WHITE, Carol J. Time and Death: Heidegger's Analysis of Being-upon-the-End. Edited by Mark Ralkowski; foreword by Hubert L. Dreyfus. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2005.
3.1 A Temporalidade como Sentido do Ser do Ser-aí
1. Dada a compreensão dominante do ser, a noção comum de tempo e as reflexões filosóficas correntes sobre ele, a temporalidade do ser-aí pode parecer estranha, pois não “corresponde ao que é acessível à compreensão ordinária como 'tempo'”, de modo que nem o modo como o tempo é concebido na experiência ordinária nem os problemas oriundos da consciência dele podem servir de ponto de partida para a análise heideggeriana do tempo.
2. O tempo do ser do ser-aí é mais uma questão de kairós, o tempo da oportunidade, do que de chrónos, o tempo dos relógios, embora um dos objetivos de Heidegger seja mostrar que este deriva daquele, pois a temporalidade põe o ser-aí “em sintonia temporal” com a abertura do ser nas práticas culturais, sendo o “horizonte para a compreensão do ser que pertence essencialmente ao ser-aí”.
3. Em nenhum momento de Ser e Tempo Heidegger desce a uma análise detalhada dos aspectos particulares da consciência do tempo semelhante à de Edmund Husserl, ou às de Kant e Bergson, embora sua discussão tenha sido quase universalmente lida como uma versão “existencialista” das lições de Husserl que ele próprio editou, Lições para uma Fenomenologia da Consciência Interna do Tempo.
4. O “horizonte transcendental” buscado não é, porém, a “franja” de expectativas pertencente à consciência do tempo, como era para Husserl, e Ser e Tempo nem começou nem terminou com tal subjetividade, pois esse horizonte “não é o da consciência subjetiva, mas é definido como a temporalidade existencial-extática do ser-aí”.
5. Para situar a discussão da temporalidade, é preciso recordar que Ser e Tempo já expusera as dimensões essenciais do ser-aí e as reconduzira à sua origem no cuidado (Sorge), lembrando Heidegger, no início da reinterpretação temporal das estruturas do cuidado, que “o ser-todo do ser-aí como cuidado indica: preceder-a-si-mesmo já-sendo-em (um mundo) como ser-junto-a (o que é dentro do mundo)”, e que “a unidade originária da estrutura do cuidado reside na temporalidade”.
6. Na Primeira Seção, Heidegger já sustentara uma prioridade nas estruturas existenciais do ser do ser-aí, pondo a compreensão, sempre preceder-a-si-mesma, como dimensão mais importante, aquela que libera a capacidade do ser-aí de “já-ser-em” um mundo, junto aos papéis, metas e utensílios do ambiente cotidiano, sendo a temporalidade, como sentido do ser do ser-aí, a condição de possibilidade da existência desse ente que compreende o ser.
7. A “temporalização” não acontece fundamentalmente num fluxo de consciência de momento a momento, pois, em lições pouco posteriores a Ser e Tempo que apresentam a temporalidade num contexto que dispensa a análise da morte e evita seu efeito dispersivo, Heidegger observa que a “entrada no mundo” (Welteingang) só acontece quando a temporalidade se temporaliza, e tal entrada não ocorre quando uma consciência individual desperta para começar o dia, sendo antes característica do “acontecer” (Geschehen) temporal e histórico do ser-aí.
8. Para explicar a entrada no mundo, as ilustrações concretas de Heidegger são a “metafísica do mito” e o fim da história da filosofia, e não, como em Husserl, a consciência de uma melodia ou o sentido de uma frase possibilitados pela retenção e expectativa de seus elementos ausentes, pois a consciência encontra sua unidade na significatividade do mundo “temporalizado” ao seu redor, um mundo em que se presta atenção a melodias e frases, e é esse mundo do ser-aí o fenômeno a ser explicado.
9. Trata-se, portanto, de ver como a temporalidade torna possível a compreensão do ser que todos compartilham, e não apenas a consciência de uma pessoa, perguntando-se por que chamar esse fenômeno de “temporalidade” e que relação ele tem com o tempo no sentido ordinário para merecer o nome de “tempo originário”.