A determinação do significado do traço fundamental da mesmidade da ousia deve ser feita ou a partir do “oposto de” ou da “relação com” a não-mesmidade, isto é, com a multiplicidade, a mudança e a transformação, sendo que em
Platão essa determinação se dá a partir do “oposto” do múltiplo, enquanto em
Aristóteles se dá a partir da “relação” com o múltiplo, os atributos incidentais, os symbebekota.
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O significado da mesmidade da ousia deve ser determinado em relação à não-mesmidade, que inclui a multiplicidade, a mudança e a transformação.
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Em Platão, essa determinação é feita a partir do “oposto” do múltiplo, em consonância com sua questão sobre o “um e o múltiplo”.
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Em Aristóteles, a determinação é feita a partir da “relação” com o múltiplo, ou seja, com os atributos incidentais, os symbebekota.
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Essa relação obtém sua expressão decisiva em Aristóteles na problemática da “mudança na essência” e do “vir a ser da essência”, a qual esclarece como um pensamento pré-determinado por uma imagem-guia cósmica transformou o caos da mudança e do vir a ser incessantes em uma “ordem em movimento”, e indica por que um tipo de pensamento que não é mais determinado por uma ideia cósmica da realidade deve romper com essas concepções.
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A relação entre mesmidade e não-mesmidade atinge sua expressão decisiva na problemática aristotélica da “mudança na essência” e do “vir a ser da essência”.
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Essa problemática mostra como um pensamento pré-determinado por uma imagem-guia cósmica transformou o caos da mudança e do vir a ser incessantes em uma “ordem em movimento”.
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Ela indica por que um tipo de pensamento que não é mais determinado por uma ideia cósmica da realidade deve romper com essas concepções.
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Aristóteles compreendeu a mudança na essência de um ente concreto determinado a partir de três categorias: a alteração em sentido estrito, que afeta as determinações qualitativas da essência; o aumento ou a diminuição, que afeta as determinações quantitativas; e a mudança de lugar, que consiste na alteração do lugar do ente particular concreto.
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A mudança na essência de um ente concreto determinado pode ser de três tipos.
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O primeiro tipo é a alteração em sentido estrito, que afeta as determinações qualitativas da essência.
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O segundo tipo é o aumento ou a diminuição, que afeta as determinações quantitativas da essência.
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O terceiro tipo é a mudança de lugar, que consiste na alteração do lugar do ente particular concreto.
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A alteração de um atributo incidental em outro ocorre de tal maneira que o desaparecimento de um significa o surgimento do outro, mas essa forma de “não-mesmidade” mantém uma estreita referência à mesmidade, da qual obtém a forma de um “movimento ordenado”, pois a “transformação” se dá segundo “aquilo que jaz no fundamento”, a ousia primeira, que perdura como a mesma em sua relação com as determinações mutáveis.
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A alteração de um atributo incidental em outro, como a mudança de “não educado” para “educado”, ocorre de modo que o desaparecimento de um significa o surgimento do outro.
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Essa “não-mesmidade” mantém uma estreita referência à mesmidade, da qual obtém a forma de um “movimento ordenado”.
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A “transformação” se dá segundo “aquilo que jaz no fundamento”, a ousia primeira, que perdura como a mesma em sua relação com as determinações mutáveis.
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A mudança qualitativa, portanto, não pode atentar contra a ordem fundamentalmente autopreservadora da essência como aquilo-que-é, uma vez que essa ordem, a partir de sua mesmidade, confere ordem também às determinações mutáveis “não-mesmas”, de modo que a “transformação” só ocorre entre contrários cujas potencialidades são pré-determinadas pela ousia, o fundamento de ambos.
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A mudança qualitativa não pode atentar contra a ordem fundamentalmente autopreservadora da essência como aquilo-que-é.
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Essa ordem, a partir de sua mesmidade, confere ordem também às determinações mutáveis “não-mesmas”.
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A “transformação” só ocorre entre contrários cujas potencialidades são pré-determinadas pela ousia, o fundamento de ambos.
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Aristóteles, no entanto, também concebeu um tipo de mudança com respeito à primeira categoria, a própria ousia, que é o grave problema do vir a ser da essência enquanto synholon, no qual reside o verdadeiro problema da gênese, ou seja, o emergir no ser ou na essência de um homem, um animal, uma coisa ou uma obra de arte.
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Aristóteles concebeu um tipo de mudança com respeito à primeira categoria, a própria ousia.
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Esse é o grave problema do vir a ser da essência enquanto synholon.
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Nesse emergir no ser ou na essência de um homem, um animal, uma coisa ou uma obra de arte reside o verdadeiro problema da gênese.
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Deve-se notar que Aristóteles, em De Generatione et Corruptione, concebeu essa problemática do vir a ser da essência segundo o modelo da alteração, embora se tratasse de uma problemática inteiramente diferente da mera alteração na essência, e é compreensível que ele tenha sido obrigado a fazê-lo para preservar sua concepção do significado do ser, mantendo-se fiel ao princípio eleático sem, no entanto, negar a possibilidade do movimento e do vir a ser a partir do “ser determinado”.
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Aristóteles concebeu a problemática do vir a ser da essência segundo o modelo da alteração, embora fosse uma problemática diferente.
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Ele foi obrigado a fazê-lo para preservar sua concepção do significado do ser, mantendo-se fiel ao princípio eleático sem negar a possibilidade do movimento e do vir a ser a partir do “ser determinado”.
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Em primeiro lugar, também para o caso do vir a ser da essência deve haver um substrato, algo sempre já presente, um hypokeimenon, para que algo possa vir a ser, e, em Física, Aristóteles se refere a um substrato “perceptível”, como a semente ou o bronze, que já está sempre presente antes que um novo ser possa surgir.
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Para que algo possa vir a ser, deve haver um substrato, algo sempre já presente, um hypokeimenon.
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Em Física, Aristóteles se refere a um substrato “perceptível”, como a semente ou o bronze, que já está sempre presente antes que um novo ser possa surgir.
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O tratado De Generatione et Corruptione vai além dessa posição, reconhecendo que o substrato não precisa ser apenas algo perceptível pelos sentidos, mas pode ser entendido como aquilo que já está sempre presente em potência e perdura, como o ser do vivente na gênese animal-humana, que está de acordo com o princípio eleático “para além de todo vir a ser e perecer”, sendo aquilo que, em relação à multiplicidade como sequência de gerações, permanece o mesmo.
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O tratado De Generatione et Corruptione reconhece que o substrato não precisa ser apenas algo perceptível pelos sentidos.
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O substrato pode ser entendido como aquilo que já está sempre presente em potência e perdura.
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O ser do vivente na gênese animal-humana está de acordo com o princípio eleático “para além de todo vir a ser e perecer”, permanecendo o mesmo em relação à multiplicidade como sequência de gerações.
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Na medida em que, na genesis haplös, se trata do vir a ser de “ser determinado” em “ser determinado”, dois elementos estruturais adicionais pertencem ao acontecimento como um todo: a forma, para onde se dirige o movimento da gênese, e a forma privativa, de onde parte o movimento, determinações essas que, juntamente com o substrato como hypokeimenon, pré-estruturam extensivamente o processo de gênese, de modo que o ideal aristotélico de uma “ordem” que se move dentro de si mesma não é de modo algum ameaçado pela possibilidade de uma “transformação”.
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Na genesis haplös, dois elementos estruturais adicionais pertencem ao acontecimento como um todo: a forma, para onde se dirige o movimento da gênese, e a forma privativa, de onde parte o movimento.
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Essas determinações, juntamente com o substrato como hypokeimenon, pré-estruturam extensivamente o processo de gênese.
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O ideal aristotélico de uma “ordem” que se move dentro de si mesma não é ameaçado pela possibilidade de uma “transformação”.
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Nisso reside a consequência, tão decisiva para a história do problema, de que mesmo a transformação da essência não permite a origem de algo realmente novo, algo nunca antes existente, consequência que determinou o curso da filosofia posterior e a enredou em grandes dificuldades sempre que a chegada de algo novo precisava ser explicada, deixando inexplicados os resultados da ciência natural e barrando o acesso filosófico ao segredo da obra de arte.
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A consequência decisiva é que mesmo a transformação da essência não permite a origem de algo realmente novo, algo nunca antes existente.
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Essa consequência determinou o curso da filosofia posterior e a enredou em grandes dificuldades sempre que a chegada de algo novo precisava ser explicada.
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Ela deixou inexplicados os resultados da ciência natural, como o surgimento de novas espécies e mutações, e barrou o acesso filosófico ao segredo da obra de arte, que cria algo radicalmente novo.
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Acima de tudo, o traço fundamental da mesmidade da ousia, concebido dessa forma, decidiu o papel do homem de uma maneira que não deixou espaço para o fato de que ele é um participante no vir a ser do novo, como na arte ou na tecnologia.
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O traço fundamental da mesmidade da ousia, concebido dessa forma, decidiu o papel do homem.
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Esse papel foi decidido de uma maneira que não deixou espaço para o fato de que o homem é um participante no vir a ser do novo.
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Essa participação no novo ocorre em domínios como a arte ou a tecnologia.