da linguagem.

2. A descrição fenomenológica envolve pressupostos sobre a verbalização integral dos fenômenos e sobre a função objetivante dos conceitos, exigindo distinguir descrição e teorização e reconhecer que o emprego classificatório da linguagem deriva de práticas científicas orientadas por uma compreensão restrita da objetualidade, do método e do acesso.

3. A adoção irrefletida das funções classificatórias dos conceitos submeteria os fenômenos à mesma articulação categorial aplicada à natureza, embora o domínio fenomenológico seja constituído primeiramente pela significatividade mundana, cuja expressão precisa nascer da experiência vivida do mundo e não de uma determinação necessariamente teórica.

4. As indicações formais introduzidas nas lições sobre fenomenologia da religião constituem conceitos esclarecedores que orientam a investigação sem antecipar determinações do problema, limitando-se a indicar uma direção de acesso ao fenômeno, uma situação de compreensão e a posição de quem compreende a partir dela.

5. O caráter vazio e negativo da indicação não implica arbitrariedade, pois sua forma fornece uma estrutura referencial positiva que orienta o encontro com o fenômeno e abre o caminho para sua realização originária, sem que formal signifique oposição à matéria ou determinação eidética.

6. A formação das indicações formais articula um momento passivo, no qual a experiência prévia do fenômeno em seu como imprime estrutura ao signo, e um momento ativo, no qual o signo assim formado evoca essa experiência e orienta sua realização em um contexto de sentido, mantendo a tensão entre o caminho de proveniência e a direção para a qual aponta.

7. A indicação formal comporta uma circularidade hermenêutica porque se origina da experiência compreensiva para a qual posteriormente conduz, articulando a ausência de conteúdo decorrente do ocultamento operativo com o horizonte positivo de significatividade em que aquilo que opera já é compreendido segundo seu para-quê.

8. A circularidade deve ser assumida mediante o uso dos conceitos como orientações de uma práxis, na qual o fenômeno precisa ser conquistado em sua concreção fáctica pela execução da indicação, tornando a compreensão filosófica inseparável do modo como a experiência é realizada e se explicita.

CONCLUSÃO

1. A passagem heideggeriana do quê ao como consiste na apropriação hermenêutica da diferença significativa entre o modo de doação do fenômeno e seu aparecer como algo, pois toda experiência intencional ou ocupacional encontra as coisas dentro de um horizonte de manifestação no qual elas já possuem sentido, forma, estrutura ou significação.

2. A investigação fenomenológica do que se dá e de seu modo de doação desenvolve-se em duas direções, pois a fenomenologia transcendental husserliana reconduz a estrutura do algo como algo aos atos de significação, enquanto a fenomenologia hermenêutica heideggeriana a situa na significatividade fáctica do mundo.

3. A experiência do utensílio em seu uso exige distinguir a estrutura apofântica do enunciado predicativo da estrutura hermenêutica antepredicativa, na qual uma mesa é compreendida diretamente como mesa a partir de uma rede significativa previamente aberta, sem precisar ser transformada em sujeito temático de uma proposição para manifestar aquilo que é.

4. A predicação teórica depende da experiência hermenêutica prévia do horizonte de significatividade, cuja anterioridade ao enunciado não implica ausência de linguagem, e a necessidade de expressá-la conduz às indicações formais como conceitos que orientam para uma experiência fundamental sem antecipar seu conteúdo, cuja realização ocorre no próprio nascimento do sentido.

5. A especificidade das indicações formais reside na superação do modelo representacional que atribui à linguagem uma função meramente designativa, pois os conceitos filosóficos apontam para aquilo que permanece essencialmente oculto e procuram abalar a aparente solidez do já conhecido, em vez de simplesmente nomear objetos estabelecidos ou comunicar novas descobertas objetuais.